sábado, 17 de setembro de 2016

"Quinto Império", de Dominique de Roux, excertos - Portugal e o Futuro

As teses de Spínola nada têm de revolucionário: apenas uma Comunidade lusitana, de Lisboa a Timor, e a autodeterminação dos povos. Conceitos requentados, um apanhado de ideias gaullianas que o tempo tornou insossas, cozinhadas pelos tecnocratas da SEDES e outros europeus de carreira do clã do Expresso. Com vinte anos de atraso, os senhoritos da Rua Duque de Palmela, conservadores dum outro género, pálidas estrelas do céu marcelista, tinham enfim encontrado uma razão para se determinarem. Já que explicavam tudo enfiando frases umas nas outras, ei-los agora certos de que o liberalismo encontrou o seu campeão. Spínola, quando só era português, vá lá, mas quando se julga de Gaulle, é o vazio incomensurável, a diarreia multinacional ao sol do Porto. 

Esquecem-se que ele aprendeu a ler aos sessenta anos. As pessoas como ele não lêem nada (excepto o Reader's Digest). Estranho por profissão ao livro, fica tão surpreendido de ver um sob a sua assinatura que em vez de assimilar modestamente as reflexões dos outros, julga-se logo um pensador. Estilo nenhum. Fica cavaleiro gótico, Dona Maria. 

Para mais, ei-lo dependente dos seus conselheiros, que o espicaçam ao fornecer-lhe cópias em proporções sumérias. Apertado no seu crânio de simples militar, teria sido preciso acrescentar-lhe quatro andares para ser de Gaulle. Quando José Blanco lhe administra Hegel, a história do mundo é a justiça do mundo, sente vertigens. Recusa Da guerra, convencido que Clausewitz o plagia. Nietzsche atordoa-o. Engels confunde-o. Quando aborda Marx, corre a fechar-se em casa do irmão em Sintra onde cada habitante viu pelo menos uma vez na vida um disco voador. 

O Expresso, que leva Spínola às nuvens, será o primeiro a demoli-lo quando tiver encontrado melhor, o MFA. António Teimo, que ao menos, na sua província, em Borba, lia os ocultistas e Abellio, chega à conclusão que Spínola não devia ter assinado. Em torno de Portugal e o Futuro, dois clãs: o do general Francisco da Costa Gomes e dos seus capitães, e o do eterno dr. Joaquim Silva Cunha, ministro da Defesa, apoiado pelo Presidente da República, que, surpreendido com a repercussão da obra, reclama um comentário oficial: Esclarecer.

É sabido que o Movimento dos Capitães começou com uma história de promoções. E depois, o ressentimento dá que pensar. Sempre o encadeamento infinito das circunstâncias. Dos Puros (oficiais de carreira) aos Espúrios (milicianos), palavra que significa também «bastardos». 

De um lado, reivindicações legítimas, um grupo envolvendo Andrade Moura, Armando Ramos, Virgílio Varela, Monge, Neves, Casanova Ferreira; do outro, políticos com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço. Estes têm uma cabeça maior que o corpo, e um programa preciso. 

À facção de Monge patriota, que quer derrubar o regime «com as armas na mão» e organizar eleições livres, opõe-se a facção esquerdista de Melo Antunes, armada apenas com o seu programa político e que não quer zaragatas. Conta com a opinião internacional quando, apresentando-se de farda de gala diante do ministério da Defesa, aí começará uma greve de fome. «E nós havemos de devolver as nossas cruzes de guerra ao ministro. Um escândalo universal!» Miserabilismo romântico de Melo Antunes. 

Os Monge são idealistas exaltados, prontos a lançarem-se na aventura «por amor da pátria»; os macrocéfalos pensam derrubar a «ditadura» deitando-se no chão do Terreiro do Paço. Um homem para eles, Costa Gomes! «Travou uma luta magnífica em Moçambique contra a subversão.» Tal é a ideia de Antunes, fanático da moderação, que inventou um socialismo de tecedeira de 'anjinhos à base de leituras dispares: Herculano, Antero de Quental, o iluminado dos Açores, espécie de Leopardi; Sérgio, muito filósofo francês do século XVIII com luzes de Proudhon e Auguste Comte — a parvoíce à francesa. Os seus autores estrangeiros: Marx, Rosa Luxemburgo e as publicações Maspero, que ele encontra na livraria cooperativa da Universidade. Transfigurado por este brique-à-braque, envenenado de impaciência, sonha com um mundo angélico cujo príncipe seria ele, arcanjo gelatinoso que soçobrará no equívoco logo que tiver adoptado um vocabulário.

Para evitar o choque entre os dois movimentos, Spínola consegue criar uma comissão coordenadora onde aparecem os majores Otelo Saraiva de Carvalho e Hugo dos Santos. A primeira reunião do MFA terá lugar em Cascais. A aviação, que não está representada, garante que, no dia D, não atirará sobre os amotinados. A marinha, minada de oficiais vermelhos, uma tradição republicana, envia quatro representantes manobrados por Rosa Coutinho, submarino do PCP. 

Cento e noventa e seis oficiais tagarelam sobre a democracia pluralista, navegam entre Spínola e Costa Gomes, entre o calor da Baía e o fiorde. Quem quer para chefe único do movimento o general Spínola levante a mão! Ninguém levanta. Quem quer Spínola e Costa Gomes juntos levante a mão! Unanimidade! 

Assim são as conjurações! Desdobramentos de baratas. Trata-se por vezes de débeis mentais absolutos. Antigamente, as pessoas tinham vergonha de se confessarem imbecis. Hoje, o cretinismo é também o privilégio da esquerda. Ontem, no metro de Paris, um letreiro enorme: «Alto à democracia» e no Centro Católico de Assas, um pano vermelho: «A democracia não passará.»

Saraiva de Carvalho, que ninguém leva a sério, é ao mesmo tempo a mascote dos insurrectos e o agente de ligação de Antunes que o soube impor à comissão do plano militar. O seu papel limita-se a transmitir, mas fielmente... Seria antes pela plebe. Ora, eis que o histrião encantador e gabarola dos números de galucho nos palcos da Guiné entra na pele dum outro personagem, Otelo revolucionário e estratego, que se lança de corpo e alma na conjura, como já em tempos se tinha embeiçado pela Legião Portuguesa, instrutor a 400 escudos por mês, ou como se tinha sabido insinuar no grupo CUF, agente imobiliário; cantor de fado para Edward Kennedy! 

No governo, sabe-se mais ou menos que se está a tramar um golpe. Caetano tem contactos sem os ter, nomeadamente com Spínola, mas guardando umas distâncias tais que lhe deu o seu aval sem que a decisão lhe seja imputável. 

Quanto à PIDE-DGS, funciona mal com Caetano, que a destrói ao mesmo tempo que a conserva. Desde que se chama DGS, já só é um mito, delegada para a vigilância dos grupúsculos de esquerda e dos meios estudantis. Ia longe o tempo em que ela pululava, mais numerosa à noite que coelhos bravos. Pode-se abolir a tortura, nunca acomodar a polícia. De resto, Silva Pais e os seus Barbieri (os dois chefes da polícia política) trabalharam tantas vezes em Africa, de mãos dadas com os Capitães, que dão provas, em relação ao Movimento, de uma estranha irresolução. 

Ninguém, neste meio pequeno, se pode desembaraçar dum passado comum inscrito no corpo. O pai do próprio Melo Antunes é um agente notável e todos os movimentos de libertação têm contactos com a PIDE-DGS. Nito Alves, entre outros, encarregado em Angola de infiltrar a primeira região militar do MPLA... 

Em 1966, o general Deslandes, colocado em Luanda, sugere ao ministro do Ultramar, Adriano Moreira, a solução rodesiana. É rejeitada mas, desde esse instante, Champlicano nunca mais deixará de ter contactos secretos com o MPLA, o PAIGC e a Frelimo. Tudo está atacado de inutilidade mortal. Tudo soçobra.  

A 14 de Março, os ultras (Presidente da República e Silva Cunha) conseguem a destituição dos generais Costa Gomes e Spínola. 

(...)
17 de Março de 1974: os autores do golpe das Caldas estão na cadeia. O Movimento dos Capitães viveu. O Movimento das Forças Armadas começa. Os jornais minimizam. Caetano repreende os «inocentes», levianos talvez, na televisão. Tudo volta à ordem. Esquece-se Spínola, que perdeu a ocasião e mantém um silêncio absoluto sobre o fiasco. Mas Antunes, que inventou Otelo para estrangular o putsch sem ele saber, pede-lhe que retome por conta deles o plano de Casanova.

Os acontecimentos formam-se por si mesmos, mas depois do 16 de Março, a estrada está livre. Os capitães ideólogos souberam tirar uma lição da fuga do governo para Monsanto! Vão poder pôr em execução sem falhas um plano já experimentado. Estratego modelo este Casanova, se não tivesse sido vendido. Os livros que Antunes leu, interpretados à sua maneira, conseguirão o 25 de Abril e porão Otelo em foco. Esse, tinha sido sorteado à palhinha, um bom companheiro, grato aos seus amigos, que o vestem com a pele do urso. 

António Chapalimaud afirmou, no entanto, o seu apoio a Spínola aquando da assembleia geral do Banco Pinto e Sotto Mayor. Única nota discordante: Dar-Es-Sallam, onde Marcelino dos Santos, vice-presidente da Frelimo, acusa este mesmo general de perpetuar de outro modo «o sistema português da opressão e exploração». 

Estão drogados com éter, os responsáveis deste regime à deriva. E a fina-flor progressista, em Megève, encontra-se com Nelson Rockefeller, Luns (da NATO), um Helmut Schmidt, todos os patrões das «multi». Interrogam os embaixadores estrangeiros sobre os acontecimentos das Caldas, pedindo-lhes respostas de guarda-livros. «Reina a calma em todo o país»...

(...)
Eu reencontrei Otelo (na foto à esquerda aquanda da sua primeira comissão, em Angola) em plena história de amor. Tinha posto o pé em ramo verde. Cada vez que lhe dizia: «Amo-te», ela respondia: «Cala-te, tu falas depois.» Parecia aparvalhado de sono, enfiado numa poltrona de pelúcia, almofadas bordadas, mobiliário Olaio. Numa estante, Júlio Dinis, Octave Feuillet local, e alguns livros desse Jorge Amado, mesmo bom para as pessoas que lêem isso. Na parede, a reprodução d'A Ceia de Leonardo, que coroa todos os lares do soldado: «Em verdade vos digo, um de vós me há-de trair.» 

Otelo: «Com esta vida, já não durmo. Ainda menos tempo para ler. Em breve, vai haver barulho.» 

Que mudança desde Bissau! Cezarzinho tinha engordado, o queixo ao cubo e o maxilar... Gozo e trivialidade tinham guarnecido o jovem capitão que teria podido sonhar com o teatro. Diante de mim, um adulto ultrapassado pelas suas ambições. Como um pára da Argélia, um reprovado alemão dos anos 25, eu sentia-o fora do real, fascinado pelo poder popular, que reivindicava para os seus camaradas e ele mesmo em nome duma vingança e dum ideal confuso, nacional e socialista. 

Solene, tinha-se posto a explicar-me, plácido como um touro manso, a sua Revolução. Como eles a viam, ele e os seus camaradas, esta festa socialista, toda a gente feliz, construindo à saloio uma sociedade sem classes, falanstério, kibboutz e campo de juventude. Um sentimentalismo de obscura administração de mato. Ele só acreditava no vivido. 

Teria diante de mim uma encarnação portuguesa da Internacional do fascismo vermelho que, do castrismo ao esquerdismo, recruta todos os dias uns meia-tijela? Recusava-me a acreditar. 

— Você ouviu-o, François, o nosso general Spínola na Guiné, Pátria, Pátria, mas nem uma vez a palavra popular. Fervia a demolir Spínola, mimando o seu ar de prelado quando se dirigia ao povo: Bom povo português. 

E eu, que tinha vindo a casa de Otelo para lhe falar do gaullismo, duma revolução gaullista em Portugal! 

Continuava ele: — O cavalo foi dado a Spínola. Nós teríamos preferido que ele caísse à esquerda no galope. 

Com a mania portuguesa de remontar sempre ao dilúvio ou de se calar, eu tinha direito à biografia completa, ao concurso hípico, à lista dos prémios...

— A sua Revolução, Otelo, eu aconselho-o... Reforma agrária total. Unidades de produções agrárias controladas pelo MFA. Quarentena dos partidos. Ofensiva, Otelo, contra o PS e seus aliados de esquerda. Nacionalização, expropriação a todo o custo. Deixe só de pé os patrões nacionais de tendência MFA... 

Ele só escutara para me dizer: os franceses são assim, eu sei, eu sei, eu sei... «Parênteses, nós os capitães, nós somos contra a propriedade e pela camaradagem, apenas.» Tinha retomado o fio da conversa sobre o outro à rédea solta. As dragonadas, revistas de lanceiros, cargas contra os grevistas... 

A partir da África, eu sentia que Otelo não podia deixar de invejar, primeiro, o coronel em Angola, e depois o procônsul junto a quem eu o tinha visto servir com que despeito amoroso. Inesgotável. 

Eu consegui dizer uma palavra: Os esquemas marxistas, Otelo, são inaplicáveis em Portugal. Não há indústria, Otelo, muito poucos proletários. Realize ao menos aquilo que de Gaulle não teve tempo para impor à Europa: liquidação do capitalismo pretensamente nacional, na realidade estrutura de dissimulação imperialista. 

Ele escutava. «Otelo, desabitue este país! A classe dominante vive habitualmente. Num país despolitizado a este ponto e psico-socialmente levado a aceitar uma tutela ditatorial, evite a politização que prepararia um novo totalitarismo. Impeça todo o paternalismo e mesmo todo o dirigismo. Reserve a arbitragem para si.»

Otelo engolfava-se na verbosidade à moda, as palavras para exprimir o quê, repetidas sem fim, bagatelas tiradas dos livros de sociologia que não duram dez anos... Ele falava de organizar «um Kominform português», uma semântica de combate, «urna linha socialista-nacional-revolucionária de autenticidade portuguesa no seu combate político-revolucionário de vanguarda». A sua referência: Melo Antunes. Tinha, por ele, a razão da história, o código dos costumes. O único que tinha uma máquina de escrever. 

Vasco Lourenço
(...)tocavam à campainha. Aquilo movia-se devagar. Primeiro, sapatorro número cinquenta, graxa preta, sola dupla e calças de cagar em pé, os bolsos atafulhados de tabaco. Seguia-se a corrente de relógio presa aos suspensórios e chegava-se ao tronco dum pesadão, de coração nas mãos, com certeza, e cheio de malícia, como estava cheio também do que tinha comido na véspera. Melena na testa, deitar-lhe-íamos fogo para fazer rebentar o petardo. Este Vasco Lourenço que tinha o punho do tamanho da cabeça, era capitão, igualmente, mas não satisfeito de ser só isso. Queria, por sua vez, fazer a sua experiência, desempenhar um papel, ambicioso obstinado pelo lugar de Salazar. O nome dele lembrava o quê? Era ele o espantalho de Bissau, expressão que usavam para qualificar um oficial que passava as estribeiras? 

Eu estava a mais. Tinham que reflectir entre eles e reflectir em quê! Phraséologie oblige. Otelo acompanhou-me até baixo, querido tanso. Eu deixava-o entregue aos seus planos, puxar um pouco daqui, um pouco dali, ideias a uns, carícias aos outros, fidalgote na sua terra, tal como também se escreve um romance. No fim de cada frase, mil possibilidades de guardar, de cortar, de condensar, tudo do domínio do arbitrário. 

O exército em fuga atirava-se à aposta lançada por Spínola, mediador versátil a quem de Gaulle não teria dado dez galinhas a guardar. 

A porta fechou-se sobre os dois compadres! Eu escutava-os a resfolegar: 

— Ó rapaz! Ó papos d'anjo! Tu bochechas! Remoques de caserna, em que voltava batatas. Eu soube depois do 25 de Abril que aquilo queria dizer «povo»... 
A minha indiscrição foi breve. Oficiais lançavam-se pelas escadas, convexos, desbragados, uma quinzena de dinossauros anões, mal instruídos em ideologia. Última reunião dos golpistas. A melhor profissão do mundo, é, apesar de tudo, a de revolucionário. Eu cruzava a História... A História é horrível e vazia.

(...)
24 de Abril de 1974! Um destes últimos belos dias! 
O dinheiro isola ainda no Ritz, refúgio dos corrilhos e dos homens de negócios detentores de segredos de Estado. Vêm às informações junto aos criados do bar que não escondem aos iniciados o pertencerem à PIDE. 

- Senhor Jardim, em Tomar deitaram a mão a um estudante. Levava uma mala da Frelimo. 

Jardim virou-se para mim. Está a ouvir, a desintegração por toda a parte. E estamos em Abril! Tinha-me chamado com toda a urgência ao Ritz, onde eu o encontrara, mal barbeado, atrás de óculos escuros, em plena conversa. 

«Enganaram-me, François, a mim, Jardim... O próprio Caetano! Aqui está: «Depois do caso Wyriamu, eu resolvo conceder sozinho a independência a Moçambique. Tinha podido organizar, graças às minhas relações pessoais com a Zâmbia e o Malávi, as primeiras conversações do cessar-fogo. Kaúnda representava a Frelimo e Banda, Portugal, por meu intermédio. 

Estávamos neste pé, quando — não sei que mosca me picou — eu decido informar Caetano. Parvoíce, não é, ter uma consciência? Arrependemo-nos sem razão. Nesse dia, valia mais ter lutado com o diabo. A 12 de Abril — passo os pormenores —, cometo a dupla imprudência de contar-lhe tudo e de lhe deixar uma cópia das negociações. Acolhe isto com espanto e frieza. 

Eu acrescento: «Senhor Primeiro-ministro, compreenda que nem Kaúnda nem Banda podem aceitar um Moçambique comunista.» Manda-me embora sem uma palavra; três dias depois, sei através do nosso amigo do Ritz, o barman, que Caetano entregou o meu texto a Costa Gomes que o confiou ao general Silvino Marques que o dá a Spínola. Depois, nada, silêncio de morte. E eu sou seguido pela PIDE. In articulo mortis! Ah! Um segundo! As últimas notícias de Moçambique! Chamo Castor no meu walkie... Escute!» 

«Castor, aqui Castor, dizia a voz misteriosa... Desmente-se que Mons. Vieira Pinto, bispo de Nampula em Moçambique, tenha sido preso aquando da sua chegada a Lisboa. Acrescenta a mesma fonte que o prelado tem os movimentos livres. Foi conduzido ao Cartaxo, a uns cinquenta quilómetros...» Furioso, Jardim tinha desligado: «Peço notícias da situação em Moçambique e Castor dá-me o angelus

Um dia acabo por descobrir que ele trabalha para Champlicano. Trabalham todos. Nito Alves, em Angola, uma criação Champlicano, e encarregado de desmantelar a 1ª Região Militar do MPLA à qual pertence. E Marcelino da Mata, muito ligado ao PAIGC, mata Cabral. É preciso ser português para perceber! Estranho, irreal! Champlicano, desde há trinta anos, você vai acreditar, todos os anos pelas idas de Março, passa esta notícia no Times: «O Sr. Júlio César, o homem mais nobre que viveu no fluxo e refluxo do tempo, assassinado pelos que mais lhe deviam. 44 antes de Cristo!...» 


Bom, cá está o Kaúlza! Nem uma palavra sobre a nossa conversa! Encontremo-nos aqui por acaso. Ele é menos beato que os outros...» 

Via-se Kaúlza patrulhar no vestíbulo, através da porta envidraçada, candeeiros Lalique, tapeçarias de Gaudissart, baixo-relevos dourados, a decoração dum paquete. Parecia esperar... O barman tinha ido ter com ele e, juntos, calcorreavam a sala, pensativos. «E sobretudo não lhe vá chamar fascista, vibrava Jardim no crepitar dos gadgets. O exército do ar é-lhe devoto, o general Troni e os seus páras. Tem diante de si o ponto central onde tudo converge. Arriscamo-nos a uma bela pinochada! Senão, é a profecia de Lenine: "A Europa cairá como uma pêra madura, quando formos capazes, dizia ele, de a cercar não só a Leste, mas ao Sul, assegurando-nos em África das posições-chave". Desde que...» 

Lá ao fundo, o barman inclinava-se para reaparecer atrás de nós: — Senhor Jardim, devo dizer-lhe, Costa Gomes... No vestíbulo, as costas de Kaúlza tinham-se arredondado. Só, inacessível, a «Pantera cor-de-rosa» dirigiu-se para a porta giratória que, no seu movimento, o levou. 

(...)
Eu vi-me a empurrar a porta do Botequim, e beijar — boa noite — Natália Correia, poetisa, o matriarcado em estado puro, muito antiga e muito moderna. Mme. de Staël e Mme. Récaniier, as duas juntas, mal teriam feito Natália. Quando Mme. de Staël refilava, o Directório preocupava-se. 

Mais seriamente, Natália profetizava! Sobre Spínola: Apoiemo-lo não pelo que é, mas pelo que representa. Vasco Lourenço? O campónio do grupo. Um saloio, um manhoso. Melo Antunes? Pior que socialista ou comunista, a paixão de enganar. O último acto de Tartufo. O Tartufo Lusitano, as ambições de Tartufo. Otelo? Nada. Um idiota! Ela via os acontecimentos precipitarem-se e a Revolução conduzida por ineptos. Uma dinastia de artistas, perguntava ela, que não coincide com nenhuma ideologia terá o poder de transformar a fatalidade da morte em ressurreição? 

Nesse caso, François Mazin devia esquecer o seu gaullismo, ligado ao General em vida, e mergulhar na clandestinidade, provocar focos de incêndio com fósforos. 

— Nada mais discreto, François, que a candura e, no bolso do fato, uma caixinha de fósforos. As bombas são para quando se perdeu tudo. 

Fomos jantar a uma tasca: O Clube dos Três Vinténs. A patroa asturiana cantava com pronúncia de Castela. Tinha o volume dum monge lúbrico, deitava vinho em gaitas de grés vermelho. Meia noite em ponto! Ela cantava um fado: 
«Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.»

O quão delirante começava o 25 de Abril! Era lua cheia e em breve a Páscoa. Isto tornava-nos ferozes! Senhor tende piedade de nós! O candidato à Presidência seria um morto. 
(...)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

'Quinto Império' - excertos. Dias antes do 25 de Abril. 'Champlicano', Henry Jordain, as redes na sombra

(...) Respondia-me ela (Catarina Ataíde) que Spínola era um feaseur e que neste país se anunciavam constantemente tantos acontecimentos que nunca se davam. Nunca. «Mas o governo de Marcelo, quer fale do presente, do passado ou do futuro, bem pode fazer, que já não consegue nada.» 

Eu teria preferido que ela me desse informações sobre uns e outros, relacionada pela família com os meios oficiais, muito Mittel Europa, e sobre os quais corria aquele número de chavões que os franceses transmitiram às outras línguas. Mme. Bovary tinha substituído aqui o arsénico por doce de laranja. Ela esquivou-se: «Você quer saber o que eu penso, eu pessoalmente? Já não sei como me desembaraçar comigo mesma.» 

O Tejo dava-lhe vontade de se atirar. Situada ali, a casa dela estava no centro do debate português sobre o dentro e o fora, a luta entre o realismo e a epopeia, tal como a exprimem Os Lusíadas; Camões chama à aventura, mas o Velho do Restelo: não partam... 

Eu não insisti. Não possuía o código secreto do fado onde é preciso estar dentro das sociedades tradicionais para compreender as palavras que significam coisas tão diferentes, nem o da saudade que projecta o ser e as coisas fora do tempo, na imortalidade. Em frente dela, eu tinha ar de quê com a minha revolução mundial, que, precisamente, ameaçava abalar Lisboa e talvez perder a sua própria família, enquanto ela, portuguesa de gema, me propunha os Açores? Onde recomeçar com ela? 

Eu olhei para o relógio: 22 de Abril de 1974. Catarina acompanhou-me até ao portão e fechou-o pondo um dedo à frente da boca. 
A rua do Almada era diante de mim uma linha recta! 
Já só houve com Liebig uma troca de impressões vagas e respostas insuficientes de ambas as partes. E enfim, acabou-se, que alívio! 

(...)
Mas deixemos Lisboa, por algumas páginas; e François Mazin, mergulhado nos seus cálculos no Avenida Palace, à espera que a Internacional gaullista se deslocasse a Portugal, candelabro do Apocalipse. 

A África portuguesa estava numa viragem. A ONU, a 22 de Novembro de 1973, tinha reconhecido «O Estado soberano da Guiné-Bissau». Os oficiais estavam desencorajados, lugubremente envelhecidos, pensando que fazer já não tem sentido, que nenhuma acção tem finalidade. E volta-se a Os Lusíadas, ao velho respeitável do Restelo, o Salazar de 1930, sem visão do Império e para quem a África não passa de uma palavra: Costa de África, terra dos exilados políticos e dos assassinos profissionais reagrupados em Curibecas, sociedades secretas que bloqueiam a colonização em proveito de práticas ainda mais sinistras, mais nocturnas e mais negras. 

Quando Paiva Couceiro, governador de Angola, e o seu sucessor, Norton de Matos, sucessivamente pedem por carta a Salazar os meios para ali criarem um novo Brasil, nem nada! Este nunca lhes responde e demite-os um após outro. Mas, logo que em 1961 os primeiros tumultos rebentam em Luanda e em Uíge, o Velho despacha as suas Forças, julga-se Vasco da Gama. Tarde demais! 

O Ultramar escorregava para o atoleiro. As tropas especiais do conde Z... nada poderão. A partir daí, o deslaçar, as normas desnorteadas. Catrapuz, Os Lusíadas! Não se resumia a salgalhada da multirracialidade a uma abstracção? Casamentos interraciais, mas nenhum preto ocupa um lugar de responsabilidade. Simples pincelada de paternalismo. As Curibecas são donas do território. Um rural, este Salazar!

'Champlicano'
Certos oficiais fazem tudo para que aquilo falhe, pessoas como Costa Gomes que contam no seu tempo mas não ficam na história. Chefe de Estado-Maior, repete nos seus comunicados, nas suas declarações, nos seus discursos, o que é preciso dizer, com uma uniformidade de baixeza exemplar a todos os níveis, ele a quem tanto custa exprimir-se, pegando-se à política de Caetano, esse a quem tudo pode atingir, tiros de espingarda e maçãs podres. 

Após dez anos de guerra esquecida, Costa Gomes assopra-lhe, dizem, a declaração das Caldas: «É impossível abandonar tudo para dar lugar a um punhado de aventureiros.» Instigado por esta espécie de Padre José [Joseph de Tremblay, conselheiro do cardeal Richelieu, conhecido como a «Eminência Parda.» (N. da T.)], e de acordo com a PIDE, tinha confiado aos militares a chefia dum gabinete de «Operações pontuais»; uma central instalada em Bissau, donde e para onde toda a espécie de maquinações iria circular no mundo. 

O coronel Henrique Miguel Champlicano estava à testa deste gabinete alcunhado «Sociedade do Prego», sem que alguém jamais se tivesse atrevido a aprofundar o sentido daquilo. Daí a expressão: forjar um prego para o seu caixão, sempre que a ocasião se apresentava. Champlicano, um homem doce, apagado sob a sombra de Spínola a quem informava só o bastante para não entrar em confidências. A sua ideia fixa: destruir, e por todos os meios, a subversão, onde quer que ela estivesse. 

Tanto Spínola era tributário da sua casa de doidos quanto Champlicano operava sem escrúpulos com a fria determinação do crente, na certeza de que uma minoria pode vencer tudo. Só ele designava as vítimas, organizava os atentados, armava as ratoeiras, desinformava, mandava os seus agentes insinuarem-se, pouco a pouco, na confiança da pessoa a suprimir. Se Teresa de Ávila tivesse reagido, ele mesmo lhe teria posto uma almofada em cima da cara e nela se teria sentado o tempo necessário. 

Agentes duplos, executores de cordão negro, espiões, informadores, os portugueses são tão simpáticos. Sem ódio, mas cheios de interesse e de piedade pelas futuras vítimas, sabem levar o curare, ou atirar com um dobrar de rins um tiro de pistola no bandulho. Missão cumprida, vão sentar-se à mesa do café, como verdadeiros clientes sérios de Courteline soerguendo os ombros e dizendo para consigo: «O que é que tem?»

À força, os chefes históricos dos movimentos de libertação vão desaparecer um a um. E os assassínios são envolvidos por um mistério tal que arrastam no seio desses partidos purgas e vinganças internas. Depois da morte de Mondlane, presidente da Frelimo, que foi aos ares ao abrir uma bíblia armadilhada, Dar-Es-Salaam torna-se um pinhal da Azambuja. 

Em Kinshasa, os chefes da FNLA mantêm guarda-costas pagos pelos outros para os vigiar. Viriato da Cruz, fundador do MPLA, um mestiço não arrogante, morre de desespero em Pequim por causa de Neto que lhe fecha a entrada em África e Amílcar Cabral é abatido numa estrada. Para Lumumba, Champlicano tivera que exigir à CIA uma droga capaz de «matar um leader africano», a qual eles tinham desencantado em Fort Derrick, Middlesex. 

(...)
Mas quando perguntavam a Salazar se a PIDE tinha realmente o fabuloso poder que lhe atribuíam, ele respondia que as lutas da oposição eram bem mais eficazes que a sua polícia. Explicar-se-á talvez assim a misteriosa evasão da prisão de Peniche de Álvaro Cunhal, que vai imediatamente minar a oposição nacional no exílio, sabotar as tentativas do general Humberto Delgado. É ele quem o aconselhará a ser operado a unia hérnia em Praga. Mal o general escolhera o cirurgião soviético, o chefe do Partido Comunista Português vestira-se de preto. 

Spínola fez absoluta questão de meter-se na Operação Conacry, partindo do princípio que, sem ele, todo o subalterno é um incapaz forrado de mitómano. Mas tem escrúpulos. Solicita, por precaução, o apoio dos serviços franceses e alemães. Os habitantes de Conacry não estão prontos a esquecer a repressão cega que seguiu o fracasso spinoliano. Massacre de Barry Ibrahima, Ray Antra, Barry Diawadou, Traore Samba Lamine. Precisa e eficaz, a Sociedade aceitava no entanto as exceções, transgredindo, à sua custa, a regra do assassinato judiciário que tinha sabido aperfeiçoar. Em 1973, Champlicano estendia as suas redes: do Congo-Brazzaville ao Camarão, de Túnis ao Gabão. 

Melhor que ninguém, estava informado do mal-estar interno das Forças Armadas, efeito duma larga subversão telecomandada, uma em proveito dos americanos com Spínola e Kaúlza, a outra em proveito da URSS com Álvaro Cunhal e Oscar. Champlicano sabia que Spínola era incapaz de ter êxito sem Kaúlza, porque o procônsul da Guiné correria o risco de confundir a política portuguesa com a sua política colonial. 

Sabia também que Golbery, o general brasileiro, e o seu «Agrupamento secreto de acção política internacional» queriam apressar a criação dum bloco brasilo-americano, ao qual adeririam Portugal e os seus territórios de África independentes. Nessa altura, o capitalismo de Estado evoluiria para um certo nacional-socialismo. 

Golbery: antigo chefe do SNI, criador das organizações anti-bandeirantes e da CODI (Centro de Operações de Defesa Interna). Os brasileiros são para os americanos o equivalente aos cubanos para os russos, mudas de agentes e de mão-de-obra. 

Ao mesmo tempo, Guilite Coutinho, presidente da todo-poderosa Associação dos exportadores brasileiros, fazia castelos no ar com os seus interlocutores portugueses, dirigentes da CUF, delegados de Champalimaud, os quais jogavam, em nome do futuro «novo regime», a implantação luso-brasileira em Africa. 

De Lisboa a Bissau, de Brasília a Washington D. C., de Madrid a Pretória e de Zurique a Salisbúria, reinava uma actividade intensa e tenebrosa de políticos, militares, propagandistas, negociantes, professores, jornalistas, funcionários. Todos, nesta atmosfera, tentavam derrubar o Estado marcelista brandamente, para o substituir por uma social-democracia antes que fosse tarde demais. 

Mário Soares viajava pela Europa do Norte, Bulhosa, o petroleiro, fazia soar o rebate dos pedreiros livres, Perdigão, Palma Carlos, que importa a cor política. 
Mas Champlicano não contava a ninguém que Moscovo estava na corrida com o seu Partido Comunista Português, instrumento natural da sua política exterior. Cunhal, em Praga, manobrava os cordelinhos da acção soviética: um era o comandante Varela Gomes, e o outro, o coronel Vasco Gonçalves, dito "óscar". Entre os dois — prestando-se a sua acção a interpretações diversas —, o general Costa Gomes mantinha relações clandestinas com toda a gente, compondo ainda as declarações oficiais de Marcelo Caetano. 

Estes homens tinham sido alcunhados «o trio de Beja», tendo os três cooperado na famosa conspiração contra Salazar que visava substituir a integração por uma política colonial avançada. Não só chegavam subsídios secretos até às células comunistas portuguesas, mas também já tinha sido concebido um plano de restabelecimento económico para o caso do êxito do poder popular. Provinha de um certo «Comité de Estado soviético para a coordenação dos assuntos secretos», encarregado de apoiar os países europeus com economia em pleno desenvolvimento, que corriam o risco de ficar isolados do resto da Europa depois da sua viragem à esquerda. Um piano Marshall imprevisto! 

Champlicano sabia que Moteikine era o secretário-geral desse «Comité», delegado para as relações entre Moscovo e Cunhal. Que Tsoukanov, secretário particular de Brejnev para os assuntos especiais, acabava de se encontrar com Cunhal em Praga, bem como Mazourov, da Comissão de controle político do C. C., o último pro-sector do grupo Garcia Gomes-Lister, representando este a tendência minoritária à testa do PC espanhol ortodoxo (os maioritários Santiago Carrillo e Manuel Azcarate seguem uma linha mais liberal). 

O que explica muitas coisas, pensava Champlicano, intoxicação, desinformação. Mais tarde, só em intenção do grande público, fornecer-se-ia informação para criar um clima de opiniões favoráveis aos comunistas. Na Informação, não há diferença entre rumores e certezas. Antes de esmiuçar, tem que se ter tudo em conta. Até 1969, a central da subversão antiportuguesa estava na Suíça, em Lausana. Que tinha sido dito na reunião secreta respeitante a Portugal, realizada em Prades no convento de São Miguel de Cuxa? 

Champlicano lamentava que ao nível da informação o seu serviço não valesse o dos israelitas. Formados na escola inglesa de Orde Wingate, na Palestina sob mandato, tinham criado o famoso «Departamento C», de Comunismo. Sabia enfim que um terceiro movimento se acrescentava aos outros dois: o movimento dos capitães, saído da própria deliquescência do poder. Tudo tinha partido de Bissau. Uma dezena de oficias reunidos para discutir uma medida vexatória que lhes fora aplicada, tomavam consciência de que, agrupados, eram uma força. 

E de repente põem-se a votar resoluções; a escrever ao ministro da Defesa, já sem nenhum respeito pelas vias hierárquicas. Lisboa detém-nos: começo da fronda. Os oficiais repartiam-se em duas categorias: a primeira, privilegiada, dos generais e dos estudantes. Estes escolhidos à vista dos diplomas, aqueles nomeados pelos ministros a seu bel-prazer. A segunda contava os inumeráveis plebeus, os oficiais subalternos. Estes últimos, prejudicados por uma selecção darwiniana, sentiam-se próximos dos sub-oficiais, a quem se estendia a sua protecção contra os oficiais superiores. 

Ajudando-se mutuamente, os capitães descobrem a tomada da palavra e verificam o seu dom de persuasão. Otelo de Carvalho, Melo Antunes, Vítor Alves, Osório, o futuro! A partir daí, já não se dominam, são propriedade da Revolução nascente. Quem havia de dizer! Estes rapazes, até aí, serviam-se de perífrases para se dirigir aos superiores — o senhor que tem instrução! Vão metamorfosear-se, chegado o dia, nem mais nem menos, em secções de assalto. Mas o seu populismo fará deles epígonos de Rõhm, de Hedilla, de Castro, a mafia castanha dum certo Terceiro Mundo, de cortejos de autos-da-fé e de campos de rectificação. 

Henrique Champlicano não precisava de procurar as coisas, elas saltavam-lhe à vista. Os ventos revolucionários semeados pelas grandes centrais americanas acercavam-se de Portugal. Um único objectivo real: a URSS e a sua esplanada oriental. Era por certo permitido refletir sobre o estado da União, embora a União tivesse sabido gerir tão habilmente a Primavera da Boémia. Quando Spínola o interrogava, Champlicano ficava impreciso. Os seus próprios amigos figuravam nas suas listas. 

Como fazer compreender ao general que os Comités anti-Vietname tinham sido apenas um dos elos da subversão americana cuja acção principal visava Varsóvia, Budapeste, a Geórgia a longo termo, as repúblicas da Ásia, Moscovo? Ao abrigo da tempestade da Vietnam Solidarity Campaign, tinham preparado o encontro Nixon-Mao, que tinha como princípio o isolamento que a China deveria impor à União Soviética. 

Encontravam-se, nos bastidores, tanto Helms, patrão da CIA, como o almirante William Raborn, ligado aos serviços do Pentágono, Walter Reuther, da United Automobile Workers, ou J. Schiff, o financiador de Trotski, o grupo Bildelberg por inteiro naturalmente, o grupo Pugwash e a revista americana Rampart, que, em 1969, se tinha atrevido, não sem razão, a publicar os documentos secretos da NATO. 

(...)
A estrada de Ratoma, Guiné-Conacry, é tranquila e o Volkswagen corre na noite. 
Hesita um momento, depois ergue a arma e dispara. As ordens, no entanto, proibiam matar Cabral, mas mandavam levá-lo a Bissau, onde o esperava o grupo operacional de Champlicano, acrescido de três personalidades chegadas nessa mesma manhã de Lisboa para receber o carregamento: — O vice-almirante Pereira Crespo, ministro da Marinha; — O general Costa Gomes, chefe de Estado-Maior inter,armas; — O major Silva Pais, chefe da PIDE-DGS. 

(...)
Quem matou o general Delgado? Ou antes, quem e denunciou, mandando-o assim para uma morte certa? Champlicano? Isso é possível! Existirá um elo entre os diferentes capítulos da morte de Cabral, de Delgado e de Mondlane? Na realidade, Champlicano valia mais que a sua paixão pelo serviço. 

HENRY JORDAIN
Na véspera dos acontecimentos de Lisboa era com Henry Jordan, do Joint, um amigo de infância, que ele Champlicano teria gostado de discutir sobre a «vaga revolucionária» e os seus riscos calculados. Ao contrário de Delgado, Jordan era um homem apagado. Apaixonado pela dedução e a análise, comprazia-se a examinar o ser ao microscópio. 

Champlicano tinha-o encontrado pouco depois, graças às redes portuguesas do BND alemão, como chefe do American Joint Comittee, um organismo utilizado desde 1948 para cobrir as missões de espionagem no Leste. Quais foram as relações entre certos elementos da oposição portuguesa e a PIDE?

— Quem traiu o general Delgado? 
— Qual foi a responsabilidade do dr. Fernando Piteira Santos, antigo chefe do FPLN? 
— Quem é este Henrique Cerqueira ? 

(...)
Henry Charles Jordan dirige-se a Praga a 16 de Agosto de 1967, consciente dos seus deveres, das suas responsabilidades e da sua missão precisa: derrubar o regime de Novotny. Em Praga, o correspondente de Henry Charles não é senão Goldstiicker, director da Ikerarni Noviny, que empreendeu lançar no seu jornal a primeira campanha de democratização. Objectivo estratégico: soprar os ventos, pródromos dos cataclismos. 

Mal se instalara no Hotel Esplanade, Jordan percebe que é seguido. No segundo dia, há tantos agentes do STB checo nas ruas vizinhas que ele decide ficar no quarto e sair depois da meia-noite. 

E em vez de ir a casa de Goldstücker, dirigir-se-á directamente a casa de um dos membros mais seguros da organização Voska que o conduzirá a Dubcek. Chove a cântaros. Ruas vazias. O bairro dorme. Ao atravessar a ponte Carlos, ele passava do gótico ao barroco, da burguesia à aristocracia, da Reforma à Contra-Reforma. Os relógios astronómicos do castelo marcam as horas de um tempo que em breve será volvido. Heydrich foi assassinado nesta ponte no Mercedes preto com que sonha António de Sousa, aliás Álvaro Cunhal, que dorme não longe dali, instalado em segredo. 
(...)

Meia-noite. Conacry está isolada. E às cinco da manhã, os navios do PAIGC, perseguidos pelas vedetas guineenses, são inspeccionados. Da Costa e Inocêncio Kani são presos. 
(...)


A 21 de Agosto, o cadáver de Henry Charles Jordan é pescado no Moldau, com um atacador à volta do pescoço. Os polícias dirão: «Pois bem, não temos provas.» Enviarão à família a carteira, o passaporte e uma página arrancada a um jornal ilustrado, encontrada dobrada no bolso do morto.
(...)


Uma vez em Badajoz, o general Delgado decide dirigir-se para uma quinta isolada parto da pequena cidade de Olivença. Por seu lado, a secretária, Arajaryr Campos, instala-se em Vila Nueva del Fresno, a trinta e cinco quilómetros. Tinha-lhe dito: «Desconfie desses amigos com quem tem que se encontrar.» Teve tempo de sacar o revólver e ferir um dos seus agressores. O seu cadáver foi transportado de carro para Vila Nueva del Fresno onde o esperava, debaixo duma árvore, o cadáver de Arajaryr Campos, com um atacador à volta do pescoço. Eis, realmente, algo que se parecia com um assassínio! 

Naturalmente, há várias versões da morte de Delgado, entre as quais aquela segundo a qual, raptado em Badajoz, teria sido transportado vivo para Portugal pelo falso dr. Castro e Sousa, na realidade Ernesto Lopes Ramos, que tinha como cúmplice o autêntico adido naval Fernando Castro Araújo e o professor Mário de Carvalho encarregado de fazer crer ao general que «a rolha precisava dele para saltar». 

Delgado gostava dos códigos. Via-se, com um milhar de partidários, descer do céu sobre Lisboa, apoderar-se de tudo, tudo partir. Não era exactamente um adversário, mas figurava nas listas de Henrique Champlicano e nas de Álvaro Cunhal. A maior parte dos acontecimentos têm menos importância que a sua projecção. A morte de Delgado, a de Cabral servem a oposição que se põe a interrogar com frenesi, evitando as questões essenciais. — Quem denunciou o general Delgado? Socialistas ou comunistas?

Nas vésperas do 16 de Março de 1974, Henrique Miguel. Champlicano interessava-se sobretudo pela parapsicologia e pela hipnose de Charcot. Para vingar a morte do seu amigo Jordan, projectava o rapto de Zednenek Redjek, investigador de medicina geral na Universidade Carlos em Praga. Queria que o Kapaudjiu, embaixador da morte com o cordelzinho, pudesse agir sem se deslocar... 

(...)
Lee Harvey Oswald não agiu sozinho. E quem matou Jack Ruby, que matara Oswald alguns dias depois do assassinato de Kennedy? Sabe-se que dois informadores da CIA estavam presentes nesse dia em Dallas, um dos quais era Frank Sturgis, Frank Fiorni de baptismo, nome que tinha ido buscar ao herói de Rimini, Run de E. Howard Hunt. (O próprio romancista montará, depois da baía dos Porcos, a ratoeira Watergate.) 

Segundo a Comissão Rockefeller: as sombras que se distinguiam nas fotografias, e que faziam crer na presença de Sturgis e de Hunt, seriam apenas um efeito óptico, ramagem... talvez. 

(continua...)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DE NOVO EM LISBOA APÓS MOÇAMBIQUE - excertos de Quinto Império, Dominique de Roux

Nos bastidores e as semanas que antecederam o 25 de Abril. A conspiração dos 'serviços' estrangeiros

Eu via de que lado soprava o vento. Antes de me voltar a encontrar com Liebig, eu colhia os últimos boatos: Silva Cunha, ministro tacanho das Províncias Ultramarinas, tinha agrupado à sua volta o clã dos duros; Moreira Baptista, ministro do Interior: tinha medo de servir-se da polícia; Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros: andava atrás das saias; Costa Gomes, chefe do Estado-Maior General, batia os calcanhares ao enviar aos exércitos vigorosas ordens do dia. 

Silva Pais, chefe da PIDE-DGS, era visto a comer bons bacalhaus no Gambrinus, e a filha, diziam, era amante de Fidel. Era verdade que ela vivia em Cuba. Enfim, falava-se dum terceiro general, Bettencourt Rodrigues! Normal que um certo Portugal acabe, o do Estado corporativo e paternalista, que na Nazaré trazia o peixe atrás dos bois; da Guarda Nacional Republicana, sabre à vista, a cavalo ao longo das estradas; das íbis brancas nas lavouras.

António Ferro, dadaísante, o mais novo do grupo de Pessoa, encontrou o ditador, apaixonou-se, converteu--se à tradição e criou o SNI. O Palácio Foz foi o local de encontro de todos os escritores hostis a Franco. Valéry, que anunciara Hitler em 1915, prefacia o Doutor: «Já se viram povos queixar-se de terem sido libertados.» Dormitantes, as letras portuguesas só existem por Natália Correia, a mais ilustre das atlantas, que se contenta em responder às declarações de amor dos plumitivos impondo-lhes o seu Ego. 

— Está lá? É Catarina de Ataíde?
— Não, senhor. Daqui é da Companhia dos Telefones. As linhas do telefone cruzavam-se continuamente. Eu chamava Catarina e dava com a Companhia dos Telefones ou ouvia: É engano. Estava desiludido. 

Mal tinha desligado, Liebig chamava-me, e percebendo a minha irritação: «O seu amigo Chadek chega de Paris. Venham juntos ao Turf Club... Você devia resistir à sua obsessão de agir.» 

No Chiado, um prédio que em nada se distingue. Suba ao segundo andar e transponha a porta: a casa abre-se sobre jardins interiores que a pujança dos buxos aconchega. Salões ingleses, acajus, veludos cor-de-rosa, e, nas paredes, os retratos dos últimos pretendentes da Europa. Reis mortos, muito velhos, e aqueles príncipes de calças de golfe, e todos os que nunca terão um centímetro de terra onde reinar, Manuel, Carlos, Barcelona, Paris, Bourbon-Sicília, inefável espécie em vias de desaparecimento com os seus dentes de pequeno carnívoro. 
Única presença republicana, o dicionário de Pierre Larousse, cada artigo um tratado furibundo sobre o fim das monarquias. 

Rey Torgal, a quem por amizade chamavam rei de Portugal, presidia à mesa redonda onde estavam reunidos Liebig e o seu grupo. E afastado, Chadek, mais conspirador que nunca. Como todos os trotskistas, só podia fazer isto, com Albertini como Este, e, como Oeste, a revista Preuves. A presidência desta reunião secreta não parecia inspirar Torgal. De uma vez para sempre, tinha parado de viver nos anos 1915, quando dirigia as últimas revoltas anarquistas esmagadas pelos Mário Soares da época. Ruminava o assassinato do príncipe herdeiro, Praça do Comércio, e o do seu querido Sidónio Pais, figura melancólica, muito Barrès, o melhor político que Portugal pôde dar ao século XX. Quando passava, o povo aclamava o presidente da República gritando: «Viva o rei!» 

Firmando a voz, ele falou da preparação do golpe. Penderiam à direita ou mais à direita, à extrema-esquerda? Eu estava ali para prestar contas da Guiné e de Moçambique e dar a minha opinião sobre os generais Spínola e Kaúlza quando teria querido falar-lhes da subida dos Capitães, das tensões contidas entre o Estado-Maior e os oficiais. 

Chadek, irritado com as «recordações» de Torgal, sussurrava-me : «O grande, o quarto à esquerda, é o famoso conde Z..., falso conde papal mas verdadeiro traficante de armas, o inimigo de classe e de sempre.» 

Liebig encarava-nos, desconfiado. Quando se sabe em que se torna uma revolução, repetia o bom Torgal com uma variante... Eu sou aliás o último sobrevivente do grupo A Máquina que queria vingar Sidónio. Os outros três morreram: Adrião Barata, António Fernandes Monteiro, José Francisco de Sousa. 

Chadek, chamado à ordem por Liebig, tinha-se posto a passar-me notas em folhas arrancadas ao seu caderninho: 
Conde Z... O maior comerciante de armas da Península. Amigo pessoal de Salazar e do sultão de Marrocos. Em 1961, organiza a ponte aérea entre Lisboa e Luanda para encaminhar os reforços. 
ROMÉNIA COM Discípulo de Loyola. Muito ligado aos chineses. até aqui jogo chinês contra Rússia 
E contra Estados Unidos actividade ECONO alemã ENORME e tradicional Actividade INGLESA bastante intensa — — — — Quando os créditos se tiverem esgotado do lado alemão e inglês Viraram-se espontaneamente para a França. Jogar na China a fundo, é conseguir uma base para melhor a trair. 
Três tempos: 1.° Aproximar-se da China, exaltar o seu complexo anti-soviético. 
2.° Provocar o confronto, esperar que os dois antagonistas se esgotem. (Os Estados Unidos ver-se-ão implicados do lado da China, por causa do lobby pró-sionista de Washington.) 
3.° Jogar num terceiro tempo a cartada da Europa e dos seus espaços de influência próprios: 2 a estratégia terceiro tempo. 
esta pouca reacção pouca capac. ofensiva muito pouco. 
HOJE o jogo chinês já não rende Eles procuram um apoio em Nações amigas e devem 
(opinião pública) poupar o Kremlin 
1) Z... leal em relação a Bucareste 
2) Relações interessantes 
3) das quais o ministro da Educação + outros ministros 
4) apreciado (diz ele) por Ceaucescu 
Contactá-lo ulteriormente para os nossos assuntos de Africa. (utilidade operacional certa) 
Eu acrescento: há simetria fatal, há até, elipse fatal. 
— Portugal: cloaca da Europa de Leste. 
— Europa de Leste: foco invisível de Portugal. 

Entretanto, Torgal acabava o seu discurso com uma citação de Salazar que, posta ali, parecia uma profecia do Padre Vieira:
«É a origem militar do regime português actual que dará sempre à nossa revolução o seu carácter específico. Aqui, não coube a um partido ou a uma força revolucionária tomar o poder, mas ao exército, órgão da Nação inteira, que, contra todos os partidos, interveio, sozinho, para criar as condições necessárias à existência de um governo nacional.» 

E concluía Torgal: «Na véspera do acontecimento, não se esqueçam que o vosso exército deve ser o instru-mento e o garante dum novo governo nacional erguido contra os partidos. Velarei para que esta promessa seja mantida. O tempo, meus caros amigos, doravante não é mais que um acidente da minha pessoa... Sidónio, Pierre Benolt fala nele no seu Prêtre-Jean. A história começa com um roubo na embaixada de França e acaba com uma entrevista da heroína, descendente de Dom Sebastião, com Sidónio Pais que lhe promete restabelecer a monarquia...» 

Liebig, por sua vez, ia falar. Eu via o seu peito enorme reflectir-se na mesa envernizada, parecido com Couthon na sua cadeira: «A crise de 1929 estava ligada à depressão mundial. Os republicanos, corridos do poder desde o golpe de Estado de 1926 que pusera o general Carmona à testa do governo, mantinham uma acção militar e civil permanente. 

Cada cinquenta anos, o país sonha ser a primeira sociedade liberal avançada do mundo. Cada cinquenta anos, o libertário volta à superfície. Procura-se então um banqueiro ou um professor de economia capaz de casar meio século de bordel com O Espírito das Leis. 


Salazar, ex-seminarista, professor na Universidade de Coimbra, foi solicitado, em função destes critérios, pelo bravo coronel Vicente de Freitas. Repôs a ordem assim que conseguiu o direito de veto sobre as despesas públicas. Mas este temperamento de Antigo Regime, este patriota austero ia avançar em silêncio, criando atrás de si o equívoco, os equívocos. A burguesia ocupava os lugares. Tirava todo o dinheiro possível das massas trabalhadoras. A hora dos capangas tinha soado, esses homens de tiro rápido que acompanham, discretos, os grandes patrões do peronismo ou os nossos. 

«A África? Era El Rey Podrido, o «rei podre» deste universitário desatento, demasiado desatento à história. Como quereis que Marcelo sem génio nenhum — seja mais que o cabeleireiro de São Bento na antecâmara do mestre? Durante os treze meses da sua agonia, Salazar hibernado, alimentado, ventilado, dialisado mecanicamente, puxou os cordelinhos do seu sucessor, zombie alegórico dum zombie já quase ectoplásmico. Mas que teria Salazar dado à nossa organização? Trezentos mil dólares aos bocadinhos !...»

«... Salazar trazia tudo às suas ideias, que exprimia em raros discursos concisos, espécies de meditações de cartucho. Longe do povo, apaixonado por Portugal, desprezando talvez os portugueses, faltava-lhe a substância humana. Não houve mulheres na sua vida, a não ser duas filhas naturais que eram apresentadas como suas sobrinhas... Uma história da carochinha! 

«... Era contra os projectos mirabolantes dos outros, mas esperava o Messias: tudo isto, para nós, nihilismo. Em África obstinou-se, esquecendo que no pior da ocupação espanhola as nossas colónias eram garantidas pelo Santo Padre. Na metrópole, resistia ao progresso. Poucos carros, algumas estradas. Não se devia corromper o povo com o dinheiro. E por mais que resistisse às pressões do capital, este não deixava de implantar as primeiras grandes indústrias no Porto e em Lisboa, trazendo a Alemanha e a Suécia, os Estados Unidos. 

Quanto à Grã-Bretanha, era para a segunda vez, embora ele tivesse declarado que nós não seríamos mais os vinhateiros da Inglaterra. «As nossas aldeias tornavam-se, com o turismo, circuitos de satanismo. O salazarismo mantinha os moinhos de vento. Lembro-me dum casal de moleiros à janela da sua torre, o burro albardado à porta, olhando ambos em silêncio as asas paradas, o vento amortecido pelas árvores: Pouco vento! Pouco! Com efeito, os industriais multiplicavam os eucaliptos para o fabrico de pasta de papel. 

Com o capital, Salazar tinha relações incestuosas. Quatro guerras civis à espanhola não chegariam para mudar a mentalidade do capitalismo...» (Liebig procedia à portuguesa. Repetições, conclusões nos prefácios, aquilo podia continuar durante horas, recusando, bem entendido, distinguir entre a lógica e o real.) 

«... Mesmo quando esquecia a vocação mundial de Portugal, Salazar encarniçava-se em manter, a todo o custo, as Províncias Ultramarinas. E o mundo mudava, invadido por esta infinidade vertiginosa de ideologias que hoje nos situam na zona do desastre. Não recusemos mais a realidade, afrontemo-la sob pena de nos encontrarmos prisioneiros dos universos paralelos. 

Eu digo, apenas um homem é capaz de assumir a nossa revolução, o general António Spínola. Despachemo-nos. O vazio aspira...» (Ia falar de Spínola como de um deus. Era um deus que ele fabricava à medida que ia retraçando a sua carreira, um deus cuja cabeça seria ele mesmo. Além disso, um deus coerente, o contrário dum autocrata, tão à vontade, segundo ele, de camuflado como de smoking. Ou ainda de calças de montar, cavalgando Hanover no Campo Grande, um minuto e quarenta segundos.) 

Mas o meu Spínola, eu via-o à minha maneira: ... Nascido em Estremoz a 11 de Abril de 1910; colégio militar, 1928; esporas, 1933; oficial de cavalaria, voluntário franquista durante a guerra de Espanha no corpo dos Viriatos. Acredita no perigo do bolchevismo, e prova-o quando pede que o mandem para a frente russa, observador diante de Leninegrado. Incorporado algum tempo numa divisão panzer, vê nos seus binóculos os nazis formarem os soviéticos no terreno à força de os combaterem.

... Ajudante de campo do general comandante da Guarda móvel, é visto de boina e botas, desafiando com o altifalante, em plena reunião eleitoral, o general Delgado e pô-lo fora da tribuna. Vai terminar coronel dos Quépis, quando Adriano Moreira, ministro do Ultramar, lhe propõe a África. Aceita e encontra o seu destino: peúgas de seda ao desdobrar a perna, pingalim, luvas de malha, monóculo, examina a acção, rodeado de ordenanças de jabot, trazendo um deles o pó, o outro o espelho e o terceiro as pistolas de arção como se ele fosse fazer haraquíri debaixo dos ramos. 

De Ambriz a São Salvador da Congo em Angola, ele está, nos dias tórridos, tão à vontade na floresta como no seu jardim pessoal, anacrónico e disfarçado, temível contraguerrilha. Os soldados, a quem este carnaval espanta, estimam-no. Já é alguma coisa, quando para mais se tem o mau costume de tudo referir à sua pessoa. Hábil também em fazer de operações minúsculas dramas de sombra gigantesca. Excelente táctico, de formação prussiana, mas nenhuma visão de conjunto. ... Primeiro oficial português a saber utilizar os jornalistas. Estes sabem, por natureza, tão bem relatar outra coisa além da realidade, e mentem de tal modo, que já nem sequer podemos acreditar no contrário do que eles dizem. Mas têm o poder de fabricar uma reputação, de arranjar um triunfo ou de demolir um homem. 

... 1966, governador da Guiné, a glória do Império, caracoleando de helicóptero até aos braços dos publicistas que se sucedem em Bissau, atraídos pelo fausto deste pretório do Châtelet: «Minha senhora, eis as Legiões!» ... Grande senhor, dá ceias no mato, com Vivaldi na estação seca. Desenvolto, oferece à sua Corte o prazer da emboscada, recebe a BBC, o Figaro, o Die Welt, o Washington Post, principais agentes das suas intrigas, ao sol no meio dos buracos dos obuses. Liberta com um estalar dos dedos todos os prisioneiros das ilhas das Galinhas que vão a correr perder-se nos pântanos; agita-se a tal ponto que a guerrilha se transforma num jogo frívolo, carcaças delicadas que saem à luz dos cornos da lua. 

Temos que reconhecer que ao contrário de Cabral, que é visto mais vezes em Conacry que com os seus homens, Spínola arrisca a pele para o espectáculo. Pedaço de rei, diz a tropa designando a sua silhueta que se propulsa com um ressoar de motor. ... Artigos, rádio, reportagens correm, e familiarizam ao longe a sua querida figura. É a quem lhe puser na língua o elixir da invulnerabilidade. 
... Mas Bruce Loudun, do Daily Telegraph, leva a palma do Pigmalião. Em alguns meses, transforma Cipião o Africano num homem político moderno de quem se fala em Lisboa, próximo ministro da Defesa, sucessor do primeiro. A via está livre: como Presidente da República, tirará Portugal do impasse. Que importa que só tenha uma ou duas ideias na cabeça? A sua comitiva está encarregada de as desenvolver num livro que ele assinará como se se tratasse do Pequeno livro vermelho. Da América aos monopólios europeus, escribas, autoridades já depuseram todas as suas esperanças neste general de sonho confeccionado pelas Cabalas... 

Mistério da Redenção. A má língua é uma arma clássica. Como fingir a verdade quando a própria verdade é inacessível? 

Liebig: «François! É a sua vez!» 

— Spínola, comecei eu um pouco solene entre os sérios conjurados, os senhores tomam-no por um de Gaulle, mas de Gaulle alguma vez comandou os CRS? Se eu estivesse no vosso lugar, não contava demais com Spínola. Salazar, por temperamento, não tinha a lucidez graças à qual teria compreendido, desde o fim da guerra, que na época do Terceiro Mundo, um império católico é impossível. O seu regime não era o fascismo, mas uma restauração que adormece depois de um caos. Os senhores tiveram a pior espécie de república. Lembrem--se, ele tomou discretamente o poder e, desde que reforçou a estabilidade política, não parou de conservar os lucros dela, abafando toda a referência à sua pessoa e aos seus princípios. 

João Ameal, o único historiador partidário do regime, acaba o seu livro mesmo antes da ditadura. E a única obra sobre o Estado Novo foi escrita por um espanhol. «Desde que Spínola é administrador da Siderurgia Nacional, este Estado dentro do Estado, os assuntos políticos acabaram por seduzi-lo. Imagina que no campo civil será Maquiavel, e até muito mais forte. Salvar o quê em Portugal, quando o problema essencial é agir em Africa com os movimentos de libertação, aproveitando a subversão e as ambições dos chefes históricos? 

Em Portugal anda-se um pouco demais à maneira de Rivarol ou de Maurras. Ultrapassem o pensamento da direita, as suas explicações líquidas e as suas nuvens idealistas, e apoderem-se da própria substância da esquerda. Não é tempo de avançar mascarado? A apropriação da dialéctica é o primeiro degrau para o poder. 

«Este golpe de Estado com que os senhores sonham só tem sentido se fixarem em Portugal a base subversiva exterior do gaullismo, que apertaria, com a França, a Europa inteira como numas tenazes. Por gaullismo, entendo eu a filosofia comum da Europa, mais as suas zonas de influência, do Oceano Indico à América latina, oferecendo ao mundo a sua lei revolucionária de tipo novo.

«Abandonaria o general Spínola ao seu maniqueísmo fácil. A liberdade, em 1973, já não é um objectivo trágico. Só em Kafka encontramos pessoas que fomentam sozinhas uma revolução, e a levam a cabo. 

«O lealismo de Spínola teme as sedições por ter reprimido uma dezena delas. No momento presente, a força não existe e em vão tentam defini-la. 

«Então, eis o que eu penso: sugiro-vos um outro general, Arriaga... Vão dizer-me que a sua missão em Moçambique se saldou com uma derrota. Mas ele, ao menos, ousará. Afinal, não o tinham mandado para ganhar politicamente a sua guerra de África. Só estava encarregado duma missão de policia. Que representa uma vitória contra uma guerra subversiva se, logo depois, duas pessoas disfarçadas de moçambicanos recomeçam a chatear na rádio do Cairo e de Dar-Es-Salam? Podemos exigir que Kaúlza faça o seu jogo um pouco mais à esquerda. Trair a direita não é trair. De Gaulle nunca traiu a Argélia, deu-lhe uma oportunidade. Demos uma oportunidade ao general Kaúlza de Arriaga.» 

A indignação! Ninguém tinha percebido que a política funciona por teses e definições contraditórias. Todos se tinham envolvido nesta conspiração. A esta hora, menos que nunca, quem tinha interesse em que se fizesse luz sobre tantos assassinatos, general Delgado na Península, Mondlane na Tanzânia, Cabral em Conacry? Seria tempo de esclarecer Spínola e Costa Gomes, caranguejos às costas dos quais Salazar se tinha mantido quarenta anos, ditador retorcido, sem escrúpulos, e na ocasião faltando à sua palavra em nome da legitimidade. Quem explicará a misteriosa evasão de Cunhal? Quem falará das relações secretas do regime com o Partido Comunista? Se Salazar não tivesse sido doutro tempo, talvez tivesse governado com o PCP sob a máscara duma tecnocracia social. E se é verdade que o terramoto de Lisboa foi a expiação do rei D. João V, que desastre seria a de Salazar? 

Liebig tinha desenfreado, veemente: «... de Gaulle nunca foi da Action Française, mas da Abwehr.» (Na história do verbo político, mais uma metáfora. Não se esmiuça diante da Assembleia. A menos que na cabeça dele AF fosse uma variante de AB. O ódio é mais ou menos subtil.) 

E na sala, estalos de bicos, arquejos, quiriquiqui, quiriquiqui. O conde Z... tinha-me passado um cartão com as armas pontifícias onde tinha escrito: «O homem da situação é o general Bettencourt Rodrigues.» 

Chadek tinha-se levantado arrastando-me para fora: — Isto é que são os seus revolucionários? Isto é antes a direita. Conspiram mas raciocinam segundo os humores e as indignações. A injúria da direita é caricatura, a da esquerda uma vontade calculada de desonrar no âmbito dum código patriótico. Tudo serve para fazer evoluir a relação de forças. Nós, ao menos, sabemos guardar uma certa objectividade na sacanice. — Tem um general americano na manga?

... (Sem me dar tempo para responder, encadeou.) — Os estalinistas chamam-nos, a nós trotskistas, renegados, porque, é verdade, nós sabemos a cantiga, e como trabalha a ortodoxia cujo método de análise é o mesmo por toda a parte. Uma perfeita sincronização engrenada directamente na classe operária. «Posso dizer-lhe, François, que o PC português enfeudado a Moscovo não quer de modo algum tomar o poder. Seria uma mudança tão radical da estratégia da URSS que eu imagino mal os russos a estender tão longe a sua testa de ponte europeia, e baixar a Cortina de Ferro sobre o Tejo. 

«A inteligência dialéctica, François, utiliza as contradições a fim de as ultrapassar. Mas, antes, é preciso aguçar estas contradições, torná-las paroxísticas. «Quer dizer-me quais são, entre os seus amigos, os adversários do golpe de Estado? Onde situa você as forças de polícia? «A estratégia comunista é mundial, não é portuguesa. O Kremlin avança os seus peões. É a política da alcachofra, folha a folha. Depenemos a galinha, dizia-me o capitão Trent, um comunista dos anos 20, ao falar do Partido Socialista. Em Barcelona, lembro-me eu, os estalinistas aliaram-se aos radicais de esquerda, a Izquierda, e, folha após folha, espancaram os anarquistas nas caves da Praça da Catalunha, fuzilaram as gentes do POUM nas encostas do Tibidabo.»

(...)
Avançávamos pelas ruas, o rosto de Chadek mais pálido que de costume. Trotskista, tinha visto todos os seus amigos enlameados, esmagados, liquidados, mas quaisquer que tivessem sido as suas vicissitudes, não  parara de buscar a acção (até ao seu encontro com Liebig, que lhe tinha prometido que em Portugal, desta vez, era a valer, enquanto lhe ia fazendo discursos sobre «o Kremlin sucessor do gabinete de São Petersburgo e a paciência asiática dos sovietes.») Chadek falava entredentes, arrastando-me no meio da multidão lisboeta mal acordada do torpor do Estado Novo, logo embalada pelas falas de Marcelo. O Chiado fervilhava, na tepidez húmida e clara, grandes rostos trigueiros e rústicos, o lado asteco-turco deste povo que resiste a tudo quanto lhe é dito, cansado de nada. Metade joga à lotaria, a outra espera Dom Sebastião.

 — Desde há dez anos, o PC português infiltra o exército português ao nível das capitães e dos sargentos e por combaterem em África. Portugal não interessa a ninguém, mas sim a África portuguesa. A Frelimo e o MPLA são movimentos de libertação vendidos há longa data à URSS, que Moscovo quer ver no poder em Lourenço Marques e em Luanda. Como? Graças a estes 10 % de oficiais comunistas. Uma parte ocupará os americanos em Lisboa, a outra entregará Moçambique e Angola, tão fracos por dentro, a Samora Machel e a Neto. Estes dois países controlam a África austral. Pretória, entre os levianos do liberalismo anglo-saxão e os setembristas do racismo, desabará economicamente. Veremos os boers barricarem-se na província do Cabo e resistirem como há um século aos zulus... 

Repito-lhe, preparemo-nos para futebol, a finta em Lisboa e o golo em Luanda. — Você quer dizer, Chadek, que a URSS faz revoluções fantoches como a Rússia se autorizava a fazer guerras fantoches? (A minha pergunta era bastante mundana.) 

Chadek: — Camarada, realmente você diz o que lhe vem à cabeça. Eu não estou aqui para falar de literatura, mas para analisarmos juntos uma situação catastrófica. De crer que existe relação entre os medíocres de Paris, de Lisboa e de Pretória. O que é o poder material oposto ao poder político? Em 1920, só havia cinquenta e sete marxistas na China, entre os quais Mao. E o que é a política do terror face à dialéctica maoísta, que procura sempre as diferentes naturezas das contradições? 

Eu acredito na revolução por toda a parte, em Portugal e na África portuguesa e austral, único meio para mudar o homem. Liebig diz-me que tudo está pronto. Chego, e quê? Assisto a uma conversa! A uma conversa! Você devia ter forçado as coisas. No palácio de Inverno, Trotski força as coisas. Força Lenine tão hesitante quanto Kamenev e Zinoviev... 

— Mas, Chadek, na Alemanha, 1923, «o ano desumano», Trotski aceita tomar a chefia da insurreição alemã. Zinoviev afasta-o, precipita as coisas e desencadeia o putsch cedo demais, logo afogado no sangue; e, apesar do seu fracasso, Trotski vê na França, nos tumultos de 1936, «o começo da revolução francesa»... 

— Trotski, François... Deixe-me falar. Trotski não tinha nem milícia nem armamento. A partir do exílio, a magnificência do seu verbo já não abrange a história futura... Escreve ensaios e tragédias. Limita-se a rimar imagem com miragem. — François, esqueça o passado. É um tique reacionário agarrar-se ao passado... Confidência por confidência, já se certificou do apoio da NATO?... Não! Pois bem, a revolução portuguesa mandará os tipos para as ilhas, Madeira, Açores. Mas, você, guarde distâncias... Até o aconselhava, François, a dizer aos vossos outros amigos do Estado-Maior que vendessem Portugal e dessem o dinheiro aos habitantes, para se irem estabelecer noutro sítio. Tudo isto, é muito pessoal. E deixou-me com estas palavras às quais acrescentou, entre cá. e lá: — Gosto muito de si, mas tenho que lhe dizer isto: nunca pensei que você tivesse força para se converter à acção.