quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O QUINTO IMPÉRIO - excertos, continuação. Na Guiné, com Otelo e Spínola, antes do 25 de Abril




De todos os capitães da Guiné, Otelo era o único que, à noite, cobiçava as lojas com a Madame e o filho. Havia dez metros de montras em Bissau: tecido indiano, relógios japoneses, lâmpadas subaquáticas, transístores e camisas. A rue de la Paix. Ele maravilhava-se com tudo, o filhito abrindo as mãos para agarrar tudo, mas nunca era capaz de vergar a mulher. Nada, ela não queria nada. Parecia estar constantemente a meditar. Desejava uma sociedade libertada, socialista. Do social sabia ela. Por isso impelia o marido a tudo ousar. Ele não devia implorar a protecção do Velho, mas alcançar o poder e depressa. Já que Spínola se recusava a fazer a Guiné com ele, pois, bem, Otelo havia de modificar Portugal e ela havia de o ajudar a transtornar a Europa. Num desses dias de colar o nariz às montras, eu disse-lhe, para a provocar, que o Partido Comunista era elitista e que estes plebeus, em cinquenta anos, tinham conseguido criar a Internacional vermelha dos príncipes do Partido, a aristocracia proletária. Ela interrompeu-me:
— O Otelo tem as suas ideias próprias, as suas convicções. Não é nada comunista. A nossa ideologia dos dois não é o socialismo de ninguém.
(...)
- Tudo bem, Otelo...?
— Otelo, Otelo!... Vá esperar-me com Mazin na clareira. Ele (eu) não pode perder a minha chegada...
Em todo o caso, os negros vieram de toda a parte, aldeãos de pulseiras de pérolas, abdómens, tetas, miúdos e velhotes. Um chefe tradicional tira sons de uma carapaça de tartaruga. Não sabe tocar; pensa saber. O ar, com todos estes corpos, cheira a peixe seco e a cueiros. Eu penso em retirar-me para a Suíça!
Mas cá está ele. Voam poeira e ramos. Onde foram eles desencantar esta irmãzinha e estes dois capuchos nos seus cordões? Terão vindo a pé desde Roma? E de que capucheira?
Com Spínola, inútil ir aos desportos de Inverno. Esquiávamos com ele ao ouvi-lo dirigir-se às populações. Esquiávamos na palidez das suas palavras. Mas de que falar quando se é governador da Guiné?... E a África... Um povo livre a caminho do futuro ... Duas, três, quatro horas de seguida, como os cegos das aldeias. Estes negros são admiravelmente crédulos. Atribuem às palavras uma magia, confundindo sempre o querer e o poder, o dizer e o fazer. O próprio Kant, no fim da vida, também ele, se tinha tornado negro: já só acreditava nas palavras.
Examinava Otelo pelo canto do olho. Faltava-lhe o francalete ao queixo e no entanto eu via-o correr, criança, nas praias, de djellaba anil. Lembrava-me: «François, em Moçambique, eu revoltava-me contra a injustiça, porque só brincava com os pretinhos.»

E de volta a Bissau.
Horrível sentimento do já visto, da mesma coisa. Será a vida diferente para os extraterrestres? Eu não ousava confessar a Otelo que Gamparra me tinha enfastiado e que, em Bissau, se acabava por duvidar da própria existência.
Mas o que se passava na cabeça dele? Uma Lua enorme, por cima de nós, que calcorreávamos o molhe. Não longe, raparigas cortavam juncos. A noite cheirava a amêndoas e chegavam até nós vozes de um draga-minas, o único barco atracado, deste minúsculo porto de pesca.
— Tem-se muitos pensamentos quando se tem medo de morrer...
Que quer dizer com isso, Otelo?
— Quis dizer que gosto da África.
E era mostrar-me a noite com um gesto vago como para me provar que havia correspondência entre a África e a noite.
— Otelo?
— Sim.
— Em que está a pensar?
— Estava a pensar que Spínola é um homem doutros tempos. E de resto, sem Cabral não teria havido Spínola. Eu havia de me entender com Cabral se tivesse podido chegar até ele. Mas, o que quer, sou capitão. E isto não passa daqui, não é verdade? Cabral formou todos os movimentos de libertação de África com os mestiços dos anos 60, com os irmãos Andrade que lutam contra nós em Angola, com Viriato da Cruz morto na China. Este, sim, acreditava no socialismo, tanto como Jonas Savimbi!  Por seu lado, Fanon e Lumumba lançaram-se na luta por causa de Viriato da Cruz. Ele tinha uma visão. Era grande, não doutrinário. Recusava os soviéticos como recusava os americanos, e os chineses. Morreu na China, da China. Na China, uma pessoa abandonada e que não é chinesa, morre. Mas porque não havíamos nós de ser os Spínola?... Vou dizer-lho. Toda a minha vida sonhei fazer um golpe de Estado.
- Seja como for, ninguém merece nada... Ouça! Está a ouvir?
Com efeito, diante de nós, no dilúvio das trevas, distinguiam-se ao longe, em qualquer parte, explosões surdas, morteiros, bazuca, depois, um clarão, os foguetes brancos. A noite voltava a fechar-se sobre o silêncio da água, sobre aquilo que seria a última versão da cabra de Monsieur Seguin. Amanhã, se calhar, íamos ver a equipa de futebol do regimento regressar com os pés arrancados. Nós olhávamos um para o outro sem uma palavra, ensimesmados, tendo ele e eu encontrado refúgio no fundo da nossa consciência, aí onde se decidem os mais pequenos gestos da vida quotidiana, a história do mundo e a das fadas. Acabada a adolescência, quando nos sentíamos eternos! A consciência da morte — que o homem cai — tinha-nos entrado na alma como um lagartinho verde. Iluminado de amarelo pelo fanal da draga, Otelo aparecia-me de repente em todo o seu narcisismo, não o César das alamedas de Castel Gandolfo, mas um desses óscares de cinema que recompensam o vencedor duma categoria, um óscar português. O amarelo tinha-o avolumado. O seu ar de gazeteiro tinha-se apagado, substituído por uma hidrocefalia mussoliniana que lhe dominava a queixada. Ao encará-lo, eu recordava a silhueta cinzenta de Spínola, e a sua nuca de feijão: as duas faces de Portugal. Janus inquietava.
E dizia eu a Otelo, na noite, que nada seria mais prontamente acompanhado em Portugal que uma revolução. Que era preciso mudar tudo ao mesmo tempo, descolonizar em África e corrigir os costumes em Lisboa. Não se podia viver neste país como no século XIX, com as suas oligarquias de monopolistas de polainas beges e de banjo, tresandando a lavanda inglesa. Não se precipite, Otelo. Tente um golpe. Uma ideia de cada vez, e vai poder. (Ele olhava para mim, admirado.) Eu hei-de fazer tudo para o ajudar. Eu sirvo-lhe de ligação. Há um grupo em Lisboa só à espera de um sinal da sua parte. Hei-de falar-lhe nisso mais tarde. Eleve o seu país até esta altura (gesto acima da minha cabeça). Pense nas desigualdades sociais, nesta guerra em que você se está a enterrar, na opinião pública mundial, que detesta os portugueses, o «fascismo à portuguesa»...
— Agradeço-lhe, François. Eu penso neste golpe de Estado desde pequeno, quando brincava em Lourenço Marques com os pretinhos. Estamos longe de estar prontos. Há camaradas que pensam que é impossível. Quase chegámos a cair na ratoeira Delgado. E nós admirávamos Delgado... Eu gostava tanto de tornar este povo um bocado mais feliz...
Com que candura ele tinha ousado pronunciar esta última frase. Eu tinha quase a certeza de que se ele alcançasse o poder, havia de querer dar tudo ao povo, mesmo que o arruinasse totalmente desde que isso lhe desse prazer. Regressávamos depressa. Bissau tão tranquila como a Suíça protestante. Aqui ainda ninguém se suicidava. Jeep da polícia militar afrouxando. Cabourg com a polícia montada... Mas porque me tinha eu metido nisto? Um hábito?
No fundo, Spínola, Otelo, eram-me indiferentes. O que me dava gosto era pensar, pensamentos nada práticos, e não revolucionários. Como Flaubert, quereria ter tempo, preparar os meus encontros amorosos com seis meses de antecedência. Balzac alvoroçava-se com a ideia de ver Mme Hanska, de três em três anos, em Neuchâtel! Eu pensava em Catarina no seu apartamento de vinte divisões em Lisboa. Teria ela, por seu lado, decidido tudo por mim? Que aventura, antigamente, ir a Ruão! Uma pessoa tinha que preparar-se. Que fica dos nossos amores de soldadesca? Apetecia-me oferecer a Otelo este propósito de Salazar: «Só conheço um militar que tenha aberto um livro durante a vida, um só, o general Câmara Pina.»
Chegados diante do hotel.
— Luz verde de lés a lés, Otelo!
— Luz verde, François! íamos separar-nos com esta metáfora automóvel, quando, agarrando-me pelo braço: — Devo dizer-lhe que nós estamos muito mal organizados. De certo modo, é melhor que... (Nunca cheguei a saber o que me queria ele confiar naquele momento.)
Dormir, adormecer. De noite, não há nada mais importante que um mosquito.
(...)
Teria sentido Spínola o meu olhar sobre o retrato de Caetano, de fraque pregado atrás dele? Disse-me:
— Está a olhar para o nosso chefe do governo? Marcelo não avança ao ritmo que a situação exige. É preciso travar a tragédia histórica que se prepara. O conflito guineense inscreve-se na corrente da Terceira Guerra Mundial. Sobre um fundo furta-cores, a audiência começara.
O débito do meu interlocutor, grave, apático, pontuado de gestos doces. Vivia-se a crise. Mas a fama que tinha adquirido em combate não a ia comprometer a sublevar o exército. Pelo contrário, queria confirmá-la abrindo os olhos de Lisboa. O seu país arriscava o pior. A Assembleia Nacional não existia; os militares estavam corrompidos; Caetano, fraco diante deles; o Presidente da República, preocupado com o protocolo; os costumes depravavam-se. Não fora a política africana dele, Spínola, que obrigara o Primeiro-Ministro a decretar a autonomia das províncias ultramarinas? Mas Caetano ficara prisioneiro dos meios de negócios e de um estado-maior enfeudado ao capital. Entretanto, os seus capitães exigiam meios para ganhar a guerra: Portugal não lhos podia fornecer e os países europeus, a América concediam-lhos a conta-gotas, tratando-os de imperialistas. Hoje, ele que ganhara a batalha das cidades e dos postos avançados, tinha que admitir que o combate não tinha saída.
Mas quem constituíra a Assembleia Nacional legislativa da Guiné? Ele. Quem acelerara a participação dos africanos na vida pública? Ele. E quem ainda estava a institucionalizar os primeiros representantes legítimos da nação guineense do futuro? Ele, sempre ele. Ele era um lealista, favorável a uma mudança, mas no quadro da legitimidade. As qualidades que lhe importavam não eram as do homem de guerra mas as do cidadão. Pregava: «O governador pode errar. É necessário que o povo esteja atento à sua actuação. É necessário que o povo critique, que fale, que não diga apenas: sim.» Povo, a palavra «povo» vinha sem cessar à boca do governador. Abrira-se com Senghor acerca da autonomia guineense e da cumplicidade soviética na rebelião. Aquando da recente operação Ametista Real, na fronteira Norte, os seus comandos negros tinham tido que enfrentar mercenários brancos, cubanos, alemães do Leste, checos. O seu rosto alongara-se. Dir-se-ia uma mangusta pronta a fingir de ramo durante oito dias para sangrar o seu réptil. Tantas as mangustas quantos os ramos, e os soviéticos já não existiriam. Seguiu-se então uma longa exposição sobre a situação da Guiné para uso interno. Encontrei-me lá fora. Spínola dissera tudo. Mal chegasse a Lisboa ia poder informar Liebig.
(...)

Otelo, na pista, acenava, pequeno, robusto, sorriso encantador, todo o imprevisto, todo o poder da juventude quando os seus trinta e oito anos já não são os de um jovem. Eu via desaparecer Bissau. Agora só a superfície plana da floresta e os seus perigos, a imagem de Spínola dando a última demão. Fingia governar, como em Lisboa, como por toda a parte, como todos os que nos querem fazer crer que têm o poder que não têm. Lado fantasmagórico de toda a política e de toda a vida dali em diante, em proveito do reino da opinião, do reino da quantidade. 

(continua...)

Excertos do livro 'maldito' O QUINTO IMPÉRIO. Na Guiné, com Spínola e Otelo


(...)
Spínola não devia gostar dos mistérios só pelo prazer de os esconder aos jornalistas. Tinha a reputação de presidir ao segredo, desdenhoso dos mexericos se uma das suas maquinações se virava contra ele. Não tinha provisão perpétua de bodes emissários, que sabia tirar da manga nos momentos críticos com um suplemento de alma? A emboscada estava longe! Não o tornámos a ver durante alguns dias, com a sua espécie de altivez de tio aborrecido. A alma atlântica preparava a sua vingança. Desta vez ia ocupar-se da história do futuro. Perito florentino com certificado em estratégia contra-insurreccional, eu imaginava-o aproveitando um golpe de Estado, que teria deixado organizar por amor ao protocolo e à manobra dilatória.
O caetanismo ficaria encantado de canalizar, com ele, Presidente da República, uma nova política, pondo fim aos gerontocratas do regime que gemiam que a República era ilegítima, porque não tinha resistido em Goa. Eu observava-o atrás da sua máscara de autocrata, um pouco acobreado pelo combate, astuto, múltiplo e saboroso, tendo desviado esta guerra, que o teria enterrado, para os seus fins imperiais; como se a Guiné não fosse uma periferia, uma província esquecida, afastada dum Portugal continental que queria o mundo de ontem e que mais ninguém queria.
A sua chegada há pouco, à maneira da estátua do comendador, o parteiro da morte, o maiêutico revisto por Maurras, dava-me a impressão que ele tinha feito de Bissau o coração do seu projecto «Portugal, Brasil, África», o triângulo de ferro, a fortaleza onde, exigindo a obediência dos seus esbirros e dos seus camareiros, lhes designava as suas vítimas, reservando para mais tarde surpresas para Lisboa. Esquecia que esta guerra de intermediários e de assassinos, de prolongamentos joycianos, estratagemas, panóplias, segredos, ia criar uma situação irreversível, senão na política, pelo menos na sua política.
Sem ele saber, os seus oficiais subalternos, à luz da subversão que combatiam, descobriam pouco a pouco que nada é verdade, tudo é permitido. Já se estendiam progressivamente no terreno deste César que vivia de alibis e de ritos. Não se tinha apercebido ele que as ideias avançadas já não pertenciam nem aos mestres, nem aos profetas, que elas circulam por toda a parte, que dão ao povo — a quem no entanto ele chamava «bom povo» — o desejo de também tentar algumas experiências, até mesmo de o mandar passear.
O plano do general visava a destruição do PAIGC, mas sobretudo a tomada do poder em Lisboa. Acabou por se eliminar a si mesmo, bebé Spínola, incarnação dos sonhos de oficial Mistinguett que põe luvas para falar à rádio, o santo das agências funerárias do pensamento ocidental clássico, objecto e já não sujeito da história.

Otelo tinha-me introduzido no bar da esquadrilha. Estendidos em largas poltronas, pilotos de fato-macaco tratavam a melancolia com coca-cola, e enfermeiras pára-quedistas de fato de salto, com as nádegas moldadas, com grandes lágrimas de uísque contavam as suas histórias, trocavam impressões. Otelo, Otelo! Popular! A alegria que ele sentia ao passar no meio deles, piscadela à direita, piscadela à esquerda. Passa ao de leve. Vai direito ao canapé do fundo debaixo das pás do ventilador. Sorri-me, cabotino.
— Eis, meu caro François, a nossa vida em Bissau todos os dias, a ponto de eu me sentir seguro do amanhã. A guerra pode durar muito tempo. Terá ocasião de verificar que o PAIGC mente quando afirma que o nosso exército vive desenfiado. Antes de lhe conceder a entrevista, o nosso general Spínola quer que eu o leve onde você desejar. Estou à sua disposição, sentindo-me mais que nunca disponível e pronto para outra coisa. Eu não abdiquei, François, não deixarei sempre os outros decidirem por nós. A guerra aqui já não é o que se conta em Lisboa.
- Devo mesmo confessar-lhe, François, sinto-me mal na minha pele. Eu gosto destes negros. Nasci em Moçambique e, desde pequeno, fui habituado a brincar com os pretinhos. Fugíamos juntos quando chegava a polícia. Sim, o que são trinta e cinco anos na vida de um homem?
(...)
- O nosso governo pressiona Paris, porque Senghor trabalhava já com o vosso SDECE. Em 1966, Cabral desenvolve a resistência na região de Sandimingo. Os países de Leste intrometem--se. Têm uma roulotte em Dakar. Em Conacry, estão à vontade. Sékou Touré quer a sua Federação. A fronteira, diz ele, é uma invenção colonial. A Guiné tem que parar na Gâmbia, mesma floresta, mesmo povo. (...) Spínola desembarca. Tudo muda. Já não há fair-play. Os golpes baixos são recomendados e bater sem dó nem piedade. A intriga reina. Formam-se assassinos, intoxica-se, manipula-se e corrompe-se à porfia. Spínola repete: «Nada é verdade, tudo é permitido.» Nos dois campos a revolução faz a guerra aos que não são desta revolução. E nós, os capitães, inventamos um estilo que possa agradar ao governo (...)
- Há cães, diz Otelo, mas são treinados para o silêncio. Uma raça especial, «leões» da Rodésia. Não se anunciam. Com um salto partem a nuca. Em recompensa, a cabeça... Guiava devagar, entregue aos seus pensamentos.
- Também eu, François, penso passar um dia à política.» No último momento, aceitava voltar a falar nele, cedendo à confidência, mas sem exigir resposta, de fugida, levantino, à espera da maledicência à portuguesa.
No passeio, dando a volta ao carro, eu inclinei-me para a porta: — Um dia, quem sabe, Otelo, se não será preciso opor-se na metrópole às classes dirigentes?
Um silêncio e depois, esquivando-se: — Voltaremos a falar nisso.
- Caro Otelo, posso fazer alguma coisa por si?
— Com certeza, François. Uma resposta à chinesa que queria dizer «não».
Eu passei oito dias a calcorrear a Guiné com Otelo de Carvalho, mas sem nunca conseguir tirá-lo da sua reserva, menos ainda que dantes. A lógica das minhas perguntas embatia contra a distância dele. Existe um discurso, uma retórica, um estilo de vida portugueses. O último dos anarquistas fala como um jurisconsulto. Precisa de uma história fabulosa, de uma moral que não se ajusta a nada. As suas palavras deslizam umas sobre as outras. Como conseguiu a natureza este fenómeno ímpar?
(...)
O tenente Carolino Barbosa aproxima-se de mim: «Senhor, somos pacifistas». Da placidez misteriosa dos cadáveres!
36 125 quilómetros quadrados. «A espinha de África, sussura-me Otelo. Morre-se por isto.» Diante da nossa tribuna desfila o batalhão de comandos africanos. Mas acrescenta: «A africanização é, com o desenvolvimento económico e social, o nosso primeiro objectivo...»
Spínola está em cima de um estrado, monoculado, enluvado de couro, rodeado do seu estado-maior, desta vez oficiais da Marinha e da Aviação. Fala. Adora falar, Exorta. Eu percebo a palavra estrela: «A todos formulo votos de que, pela vida fora, vos continue sempre a acompanhar a boa sorte, aquela boa estrela... estrela... estrela...» Disco riscado ou estarei a dormir? As estrelas de Spínola são cabos. O general acredita nos céus como os Ptolomeus.
O ruído do anel batendo contra o microfone acorda-me. Ele cicia: «A Guiné melhor». Os homens pintados deixam-nos com um passo cadenciado, o braço direito atirado em frente, Kalachnikov (também eles) ao ombro. Saraiva de Carvalho explica-me que os comandos africanos são soldados de carreira, que comem comida quente, usam sabão e pasta dos dentes, papel higiénico, mas que, na guerrilha, bem podem levar às costas morteiros sem recuo, todo um armamento sofisticado, limpam-se aos dedos...
Otelo obstinava-se em convencer-me ali mesmo que os portugueses tinham ganho a guerra, pá. Bocas, só bocas, como se diz em português. Eu cá antes contestava. Um atolamento pior que uma retirada estratégica, pá.
Eu estava um pouco inquieto com o silêncio húmido. Sentia a guerrilha emboscada. Distinguia mochos beges com a extremidade das asas tigrada. Íamos servir de alvo aos caçadores do PAIGC. Não, eis que Otelo se lança numa verdadeira confissão negativa:
— François...
— Sim, meu caro Otelo... (Acho que ele tem uma cabeça de capitão de nave espacial, mas nenhum cosmódromo, só crocodilos e hipopótamos).
— Sim, Otelo...
— François, tenho que dizer-lhe, já não há nenhuma possibilidade de aventura colonial. Estive em Angola, antes da Guiné: menos riscos que os de um polícia em Nova Iorque. Estou a pensar em voz alta, François. A colonização já só é possível à esquerda, no Leste da Europa. Assim também, penso eu, a Europa, temos que a fazer com os russos. Apreciei a sua discrição, François. Você é um jornalista singular. Tive sempre a impressão de me dirigir a um amigo. Nós, os capitães, desde que ensinamos os pretos a pensar, e que remexe-mos nesses livros que só a guerrilha e os ricos conseguem arranjar, pois bem, sabemos que o colonialismo está votado ao malogro, irremediavelmente. Nós não passamos, desde há anos, dos representantes de um país que não existe. Salazar, era o czarismo, devaneios de opiómano. Portugal é um asilo de velhos, quanto muito equipado para o trabalho nos campos. Uma só realidade: o exército! Mumificado até aqui, esta guerra reergueu-o. Atenção! Neste momento, estamos no Cacheu, Guiné. Passeamos de Zebro III. Pois bem, eu não estou aqui, nem ali. Eu sou português, quando muito, um membro da Legião para manter a ordem. E dentro de um mês, quando desembarcar em Lisboa, de licença, pergunto à minha mulher: «Onde estou eu? Que raio, diz-me onde estou?»
— Mas, e Spínola?
— Tem tempo de o ver, François. Está convidado para o palácio amanhã... Para os meus camaradas e para mim é um grande chefe militar, mas encarna plenamente a mitomania lusitana. Crê ter ideias novas. O quê? Tornar-se Presidente da República?...
— Otelo, eu sei. Imagino. Que quer você modificar?
— Nós estamos a discutir os dois, François. Aos camaradas digo eu: «Façam apostas altas, ganham a dobrar. Acreditem, que raio!»
E eu, irónico: «Tome o poder, Otelo!»
— O poder? O poder! O grande problema do poder, é dar, não é tomar!
Sem querer, eu tinha puxado um cordelinho. A minha missão... O contacto, teria dito Liebig.
Entre as margens cada vez mais baixas corria o rio que nos veiculava em direcção a não sei que Osíris. Carvalho tinha-se recomposto. Voltara à sua atitude de português médio, de filho submetido ao pai. Virando o bordo, pôs o motor a pleno vapor rumo à Aldeia Formosa. As ondas levantadas pelo rasto abatiam-se nos paletúvios com um rolar de caroços.
(...)
Aceitaria Otelo fazer o papel de bobo no seio duma junta spinolista? Todos estes portugueses, peritos em guerras intermináveis, tinham uma tal candura e um tal sentido do maquiavelismo, que teriam acabado por bater os chineses no seu próprio terreno, com os quais se parecem no amor aos cravos e aos fogos de artifício — mais isolados que eles entre si. Igualmente isolados do mundo.
Pensava em mil coisas ao mesmo tempo, o nome de Otelo agradava-me: Carvalho, tão bonito como cotovia... Mas, cá está ele de novo, o Otelo.
— Sozinho? perguntava ele. Sozinho? («Sozinho» exprime: «na solidão».)
— E as notícias, Otelo?
— Não há notícias! O convite é para esta noite.
— Quem são os convidados?
— Vai descobrir sozinho. Eu não estou ao corrente, nem faço parte da corte. Vamos!

António de Spínola avançava pela alameda, precedido da sua regata manuelina. De farda de gala branca, com torcidos dourados, estrelas na manga e listas vermelhas, colar de placas de marfim e boné. Cumprimenta, chama-me:
- Oh, senhor Mazin. Como está? Passou bem?
Estava muito à Insulíndia, nestas áleas botânicas, voz nasal e faustosa, melancólica, hepática, hiperbólica, boca de desdém. O brilho do seu olhar, atrás do monóculo numa imperceptível rotação contra o nariz adunco.
— E Otelo, meu general?
— Não é convidado. Veleitário demais. À noite escreve o seu poema, sempre o mesmo desde há trinta anos!
- Dona Helena! Apresento-lhe François Mazin, um jornalista de Paris...

E era erguer a taça a «Uma Guiné melhor», a Portugal, à França! Que reter do sermão? Que eu, François Mazin, diante do meu prato, não passo do rei desta «vitela enrolada», deste «recheio de lebre à la Royale» e que estes pratos não passam talvez de «caganitas de rato». Alarido. Falta A Marselhesa e o Chant du Départ.
Eles levantaram-se. Eu levanto-me. Um certo coronel Fabião, um pesadão, quer fazer um brinde à generala, mas esta adianta-se-lhe, muito protectora: «Happy birth-day Fabião!» E naturalmente nós repetimos em coro: «Happy birthday Fabião». Um verdadeiro concurso de elogios de pessoas que não deviam pensar a mesma coisa.
(...)
— Que calma, meu general! (Era preciso dizer qualquer coisa...) Acrescento de repente, cretino: Não é? 
Ele vira-se. Monóculo, medalhas, guarnições, a túnica aperta-o na cintura. Esboça um sorriso entendido, estava na sua contemplação, ele mesmo emissor, Marconi em directo com o cosmos.
— A esta hora, diz ele, mata-se algures. Viola-se, queima-se; e dizer que são os filhos da minha Guiné melhor!
Eu apreciava-o. Oh, meu Deus, a nuca dele, em forma de feijão. Toda a sua impaciência, as suas hesitações fechadas ali dentro. Capaz de todas as evasivas, susceptível, miudinho. O que são os militares senão invertidos, sonhando com grandes holocaustos homossexuais? Irá uma pessoa entesar-se com o aparelho inteiro, quando o horizonte estiver vermelho? Eu tirava algumas conclusões. O «campo da Guiné» servia a lenda spinolista. Espartilhado no seu helicóptero, julgava-se a réplica de Dom Sebastião. Perdido, o rei é esperado porque nunca mais regressa. Ora, o general tinha já resvalado para a política e, um dia, voltaria a Lisboa, Dom Sebastião impostor e desmascarado como tal, e ao mesmo tempo chefe de Estado meio verdadeiro. Como Delgado, como todos os generais portugueses, queria ser Presidente da República e marechal.
Mas Delgado tinha consigo a paixão, a inteligência testicular, bakouniniana, que só podia acabar com a morte do herói marcado pela fatalidade. Enfim, era um verdadeiro conspirador. Spínola, pelo contrário, ele mesmo demasiado escrupuloso, e por cálculo do risco, deixava os outros conspirar por sua conta. Delgado e Cabral foram ambos assassinados... por ordem de quem?...
Interpela-me:
— Eu podia tornar-me Presidente da República guineense. As populações dizem até: Amílcar tem a pele negra e o coração branco, mas Spínola tem o coração negro e a pele branca.
A fórmula era sedutora. Eu desconfiava dela. Reencontrava-se a tentação portuguesa, desviar a Guiné, como o capitão Galvão desviou o Santa Maria. Precursores em tudo, rota náutica, aviação, captura de reféns, no dia em que todos os portugueses ficarem em casa, será a sua dissolução.
— Meu general...!
— Sim.
— Meu general, o seu nome circula pelos meios da oposição portuguesa. Contam-se muitas histórias acerca de si.
— Eu sei, eu sei... o destino... (um pouco dramático) ... o destino...
— E a Guiné?
— A Guiné só tem sentido na medida em que eu sou o seu comandante-chefe. Não passa da peça de um conjunto.
— Não tem o projecto de um livro?
— Olhe, arranje-me um editor em Paris...
(...)
— Com certeza, meu general...
Tinha-se posto a repetir aquele exasperante pá que corresponde em Portugal a uma maneira mais mental que social, a um snobismo que o povo também apanhou, sobretudo desde os acontecimentos de África. Apanhados de imprevisto, os portugueses são indescritíveis, podem-se-lhes contar os pá.
— A Tricontinental, Mazin, pá, pretende coordenar a actividade internacional dos revolucionários...
— Precisamente, meu general, o que aconteceu ao capitão cubano Peralta que o senhor mandou prender?
— Não foi só ele, vários cubanos, meu filho, pá. Na verdade, agentes do KGB, pá, a DGI cubana não é mais que o KGB, pá, que impôs José Mendez Cominche para chefiar a DGI, pá. Posso mesmo dizer-lhe que Ulisses Fernandez Estreda, chefe da quinta divisão da DGI, estava recentemente, pá, em Conacry, pá, e assinalaram-me perto de Boe, a presença, pá, de Joaquim Garcia Alonso dito «Camillo». Você pensa que nós nos batemos na Guiné contra Cabral, pá? Contra a Havana, meu filho, e os serviços soviéticos... Se você soubesse, pá! Vou dizer-lhe. Já tenho a Guiné às costas, mas em breve terei o meu país, pá, 10 % do exército estão controlados pelo PC. Oscar está na praça, meu filho. Oscar, um oficial do meu país mas que está contra o meu país, um comunista histérico.

O adulto tem tendência a alienar a infância. «Não, Otelo, tinha-lhe dito o pai, tu nunca hás-de ser actor. Como eu, nunca hás-de representar Shakespeare...» Assim, tinha ele entrado para os Cadetes, aos quinze anos, desejoso de saltar as etapas: «Mamã, eu quero ser presidente da República!» Em Portugal, o exército dá oportunidades, prolonga a política e a ela conduz. Esse era o lado optimista de Otelo: a Guiné seria a sua oportunidade.

(continua...)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O QUINTO IMPÉRIO - 1977, Dominique de Roux. Excertos do livro 'maldito'

Clément é o 'alter ego' de Dominique de Roux, francês, jornalista, escritor, intelectual, editor e aristocrata mas, acima de tudo, ligado à 'piscina' - ao SDECE - os serviços secretos franceses no exterior. Apontado como espião, organizador de mercenários, etc., etc. Pesam também as ligações à Aginter Press - agência de informação de fachada com sede na Lapa, em Lisboa nos anos 60 e 70 - e ao Projecto 'Gládio'.

Clément ao longo do livro surgirá sob um outro nome, operacional, como François Mazin, sugerido pelo 'engenheiro', um tal Salvador Palmela Bruno, de um gabinete ultra-secreto, o ANO (estamos certamente a falar da Aginter Press / Gládio). Um certo Chadek do leste europeu surge como outro dos elementos ligado ao projecto, agente 'travestido' de trotskista, ligado a grupos da '4ª Internacional'.

Depois de 'Ne traversez pas le Zambeze' (1973), escrito após uma visita a Moçambique, De Roux recebe a missão de ir à Guiné e a Moçambique 'tomar o pulso à situação'. Conhece Otelo, Spínola, Kaúlza de Arriaga, Jorge Jardim, Orlando Cristina... Mais tarde seria conselheiro de Jonas Savimbi, da UNITA.
 
Em 'O Quinto Império' do qual que este texto encorpa imensos excertos, relata pois a odisseia africana na Guiné e em Moçambique em 1973, e os meses e dias em Lisboa antes e por alturas da revolução do 25 de Abril. Não só toma o pulso à situação como serve de elemento de ligação - ou instigação? - junto de principais autores da 'revolução dos cravos'. Percebe-se em toda a trama aqui relatada uma tensão entre a corrente globalizante, pró-americana com os franceses de charneira, e uma tradicionalista, e que resiste ao que é de facto a tomada de poder por forças maçónicas - o que hoje constatamos. Agitado o papão comunista, há que aplicar o 'choque eléctrico' para que Portugal avance, 'passe entre a revolução e a reacção'.

Nos anos vindouros iremos ver que foi isso mesmo que se passou, e operou-se uma transferência de poder das grandes famílias tradicionais portuguesas para os gigantescos empórios americanos e europeus. Portugal do 'Quinto Império' está ainda por cumprir.

O Quinto Império é pois um fresco fantástico sobre estes tempos conturbados.

Dominique de Roux é acutilante e abre o saco. Saberia ele quando editou o 'Cinquiéme Empire' que tinha poucos dias de vida? Ventila factos escaldantes - o atentado que matou Carrero Blanco em Espanha, cometido pela ETA, teve afinal a 'sugestão', foi mais uma 'false flag' da CIA. E Kennedy, sim, Kennedy... aventa-se a mão invisível da agência, através de uma 'joint venture' com elementos da OAS, garantem outros. De passagem fala-se também na granada lançada por Orlando Cristina contra um oficial - seria dos comandos, e está criado o pretexto para desencadear Wiryamu e atrapalhar a política africana de Caetano, empurrando Kaúlza para os desígnios de Jorge Jardim.

'O Quinto Império' é editado em meados de Março de 1977. Duas semanas depois, a 29 de Março de 1977, Dominique de Roux aparece morto! Doença cardíaca...

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(...) Mal chegou, Clément compreendeu a razão de ser de Portugal, precisamente a de não ter nenhuma. Ou então uma razão de ser inteiramente secreta, incomunicável. «Os comunistas não têm sexo!» O homem que, abruptamente, acabava de pronunciar estas palavras era o mesmo que, até então, tinha explicado a Clément, o mais devagar possível, a dificuldade de ser português.
O capitão Novo tinha vindo buscá-lo ao Avenida Palace. Esperavam juntos, no escritório dele, a chegada do responsável da ANO, um instituto de investigação na Lapa, o bairro aristocrático de Lisboa (os seus palácios do século XVIII, do tempo das minas de ouro do Brasil, do tempo do último esplendor português).
— Sim, senhor, os servidores da Revolução não têm mais sexo que coração. O comunismo atrofiou-lhes tudo. Eles são a mecânica de um sistema de polícia, de psiquiatras e de penitenciários. A palavra «povo», na boca dos membros da Partido, é uma farsa. Mentem de tal maneira que deixam de saber o que é a mentira. O espírito de negação esmagou neles toda a espiritualidade. Rebaixa-os, materializa-os e fecha-os na mentalidade pequeno-burguesa com as suas hierarquias às avessas. Se quiser, o comunismo é as traseiras do nazismo
Pela janela aberta, Clément sentia o ar calmo, mediterrânico. Ao menos por uma vez, Lisboa não tinha vento atlântico nem tosse. Do outro lado da rua, ele via a fachada cor-de-rosa de uma das cidadelas da feudalidade, casa patrícia defendida contra os ladrões mas não contra os motins. Sentia-se o tempo passar. Falar de política? Tarde demais!
Alguns instantes depois, o 'delegado da ANO para a zona Portugal-África veio ter com eles. Tinha entrado, e sem pernas. O engenheiro Salvador Palmela Bruno tinha dado a volta à sala, entalado a cadeira de rodas atrás da secretária, o tronco poderoso, um duro.
— Novo explicou-lhe com certeza o meu acidente em Moçambique. Uma mina! É assim! Mas porque não se fala das guerras que Portugal não fez? Nós perdemos quinze mil homens em África, mas quantos teríamos perdido em 1940? Chadek tinha-me prevenido da sua chegada. Benvindo pois a Lisboa, François. Daqui em diante você é François Mazin, meu caro Clément.
«Os mais belos olhos que eu jamais vira sob a testa de um homem», disse Clément para consigo, no instante preciso em que atravessava clandestinamente a fronteira simbólica para lá da qual se resumia a um testa-de-ferro.
- É a sua primeira estadia, não é, Mazin?...
Tem diante de si o director da ANO, digamos uma espécie de instituto de 'estudos estratégicos'. A sua voz, sobretudo, era impressionante. Variações de ternura tais que parecia à beira do soluço, as modulações de um homem transtornado, que precisava de comover o interlocutor, por não ser capaz de agarrá-lo pelo braço e levá-lo com ele.
— Que quer de mim? digo eu. Eu tenho confiança em Chadek. Acabo de chegar. Qual é o problema?
— Temos a vida diante de nós, Mazin. Saiba que em Portugal começa a África, onde nem o tempo nem a duração têm lugar.
(...)
O engenheiro só abriu a boca à vista de um cartaz gabando as praias multirraciais de Moçambique: «Eu estou cansado, nem você imagina, de combater por coisas perdidas de antemão... (O meu silêncio.) Você deve ser democrata. Os democratas chegam sempre tarde demais.»
De novo, braços tinham agarrado no engenheiro, desdobrado a cadeira de rodas, e foi escoltados pelos grooms do Grémio que nós fizemos a nossa aparição nos salões cor-de-reseda decorados com quadros meditativos d'além túmulo.
— Ali, Mazin, você tem o Portugal que conta, os fiéis do reino de Salazar, e o que resta do seu corpo, governo, burguesia de negócios, lobby do algodão, a banca, o aço, o cimento e os toiros, todas as «Maria-vai-com-as-outras» das percentagens e da prebenda que proclamam, nunca se tendo dignado falar com um empregado ou um operário, que mais vale um assassino que um comunista. Os aristocratas não comem aqui o seu pão. Seleccionaram-se no Turf Club, rua Garrett. Juntos continuam a viver as coisas entre eles para terem recordações que talvez um dia venham a apreciar. Até lá se encontra um monarca destronado a quem a masturbação tornou surdo. Olhe! Na mesa ao lado, de camisa cor-de-rosa, tem o César Moreira Baptista, ministro da Informação, com um dos Mellos do Banco. Um pouco mais longe, Costa Gomes, general influente, alcunhado «Judas» pelos camaradas. Dizem que tem um cancro na garganta e os seus inimigos pedem ao cancro que cumpra o seu dever. Aquele tipo que parece Toukhatchevski, vai vê-lo em Lourenço Marques, é Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe de Moçambique. Fez fracassar vários golpes de Estado convencendo Salazar, que não acreditava. Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros, um poseur, mas simpatizo com ele. Gosta de mulheres. Faz a corte à mulher de um latifundiário. Pertinho de nós, Natália Correia, a nossa maior poetisa. Lutero mulher de belos frutos. Atrás, o director da televisão, o Cagliostro da vigarice. Todos, excepto Natália, que tem génio e sonha, estão demasiado ocupados a falar de política para a fazerem. Estão mais agarrados aos cargos e ao dinheiro que um Bragança ao seu castelo de dez séculos. Para eles, Caetano é comunista e, sem nada preverem, perpetuam um século XIX duvidoso, mesclados dum grande sentimento de ordem e de polícia, o capital imobilizado e o operário confinado no seu trabalho. A outra Europa estabeleceu as bases do liberalismo, mas estas pessoas vivem no mito da vocação mundial de Portugal, último bastião do «Ocidente cristão». Ora, sem se aperceberem, enfrentam forças concretas tão duramente como o homem das cavernas. E arranjam-se por dirigir as operações da caixa e dividir os lucros entre eles. Aqui, tem duas espécies de inúteis, os simplesmente inúteis e os inúteis nocivos. Nascidos donos deste país, vão-no explorando e ralam-se tanto com ele como com o dia de ontem. Como se desenrascou Luís XVI para ser guilhotinado antes de exercer a sua profissão de rei? Há uma história parecida na Alice no País das Maravilhas. E quando lhes dizem que Franco vai morrer e a Espanha vai ao ar, eles respondem que não têm medo da guerra civil. Cito-os: «De resto, os comunistas espanhóis só querem recuperar o ouro da banca de Espanha, depositado em Moscovo.» São tão mentirosos que têm que provar por todos os meios que têm razão. Vaticinam, empregando palavras cujo sentido não percebem muito bem. Bem vê que, ao nível da qualidade, a direita política é igual à esquerda. A política nunca tem a solidez das maçãs de Cézanne.
- Você chega ao fim de um mundo, um fim que nós temos que acelerar. Os ministros comem-se uns aos outros, os militares traem sem dar nas vistas. A sociedade está corrompida, os privilegiados e os notáveis estão desiludidos, indiferentes à África e à Europa. Quanto à geração da boa gente nova, é incompetente e levanta-se ao meio-dia. E quem, entretanto, tem saudades do regime, quem será o último salazarista? (Baixou a voz.) O doutor Álvaro Cunhal, chefe do Partido Comunista Português, hoje em liberdade (graças a Salazar, dizem). No fundo só difere de Salazar num ponto: nasceu para voar em estilhaços... como o almirante Carrero Blanco. Nós trabalhámos bem em Madrid, como no Texas, para John Fitzgerald Kennedy. Eu sorrio ao ler os relatórios dos peritos, o inquérito da comissão Warren. E estes jornalistas que passaram já doze anos da sua existência a chafurdar nos papéis, a colar em computador o registo da voz de Lee Harvey Oswald... Os tempos não estão para a poesia mas para a gadanhada. Tempo de pausa, sorriso disfarçando a fulguração habitual do sofrimento, o êxtase negro do mutilado. Leia as Memórias de Livingstone, encadeou ele. Atribui aos portugueses qualidades bizantinas: mentiras, assassínios, cobardia, todos os contra-meios e contra-argumentos das minorias pobres e fracas. Meu caro Mazin, você mesmo há-de verificar, nós somos púnicos, parecemo-nos com os mercenários de Amílcar, e todos esses matreiros do Mediterrâneo. Nós somos girinos!...
(...)
Devolvi-lhe a jogada para lhe provar que, embora não dissesse grande coisa, tinha amadurecido algumas ideias:
— O círculo da banalidade universal fecha-se. Já só há a pedagogia marxista e a barriga dos cofres fortes. Para quando a burocracia chinesa de mil anos! Por vezes acredito na inutilidade de tudo!... Mas em que lhe posso realmente ser útil?
— Tanta pressa, Mazin, tanta pressa! Eu tenho que lhe descrever primeiro esta sociedade portuguesa que, porque dorme e come à vontade, pensa que é a mais importante do mundo. Se a história de Castela é imperialista, a de Portugal é universalista, o que não quer dizer nada para os marxistas. Oiça-me bem. A burguesia portuguesa está próxima dos marxistas. Para ela, nada ultrapassa a história e nada a transcende. Os marxistas, esses, ainda por cima, travam-na. Não ousam transpor o limiar da sociedade sem classes. Atrasam-lhe a chegada. Tal é o paradoxo dos idólatras da história. Mas estou a chegar ao seu caso, Mazin.
Se eu fosse Deus e tivesse que salvar uma cidade, era Lisboa que eu salvava, ancorada na Europa mas atenta a uma simbólica que cubra o universo. No resto do mundo, esta está completamente perdida sob as preocupações do imediato. Nós estamos persuadidos de que, passando-se tudo no tempo, podemos inverter 'o curso do mundo. O essencial para nós está na Guiné, em Angola, em Moçambique. Os oficiais de que precisamos são cabeças de alfinete manipuláveis. Provaram os pensamentos de Mao Tsé-Tung capturados nos cadáveres dos guerrilheiros. Intelectualmente, estão no Jorge Amado, um brasileiro cheio de histórias naturalistas, Zola exótico. Consideram os comunistas uns cordeiros, ingénuos como todos os militares. Sonham em embalar o povo nos seus braços de gorilas. Mas o PC pensa a mesma coisa, tem a mesma ideia que nós, e trabalha para nos surripiar a operação. Examinemos a situação. Nem mais caetanismo que pompidolismo. Caetano é o herdeiro envergonhado da ditadura de uma classe, hesitando entre o seu temperamento de liberal e o medo da desordem. Se não é conservadora, a burguesia portuguesa é estúpida. E depois, fica demasiado do antigo sistema entre São Bento e Belém. Caetano pensa na Europa, o almirante Thomaz é prisioneiro do lobby africano. Caetano tergiversa, incapaz de conceber ou de sentir a profunda, a insustentável fatalidade da história. Ora, a história é por natureza ambígua e só se realiza na medida em que malogra. Caetano proíbe a censura, mas mantém-na a metade. Dissolve a polícia política, mas volta a criá-la sob um outro nome.
Entreabre as prisões o bastante para que os libertados denunciem publicamente os seus torcionários. Humilha o exército de carreira, dando galões aos estudantes cujos campos manda ocupar pela sua Guarda Republicana. E, à primeira sublevação de quartel, fugirá disfarçado de mulher. Ficará até ao fim a reboque do clã do almirante, dos seus integristas e da PIDE. Precisamente, o ministro do Exército é esse tapado à sua direita, Silva Cunha. Trepane-o e, em vez de miolos, encontrará um recheio cor-de-rosa de caranguejo. Eu escutava-o. Compreendia que a história repousa nas decisões e nas enxaquecas de uma centena de indivíduos médios, idiotas, que podem impor as suas ideias, manias, caprichos, gadgets, hold-up, depois de conversas de três minutos. O equilíbrio do terror situa-se a esse nível. Ele prosseguiu: Vejamos as nossas cartas! A burguesia? É a partir do instante em que o dinheiro se pode tornar eficaz que ela se recusa a sê-lo ela mesma. Champalimaud? Um mafioso sem Mafia! Marcha por ódio, pagará para derrubar Caetano mas, depois, quererá pôr a Revolução ao serviço dos seus negócios. O general Kaúlza de Arriaga? Muito inteligente, activo, mas anticomunista primário. Imagina que a União Soviética professa o marxismo. Delgado? Liquidado pela direita mas executado pela esquerda. Craveiro Lopes? Já apenas um nome de aeroporto!
— Ficam, digo eu, os comunistas!
— Espere, Mazin, você está a carburar depressa demais.
E António de Spínola? Nosso governador militar na Guiné! Sessenta anos, formação prussiana, procônsul, aristocrata, corajoso e astucioso. Pode ser o cavalo de Tróia da força que precisamos... o Movimento... das Forças Armadas... M... F... A... cá está! Movimento das Forças Armadas. Uma bela sigla. Administraremos a Portugal a descarga eléctrica suficiente, para que passe sem custo entre a Revolução e a reacção.
O senhor, por exemplo, podia ir a Bissau daqui a alguns dias com um cartão de jornalista. Irá ter com Spínola. Sondá-lo. Boa sorte!
E eu digo «sim», não sei porquê. Estávamos sozinhos. Os notáveis tinham voltado a penates. O engenheiro estava só e Caetano já sozinho. Eu já não pensava logicamente, com aquela lógica que já tanto difere de um ao outro. Tinha que deixar de sonhar com o passado e o futuro, agarrar o presente como um garoto. Ao longe, eu via o Tejo com um. barco. Ouvia os criados do restaurante sacudirem as cadeiras de palha e os pratos de barro. Escutava a, língua portuguesa.
(...)
Os elefantes são individualistas, eis porque o engenheiro queria viver no meio da sua sociedade matriarcal enfeudada a uma única avó. Palmela Bruno, como os elefantes, tinha o sentido da morte. Ele resmungava: «Olhe, empurre-me. Depois dos cangurus, seguimos o som da trombeta. Huíla, o preto, assopra na corneta. Os homens livres já só têm um refúgio, meditar no animal. Só o animal é impermeável ao marxismo. Os pombos de Paris pensam. Reconhecem as pessoas pela cor... E as moscas, sabe, gostam de morrer sozinhas...»
Huíla aspirava com a tromba a moeda estendida, metia-a numa caixa, virava-se, avançava um passo e depois puxava pelo sino fixado na parede e, voltando em direcção ao público, buzinava ao guarda que, automaticamente, o recompensava com uma braçada de palha. Amanhã, François, se Portugal se tornar comunista, o elefante dará erva ao guarda. Eis um homem reeducado. Se o elefante encarna o fascismo — tendo o cornaca adquirido aos seus olhos a qualidade de personagem único —, o homem, é o marxismo, consciência moral, demencial desejo de manter a servidão dos outros e a sua, o sonho do carcereiro de dormir numa cela.

Mais uma vez voltara a Portugal, «morto espiritualmente e intelectualmente». Salazar, dizia ele, tinha tido sentido da propriedade demais, pondo por cinquenta anos o seu país em situação. A sua famosa sovinice, o seu gosto pelas passas de uva, a sua devoção por Santa Teresa, a sua admiração pela França: «Como é bela a França! Eu fui a Lurdes.» Graças a ele, Flaubert, perseguido pelos seus credores, teria podido escrever em Sintra. Europeus, parem de chamar aos outros Terceiro Mundo, vocês não são sequer a parte côngrua! Entretanto, ninguém quer mudar nada da situação. O partido nacional é uma mulher e convidam-na para almoçar no Monte Santo Isidoro. (Eu pensava na sua cadeira de rodas, símbolo do monstro moderno. Os aviões cheios de paralíticos.) Os portugueses têm o sentido do compromisso e sabem organizar os jardins. Foi D. João II que inspirou Maquiavel. Lisboa é toda ela à imagem deste espírito, cidade em curvas e bossas, palácios pombalinos, mas as circunstâncias... Os liberais do Expresso, esses, encarnam o marcelismo. Importantes em 1969, são a esperança e os meninos bonitos de Caetano, com o seu estilo «nouille», moralismo social, diletantismo ideológico. As pessoas que resistem, fazem-nas calar, e as eleições, ganham-nas com maiorias que o não são. Veremos voltar a I República, 1910, caótica, uma miséria, a anarquia portuguesa de cravos pacíficos, se ninguém tiver cuidado...
— O assassinato político, François, bem doseado, alivia: fusil magnum, dum-dum. Um único assassino pode pôr em causa a República, premindo uma vez o gatilho.
Mas os meandros do pensamento lusitano mergulham-nos nas zonas de um sub-destino. O padre Domingos, 1919, chefe do partido terrorista monárquico, bem sabia disto. O pensamento português sempre se há-de hipnotizar com o regresso de Dom Sebastião. Nunca saberá acabar a sua aventura, povo flutuando atrás de tudo... (Eu pensava: somos vários seres na mesma duração e um deles morre, de tempos a tempos. Que pensaria ele realmente? Saído do zoo, já não se lembraria.) — A esquerda tornada tão estúpida como a direita inventou 'até uma Cogula' [Sociedade secreta francesa] universal, tupamaros, palestinianos, Fidel Castro. O exército, pelo contrário, está minado, repito-lho, pelos cocos (era ouvi-lo pronunciar coco). A África portuguesa vive a tragédia de uma guerra colonial clássica, mas, do outro lado, a guerrilha é obra da subversão mundial... (Vai falando... Eu era transportado para o mundo das crianças, seguindo com o olhar um caracol, que avançava num raminho.) O engenheiro não parava de explicar a manobra, os seus Protocolos dos Sábios de Sião... Depois disse, creio eu, que se deitava todas as noites às oito horas, de desgosto. Dizia-se: morto de cansaço ontológico: «A morte aproxima-se. O círculo fecha-se. Vou dormir muito tempo, muito tempo.»
Enquanto esperava o meu bilhete de avião para Bissau - viagem cujo princípio eu tinha aceitado —, tinha decidido ficar em Lisboa e viver à boa vida. Enfim, a vida de Palace.
Temos que dizer que se falava pouco na guerra de África, confinada em pequenos caracteres, sexta página do Diário de Notícias, entre um 'anúncio e o resumo da conferência de Domingos Monteiro, nosso ilustre colaborador! Mas quem morreu hoje, ao serviço da Pátria? Em combate? Os seguintes militares: em Moçambique, o soldado do RE n.° 702594/69, Estêvão de Almeida Chale, natural de Mecusi, filho de Chale e de Faifa; na provín-cia da Guiné, o comandante do pelotão de milícias, n.° 03064, Jane Samba Câmara, natural de Catio, filho de Malan Câmara e de Baylo Yalo, casado com, Aclama Colubali e Uri Yalo...
De crer que a legalidade do regime de Caetano, no fundo, se opunha à ilegalidade da guerra. No conozco país con mayor capacidad a no poder enterar-se de las cosas. «Não conheço nenhum país com tal capacidade de se desinteressar de tudo.» De crer que ninguém nasce, nem morre em Portugal.
Uma manhã, o engenheiro mandou entregar-me o bilhete de avião acompanhado de uma mensagem: «Meu caro Mazin, eu prefiro, discrétion oblige, vê-lo quarta--feira à noite em casa dos Vaz da Silva, no Restelo, Rua Vasco da Gama, n.° 15. Antes da sua partida, temos que ter uma última conversa. Daqui em diante, eu também passo a usar um pseudónimo. Chamo-me Liebig.»
(...)
Mas, eis Liebig. Ela eclipsa-se. Ele enxuga-se. Ela deixou-me. Ele diz-me:
— Meu caro, eu queria que a catástrofe acontecesse. Ah! que as bombas rebentassem sózinhas e em todas as direcções ao mesmo tempo.
Eu só pensava nela, e ele na sua Guiné, no meu papel, em tácticas. Arrumado à sombra, Liebig tomava fôlego sob as folhagens de Verão. E, ao longe, saturadas de luz, as mulheres ovóides. Por questão de marcar o meu interesse, calafetado assim no seu sonho, pensamentos e segundos-pensamentos, pus em dúvida o seu pessimismo: — Nós podemos ganhar dez 'anos. Basta agir! Você tem que compreender a situação deste país, François. O almirante Thomaz foi reeleito para a Presidência da República em 1971, sobre uma concessão de Caetano, que confiava num diagnóstico erróneo da Marinha: os seus dias estavam contados. Em troca, tinha a sua lei do Ultramar, a qual no entanto, modificada no último momento pelo clã dos integristas — exército, colónias, interior —, se tinha tornado nula. Pois o almirante, de excelente saúde, aproveitava-se disso para reforçar o seu poder. Daí o nosso plano: convencer o general Spínola a aceitar a Presidência da República, ficando Caetano como Primeiro-Ministro. O general descoloniza, o ministro abre o país à Europa. Juntos impõem uma evolução e, com a liberalização, um regime gaulitano com uma União Portuguesa. Fique o tempo que for preciso na Guiné. Spínola é um espertalhão. Faça o check-up, como se diz. Saberá ele ao menos o que quer? De resto, ligado pela mulher à siderurgia nacional e à CUF, julgo-o respeitador do capital, quando vai ter que o domar antes de mais. Desta vez eu estava inteiramente de acordo, mas desejoso também de me ficar por ali. Pragmático por temperamento, iria a realidade por si só decidir a minha maneira de agir? Não queria sucumbir por minha vez à mentalidade mágica e à conjuração deles contra a verdade, que não para de discorrer sobre operações possíveis. Liebig esquecia que em Fátima são mais os que morrem que os que são curados. Eu nunca pretendi saber o que é a verdade. Puxou-me para me beijar nas duas faces. Tinha dito tudo. E, em voz baixa: «Nós temos vinte por cento de probabilidade do nosso lado... É muito para um homem de direita que teve mau olhado ao nascer.»
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NA GUINÉ-BISSAU
— Bem vê, Bissau é a província.
— E a NATO, meu capitão?...
Ele reagiu. Já não era o oficial da acção psicológica de justificações pobres.
— O continente americano é uma imensidade de medíocres e, por osmose, esses tipos contaminaram a Europa. Têm um coração grande como um melão, mas, fora a CIA e as suas armas sofisticadas, que podem eles oferecer?... Pronto, da actualidade, falamos amanhã.
A hora não tinha cor e eu já não tinha nenhuma palavra. O que não impediu que Otelo me fizesse sair do meu quarto em direcção a pistas bem reais, onde nos esperava um Dornier. A estrada — eu reconhecia-a — desenrolava-se em sentido inverso, com as palhotas, os primeiros peões, a poeira, as ervas, uma daquelas manhãs de Verão, o azul à hora da bruma, e os morcegos pendurados nas árvores como presuntos. O cockpit fechou-se sobre nós. Quantas desvios em direcção às nuvens, a massa da floresta. Mas mais longe...
Rebentado, a morrer, o soldado pedia sombra e estava à sombra. Tendo deixado Bula para armar a emboscada, tínhamos sido surpreendidos pela guerrilha. E ninguém, nem mesmo Otelo abrigado como eu atrás duma árvore, podia dizer quanto tempo ia durar o tiroteio. Dois dos nossos rapazes estavam arrumados. E Otelo, no seu walkie-talkie, cuspinhava para os helicópteros. Podíamos estar no Paraíso, em plena natureza, na natureza. Trocavam-se granadas. E agora, do lado da sombra e por toda a parte, que admirável silenciamento: «Penso que vou voltar.» Rimbaud, de Carnac, 24 de Abril de 1879. Tínhamos encolhido, absorvidos pelo medo, acocorados em nós mesmos, a sombra da realidade do grito continuando a arrastar-se pelos rebentos, cada instante da trégua mais temível, mais transparente, cada dia anterior uma delícia, o coração numa roda viva. E Otelo, igual a si mesmo, a sussurrar para dentro da sua máquina, concentrado, seguro de si, predestinado, o domador que não precisa de morrer para jurar que a morte existe. As ondas tinham acabado por apanhar o quartel--general, porque daqueles lados um cristal pedia a nossa posição. Que desperdício de tempo! pensava eu. Que desvio! O desvio pelo céu donde caíam a pique dois helicópteros. Num deles aterrava Spínola e a sua gente. Dispersos, desirmanados, nós saíamos dos nossos covis, e ele avançava pelo carreiro, monoculado, stickado, camuflado de seda, boina à rabo de lagosta, botas macias, o Antigo Regime, marechal de Saxe, o porte. Eu acrescentaria, o monóculo bem pode ser alemão, a impressão é toda ela italiana, roupa fina. Quatro tenentes, seus ajudantes, enquadravam-no, oficiais de cavalaria, Santarém, alto lugar das cavalgadas, bonitões um pouco crispados, incomodados com as esporas. Nós parecíamos uns coitados, cabelos colados, estupefactos, velhos telespectadores. Ele vem em nossa direcção, passo a passo, acariciando o mato com a ponta do pingalim, luvas de pele de borrego separando o brilho do chicote do brilho do monóculo. Depois, a sua voz chega até mim, suave, papal.

Aperta as mãos. Eu ouço: «... Levem os feridos para os helicópteros e recuem com ordem. Cabral vai pagar caro...» Está a dois metros. Não me dirige um único olhar. O seu olho de galinha constata apenas que eu estou ao pé de Otelo. Mas bastara a sua presença para restabelecer o moral; desencolhemo-nos, sacudimos o pó. Já o morto fora evacuado, enrolado num pano, e os dois feridos em macas. Quando, de repente, Zum! Pam! Pum! O PAIGC voltou à bazuca. E éramos todos a mergulhar. Pum! Pum! Ele, Spínola, nada! Nem um milímetro. Outra rajada. Aço puro. Os ramos em pedaços voam. Spínola só faz psst-psst, contempla com ironia os montes que nós formamos nas ervas. Está sozinho, apresenta-se de perfil, nariz adunco, e um movimento de rotação da esquerda para a direita em direção a Otelo. O modelo toma posições, procura um sinal do pintor. Caberá bem no quadro? «Bem, bem, está bem?» parece ele dizer! Então Otelo lança-se e, galante, pega-lhe na mão, obriga-o a dobrar um joelho. «Assim, sim, muito bem, meu general!» A floresta inicia-se no espiritismo! Tudo aquilo era bizarro e o agravamento das contradições entre o artista e o modelo, um e outro solidários apenas na coragem, o cavaleiro e os plebeus no seu número socialista, nacional-socialista, eu sei do que falo.

(continua...)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O MISTÉRIO CAMARATE

Uma denúncia de facto explosiva: Fernando Farinha Simões falou numa «conexão» envolvendo a CIA, a secreta francesa, traficantes de armas, Henry Kissinger, Oliver North,Frank Carlucci, conselheiros da Revolução, o Grupo Bilderberg  e …Pinto Balsemão, que terá tido conhecimento atempado de que o atentado estaria a ser perpetrado e nada fez para o evitar.

A confissão espontânea (?) de Fernando Farinha Simões fora obtida na prisão de Vale de Judeus  onde cumpre seis anos e meio de prisão por agressões, ameaças à jornalista e sequestro da apresentadora da TV, Margarida Marante, com quem manteve uma atribulada relação. O texto da contrição foi passado ao amigo de longa data que o foi visitar, José Esteves, bombista confesso, bruxo nas horas vagas, ex activista dos CODECO no Verão Quente de 75, antigo guarda costas de Freitas do Amaral, «and so on», que numa entrevista à extinta revista «Focus«, chegou também ele a confessar a autoria do atentado que vitimou Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. 

Ele e o comparsa, que há vários anos tentam procurar dividendos – estranhamente, sem serem incomodados pela justiça e pelas várias comissões de inquérito parlamentares, da autoria da morte do antigo primeiro ministro e do ministro da Defesa que viajavam com as mulheres no Cessna que se  despenhou em Camarate em 1980 –  não são pessoas de fiar, se bem que ambos se tenham relacionado com o que há de pior na escória do intriguismo político à escala global, da espionagem, do tráfico de armas, sendo esta a causa provável apontada  para a eliminação de Adelino Amaro da Costa e Sá Carneiro por «ordem» de um complot que envolveu a CIA, Frank Carlucci, Henry Kissinger, Oliver North, conselheiros da Revolução portugueses e oficiais generais então no activo, sendo também referenciado…Francisco Pinto Balsemão, a quem Fernando Farinha Simões denuncia de ter tido conhecimento com antecedência do atentado por via dos seus amigos no Grupo Bilderberg, que decidiu que após afastar o então líder do PSD (pois este era pouco susceptível a aliciamentos) iria assumir a chefia do Governo.


ESTEVES JÁ DENUNCIARA TENTATIVA DE ALICIAMENTO

Sublinhe-se, a propósito, que em Abril de 1995, quando José Esteves foi testemunhar perante a V Comissão de Camarate, afirmou que fora aliciado com 80 mil contos – 400 mil euros em números actuais – para incriminar o general Ramalho Eanes. De acordo com o suspeito, a oferta terá sido feita pelo seu antigo patrão, Francisco Pessoa, que afirmou estar a agir em nome de um grupo de pessoas que incluía o cartoonista e principal defensor da tese de atentado, Augusto Cid. À saída da audiência, e numa atitude até então inédita, visto que a comissão funcionava à porta fechada e estava obrigada ao segredo de Justiça, Augusto Cid anunciou aos jornalistas que iria processar José Esteves, tendo acrescentado que, por terem sido ainda mencionados os nomes de Francisco Pinto Balsemão e Freitas do Amaral como sendo amigos de Francisco Pessoa, estes estariam igualmente na lista dos suspeitos da tentativa de aliciamento a José Esteves. O advogado de José Esteves, Rui Santana, esclareceu depois os jornalista que eram falsas as declarações de Augusto Cid, pois o seu cliente nunca dissera que o ex-primeiro-ministro Pinto Balsemão e o ex-ministro da Defesa, Freitas do Amaral, constariam do grupo que o tentara aliciar. Mais tarde, durante as investigações da TVI, foram revelados documentos de movimentos bancários de José Esteves, através de uma conta sua em Espanha, onde teria cerca de 60 mil contos – 300 mil euros. Para além desta violação do sigilo bancário, a TVI revelou ainda, em notícia de abertura do “Novo Jornal”, os passaportes angolanos e portugueses de José Esteves e mostrou documentos de identificação para circulação no aeroporto de Lisboa, em 1990, altura em que José Esteves poderia ter tido acesso directo ao local onde estavam depositados os destroços do Cessna de Camarate.»

mais recentemente em Lisboa, Sô Zé (José esteves) 
e Fernando Simões, 'atentando' contra uma sapateira


Agora, nova peripécia surge neste caso Camarate, quando, estranhamente, o link que O Crimedigoeu  publicou onde constava essa confissão de Fernando Farinha Simões foi apagado por José Esteves. Por que o fez, ele que se mostrara tão exuberante em denunciar o complot montado para assassinar Sá Carneiro?  E logo coincidindo com a data de entrada em funções de uma nova Comissão de Inquérito, que deverá iniciar a sua actividade no próximo mês de Setembro, ele que também se mostrara tão disponível em prestar depoimentos à mesma? Estranho, muito estranho…


A CONFISSÃO NA INTEGRA

Embora o vídeo ainda possa ser encontrado na net, não no youtube onde surgiu pela primeira vez pela mão de José Esteves, voltamos a publicar na íntegra o seu conteúdo :

1. Eu, Fernando Farinha Simões, decidi ?nalmente, em 2011, contar toda a verdade  sobre Camarate

No passado nunca contei toda a operação de Camarate, pois estando a correr o processo judicial, poderia ser preso e condenado. Também porque durante 25 anos não podia falar, por estar obrigado ao sigilo por parte da CIA, mas esta situação mudou agora, ao que acresce o facto da CIA me ter abandonado completamente desde 1989. Finalmente decidi falar por obrigação de consciência.

2. Fiz o meu primeiro depoimento sobre Camarate, na Comissão de Inquérito Parlamentar, em 1995. Mais tarde prestei alguns depoimentos em que fui acrescentando factos e informações. Cheguei a prestar declarações para um programa da SIC, organizado por

3. Emílio Rangel, que não chegou contudo a ir para o ar. Em todas essas declarações públicas contei factos sobre o atentado de Camarate, que nunca foram desmentidos, apesar dos nomes que citei e da gravidade dos factos que referi. Em todos esses relatos, eu desmenti a tese oficial do acidente, defendida pela Polícia Judiciária e pela Procuradoria Geral da Republica. Numa tive dúvidas de que as Comissões de Inquérito Parlamentares estavam no caminho certo, pois Camarate foi um atentado. Devo também dizer que tendo eu falado de factos sobre camarate tão graves.e do envolvimento de certas pessoas nesses factos, sempre me surpreendeu que essas pessoas tenham preferido o silêncio. Estão neste caso o Tenente Coronel Lencastre Bernardo ou o Major Canto e Castro. Se se sentissem ofendidos pelas minhas declarações, teria sido lógico que tivessem reagido. Quanto a mim, este seu silêncio só pode significar que, tendo noção do que fizeram, consideraram que quanto menos se falar no assunto, melhor.

4. Nessas declarações que fiz, desde 1995, fui relatando, sucessivamente, apenas parte dos factos ocorridos, sem nunca ter feito a narração completa dos acontecimentos. Estavamos ainda relativamente próximos dos aconntecimentos e não quis portanto revelar todos os pormenores, nem todas as pessoas envolvidas nesta operação. Contudo, após terem passado mais de 30 anos sobre os factos, entendi que todos os portugueses tinham o direito de conhecer o que verdadeiramente sucedeu em Camarate. Não quero contudo deixar de referir que hoje estou profundamente arrependido  de ter participado nesta operação, não apenas pelas pessoas que aí morreram, e cuja qualidade humana só mais tarde tive ocasião de conhecer, como do prejuízo que constituiu, para o futuro do país, o desaparecimento dessas pessoas. Naquela altura contudo, camarate era apenas mais uma operação em que participava, pelo que não medi as consequências. Peço por isso desculpa aos familiares das vítimas, e aos Portugueses em geral, pelas consequências da operação em que participei.

5. Gostaria assim de voltar atrás no tempo, para explicar como acabei por me envolver nesta operação. Em 1974 conheci, na África do Sul, a agente dupla alemã, Uta Gerveck, que trabalhava para a BND (Bundesnachristendienst) – Serviços de Inteligência Alemães Ocidentais, e ao mesmo tempo para a Stassi. A cobertura legal de Uta Gerveck é feita atravez do conselho mundial das Igrejas (uma espécie de ONG), e é através dessa fachada que viaja praticamente pelo Mundo todo, trabalhando ao mesmo tempo para a BND e para a Stassi. Fez um livro em alemão que me dedicou, e que ainda tenho, sobre a luta de liberdade do PAIGC na Guiné Bissau. O meu trabalho com a Stassi veio contudo a verificar-se posteriormente, quando estava já a trabalhar para a CIA. A minha in?ltração na Stassi dá-se por convite da Uta Gerveck, em l976, com a concordância da CIA, pois isso interessava-lhes muito.

6. Úta Gerveck apresenta-me, em 1978, em Berlim Leste, a Marcus Wolf, então Director da Stassi. Fui para esse efeito então clandestinamente a Berlim Leste, com um passaporte espanhol, que me foi fornecido por Úta Gerveck. 0 meu trabalho de infiltração na Stassi consistiu na elaboração de relatórios pormenorizados acerta das “toupeiras” infiltradas na Alemanha Ocidental pela Stassi. Que actuavam nomeadamente junto de Helmut Khol, Helmut Schmidt e de Hans Jurgen Wischewski. Hans Jurgen Wischewski era o responsável pelas relações e contactos entre a Alemanha Ocidental e de Leste, sendo Presidente da Associação Alemã de Coopenção e Desenvolvimento (ajuda ao terceiro Mundo), e também ia às reuniões do Grupo Bilderberg. Viabilizou também muitas operações clandestinas, nos anos 70 e 80. de ajuda a gupos de libertação, a partir da Alemanha Ocidental. Estive também na Academia da Stassi, várias vezes, em Postdan – Eiche.

7. Relativamente ao relatodos factos, gostaria de começar por referir que tenho contactos, desde 1970, em Angola, com um agente da CIA, que é o jornalista e apresentador de televisão Paulo Cardoso (já falecido). Conheci Paulo Cardoso em Angola com quem trabalhei na TVA – Televisão de Angola na altura.

8. Em 1975, formei em Portugal, os CODECO com José Esteves, Vasco Montez, Carlos Miranda e Jorge Gago (já falecido). Esta organização pretendia, defender, em Portugal, se necessário por via de guerrilha, os valores do Mundo Ocidental.

9. Atrav´s de Paulo Cardoso sou apresentado, em 1975, no Hotel Sheraton, em Lisboa, a um agente da CIA, antena, (recolha de informações), chamado Philip Snell. Falei então durante algum tempo com Philip Snell. O Paulo Cardoso estava então a viver no Hotel Sheraton. Passados poucos dias, Philip Snell, diz-me para ir levantar, gratuitamente, um bilhete de avião, de Lisboa para Londres,  a uma agência de viagens na Av. de Ceuta, que trabalhava para a embaixada dos EUA. Fui então a uma reunião em Londres, onde encontrei um amigo antigo, Gary Van Dyk, da África do Sul, que colaborava com a CIA. Fui então entrevistado pelo chefe da estação da CIA para a Europa, que se chamava John Logan. Gary Van Dyk, defendeu nessa reunião, a minha entrada para a CIA, dizendo que me conhecia bem de Angola, e que eu trabalhava com eficiência. Comecei então a trabalhar para a CIA, tendo também para esse efeito pesado o facto de ter anteriormente colaborado com a NISS – National Intelligence Security Service ( Agência Sul Africana de Informações). Gary Van Dyk era o antena, em Londres, do DONS – Department Operational of National Security ( Sul Africana ).