quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O QUINTO IMPÉRIO, de Dominique de Roux. No 25 de Abril. excertos

O indicativo militar é Oscar. O cravo e as varandas florescem. A burguesia, persianas corridas, já não ousando tocar no telefone, agora que os outros escutam, faz as malas. A populaça, essa, começa a reclamar Caco Baldé*, Patrão Monóculo, o general António Spínola. Julga-o um Júpiter, e ele julga-se Dom Henrique. Com ele, nunca mais precisamos de trabalhar. 

Ora, ele não sabe nada. Chegou mesmo a esta idade sem pensar em nada, só servindo para escorregar nas cascas de banana, antagonizando as pessoas que estão por ele, sem ganhar vozes do lado oposto. Tal como Kaúlza de Arriaga, só podia mudar a República no Antigo Regime. Mal apanha o combóio do 25 de Abril em andamento, Spínola afasta Arriaga, que considera um fascista. Como dantes, tomará o poder sozinho com uma revolução de palácio. «As coisas não correm nos campos tal como são ordenadas nos gabinetes.» Quais são as suas margens de manobra? Que pode ele caucionar que logo não escape à sua acção? Clausewitz, por exemplo, tinha um princípio geral: conquistar a opinião pública. Entretanto, a rua descobriu uma canção: O povo unido jamais será vencido. O eterno mal-entendido! 

Os portugueses nunca descobriram nada, senão a Índia no século XVI. Sem endereços e todos com o mesmo nome, obedecendo a dois ou três pequenos princípios, entre os quais o de inventarem títulos, sentimentais, jogadores de futebol, correndo à janela quando passa uma ambulância, inscritos em clubes de orfeão, de harmónica e contando histórias por não as viverem eles mesmos. Só compreendem pois as coisas portuguesas, pouco manipuláveis do exterior, mas invejosos, e sempre à procura de lucros. A última palavra de Os Lusiadas é inveja. 

A arrogância do PC, estes ideólogos estrangeiros que desembarcam e pronunciam outras palavras com outras ideias, o auditor desconfia deles. O pobre major Vítor Alves alarma-se, atraído como os seus camaradas pelo vazio ideológico: «O 25 de Abril foi obra de alguns militares, somente a aceleração da história atordoa-nos um pouco, é natural.» 

Ninguém se preocupa com o Presidente da República, Américo Thomaz, garante da Constituição. Abandonaram-no na sua vivenda do Restelo, entre a mulher e a filha. Desde então, não parou de dormir no exílio — Presidente da República do Hotel Miramar, no Rio, à custa da comunidade portuguesa do Brasil. «O que está comprimido deve ser descomprimido», a fórmula há pouco célebre do marcelismo é retomada por Spínola que, tendo feito causa comum com os facciosos, vem em pessoa explicar-se ao seu ex-Presidente do Conselho: não foi ele! Não foi ele quem desencadeou o processo da acção em curso, apenas aceitou chefiar o movimento. Assim o poder não cairá na rua. O fim terá respeitado as velhas regras de etiqueta.

O General, no corredor no corredor, espera que o seu antigo Primeiro-Ministro e cúmplice lhe dê ordem para entrar e lhe entregue a sua demissão. 
Pouco depois... 

Na madrugada do 26 de Abril, na televisão, Spínola apresenta a Junta de Salvação Nacional e lê um discurso que não é dele, contrário aos seus princípios. Tem uma cabeça esquisita: a nuca enche o écran. Cyrano? Cada qual tem o nariz que merece! A opinião da ONU é a sua obsessão. Tudo é preferível a estar em desacordo com a opinião internacional, como se essa opinião existisse em si, enquanto, flutuante e fabricada, ela representa o despeito e a manigância. Spínola aceita os cravos, as honras e os louvores, sem perceber que os mais maliciosos o insultam por antí-frase. Nele desapareceu toda a vigilância. Diz sim a tudo e sobretudo ao inaceitável, sinal de que isto o ultra-passa, e mesmo àquilo a que devia dizer não. Julga que os seus desejos, que já não têm a força de ordens, terão efeito no dia seguinte. 

Ora, Álvaro Cunhal, que ele se apressou a chamar do exílio, e que julga abertamente que aquilo não é um regime mas uma situação, mina o que lhe resta de prestígio. Na noite de 26-27, Patrão Monóculo já não controla a informação, nem os postos-chave. Costa Gomes está por trás dele, tranquilizando-o, mascarado pela sua hipocrisia. Esconde-lhe que trabalha na radicalização do MFA, em seu proveito. A hidra Costa Gomes, e que hidra!, à falta de contar as cabeças, pesa a papada. 

Para ele o 25 de Abril chegava treze anos tarde demais. Com efeito, a 13 de Abril de 1961, ao meio-dia, Salazar, avisado a tempo pelo general Câmara Pina de que o iam prender em plena sessão do Conselho, destituia o seu ministro da Defesa, o general Botelho Moniz. O inquérito mostrou que o regime estava roído por dentro, deixava entrar água. Entre os suspeitos, citava-se Craveiro Lopes, antigo Presidente da República, Marcelo Caetano e o tenente-coronel Costa Gomes, instigador da conspiração inteira, dizia-se. Kaúlza pedira sanções mas Salazar, gasto, já só estava em medida de querer uma coisa: durar. No entanto, Costa Gomes soube desenvolver a sua astúcia para apagar o rasto e agir de outro modo.

A reaparição de Costa Gomes ao lado dum Caetano já não conjurado mas Primeiro-Ministro, ia ter consequências imprevisíveis. Insidiosamente, aquele a quem os íntimos chamam Chico, empenha-se em semear a dúvida, orquestrar a lisonja à volta de Marcelo, tendo o cuidado de mudar muitas vezes de opinião e não aceitando conselhos de ninguém, incitando ao derrotismo. À menor resistência, esquiva-se; mas em caso de sucesso, aquiesce, visto que um homem não conspira sozinho. Trava de propósito a evolução do Ultramar, ajudando ao mesmo tempo Melo Antunes a enganar o exército e a fazer-se amar, senão temer. 

Portugal tem que sair dos seus gonzos e que importa que volte às suas origens ibéricas, desde que a Africa seja libertada? Ninguém jamais saberá que interesses representa o Chico! Estados Unidos, URSS? A sua ambição? O Santo Sepulcro? Entretanto, vai chupando o sangue de Caetano, travando o avanço de Spínola, acelerando a destruição e, parodiando, «vê o fim de Portugal traçado no mapa» ; um mapa onde, como chefe de Estado-Maior General, se compraz a indicar a lápis vermelho as vitórias portuguesas em Africa. Estimado no poder, Chico tem um único inimigo em potência, o seu camarada Spínola, o popular governador da Guiné. Em vez de o contrariar, favorece-o, até que Spínola, no Verão de 1971, revele a Marcelo Caetano, aquando duma estadia no Buçaco, a sua estratégia no terreno onde o PAIGC está militarmente derrotado por um corpo expedicionário bem dirigido mas exangue. 

O general pleita com uma tal competência que Caetano lhe pede um relatório que irá examinar antes de dar uma resposta. 1 o Projecto Cabral-Spínola que, após ter sido rejeitado oficialmente, empolado de ideias elementares, se tornará Portugal e o Futuro. No entanto, Cabral tinha aberto mão, aderido aos pontos fundamentais do projecto: 1.° — Manutenção de Spínola no cargo de governador da Guiné até à emancipação do país; 2.° — Fusão dos combatentes do PAIGC e dos comandos africanos; 3.° — Nomeação de dois secretários-gerais, sendo um Amílcar Cabral e o outro um representante do governo português; 4.° — Referendo para decidir o estatuto político, independência total ou laços federativos com a metrópole. Há muito tempo que Cabral tinha contactos com um correspondente de Spínola em Londres: ZCZC EFLO23 PLB 976 56 FI 42-2 G 4B C° SGD — 029 ZIGUINCHOR. 29.14.1130 ROYAL Hospital Nursing Home Room 228 Gray Inn Road. WC I Londres. «Prazo indicado muito curto encontro possível se indicar nova data permitindo organizaçao viagem Stop. Saudações. CABRAL.» Um pouco mais tarde, a 15 de Novembro de 1972, o irmão envia um novo telegrama: «Estamos atrasados. Pedimos transferir encontro sem falta 20 Novembro corrente. Saudações. LUIZ CABRAL.» 

Era fácil a Costa Gomes recomendar prudência a um Primeiro-Ministro, a surpresa torna-o tanto mais irresoluto. Não podia o projecto Spínola-Cabral, observa perfidamente o seu conselheiro, ter repercussões catastróficas no resto da África portuguesa? Convencido, Caetano recusará o encontro com Senghor na cimeira. Donde as consequências conhecidas: assassinato de Amilcar, nascimento de um movimento de contestação militar na Guiné. Falta neutralizar Spínola. 

Chico desembarca em Bissau com uma nova táctica imposta, diz ele, por Caetano: cessão das posições avançadas ao inimigo e recuo dos portugueses para as cidades. Era dar a iniciativa ao PAIGC, que trará armamento pesado, cercará os aquartelamentos, proclamará, de pleno direito, que controla metade do país. Spínola demite-se, substituído pelo general Bettencourt Rodrigues que vai ter que acomodar-se com uma situação podre. Caetano tenta reconfortar Spínola com honras e aliá-lo oferecendo-lhe o ministério do Ultramar. Costa Gomes percebe o perigo. Quem controla o Ultramar controla o exército. Chico faz então com que Marcelo compreenda que há incompatibilidade entre um con-servador como o ministro Silva Cunha e o libertador Spínola. Propõe, para salvar as aparências, a criação dum posto de vice-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. Spínola cai na ratoeira, persuadido por seu lado que vai poder manobrar Caetano por dentro. 

O desgraçado não adivinha, na sua candura, que aquele que tem como o seu companheiro de armas o obriga assim a conspirar às claras. O ano de 1974 começa num clima de crise. Gomes-Chico aconselha Caetano, Gomes-Judas beija Spínola. Um pouco mais tarde, manda apresentar a Caetano e a Spínola o Programa do MFA n.° 1. E no próprio dia 25 de Abril, encarrega Otelo de remeter a Spínola, que se tornara, graças às circunstâncias e ao seu prestígio, a autoridade suprema, o Programa n.° 2 que, surpresa!, prevê a nomeação de Costa Gomes para a presidência da República e a de Spínola para chefe de Estado-Maior dos exércitos. 

Chico tinha-se convencido de que o seu camarada, apanhado na tormenta, ratificaria as suas decisões. Bem entendido, ele recusa-se. E, intrujado pelos capitães, indigna-se e procura juntar-se a Costa Gomes, mais próximo que ele dos oficiais subalternos, a fim de que ele os castigasse em consequência. Mas Chico desapareceu. Circunspecto, sem saber para onde iam virar as coisas, ele e a família inteira tinham ido refugiar-se há dez dias no Hospital militar. 

Otelo, Vasco, Melo Antunes, a sua equipa, saberão calar-se até estarem nos comandos na noite de 27 de Abril. Por uma vez, Spínola tem a última palavra, mas, rancoroso, quererá vingar-se destes gaiatos que o enganaram. Ignora que os meios de que se vai servir causarão a sua queda e aproveitarão àquele que ele não soube desmascarar.

Na Cova da Moura, sede do Estado-Maior e da Junta, Otelo, já alcunhado o brincadeiro antes de ser o «brigadeiro», deleita-se e relata-se, tendo a astúcia de se dizer socialista. Não confessa nenhuma ambição pessoal, apenas uma ambição de equipa. Consumido pela ideologia, mas sem saber qual. Lê os jornais e só acredita nos jornais. Nenhuma capacidade de resistência, permeável a tudo, pretende obter a pele dos ministros, mas sem saber como. 

O perigo é, segundo ele, o 1.° de Maio que se avizinha, a Festa dos trabalhadores. Tudo se fez de improviso e assim deve continuar. Cunhal e Soares? Só polí-ticos! Repete aos jornalistas: «... Eu fui simplesmente o cérebro desta Revolução. A origem do Movimento remonta a Julho de 1973. Por decreto, a duração da escola superior de guerra era reduzida de quatro a um ano, fazendo de nós oficiais atamancados, condenados aos cursos da noite... 

«Na véspera do pronunciamento, eu monto o meu quartel-general no quartel do génio da Pontinha. Tinha aí amigos certos e nós precisávamos de blindados. Os comandantes de unidade foram prevenidos duas horas antes, e o simples soldado ignorava tudo,pois às 0h45 eu já só tive que manobrar, de Lamego a Faro, um pequeno exército de cinco mil homens, dos quais três mil conver-giram em Lisboa, ocupada duas horas depois. «O general Spínola, esse, não tinha sido posto ao corrente. Até ao 25 de Abril, ele estava até afastado do nosso movimento, logo da Revolução. Mas como nós tínhamos que pensar, em caso de êxito, num programa político, lembrámo-nos naturalmente dele. Não queríamos que o poder caísse na rua. 

Hoje, Spínola está identificado com o MFA. Nada nos fará desviar do nosso programa em Portugal e em África, a paz e a autodeterminação em África, mesmo que tivessemos que lutar para o impor à Frelimo e ao PAIGC...» Ao lado dele, friorento, embrulhado num cobertor, o capitão Varela Gomes, escapado do Golpe de Beja, quatro anos de prisão, seis balas na barriga, a série negra, discute com Oscar, enfim presente aos olhares e sob o seu verdadeiro nome, o coronel Vasco Gonçalves, última expressão moderna do ateísmo místico. Tentem falar em razão a um inspirado que pretende fazer tábua rasa para que nasça o homem, novo! Todos os cortejos organizados por Hitler ou Estaline estavam cheios de homens deste género. Nunca se saberá quando é que o coronel Vasco Gonçalves, hebefrénio notório, entrou na antecâmara da esquizofrenia, Marat epiléptico menos os furúnculos. 

A Marinha, que ainda não arriscou nada, alia-se discretamente aos seus fusos, os «fuzileiros» com as fitas de Kronstadt. A pouco e pouco, todos os fragateiros se promovem a almirantes: Pinheiro de Azevedo, quando alguma palavra lhe chega a sair da boca, é um Jean Bart. À multidão que lhe reclama um discurso, ele urra: Vão bardamerda!, relatado cada vez com variantes devido ao seu cunho popular. Rosa Coutinho, muito Nuremberg, a careca do forçado das galés, esse a quem a FNLA tinha inflingido as piores ofensas condimentadas de piripiri, tem contas a ajustar com a Angola. Nada, excepto um apoio resoluto ao partido rival, o MPLA, poderá apagar o traumatismo que se junta à humilhação de ter sido resgatado como escravo pela bolsa de Salazar. MFA, sociedade anónima, está a postos. Não se conhecem todos os membros, Crespo, Martins, etc., émulos das repúblicas das bananas, descobrindo uma paixão pelos Mercedes e pelo povo, as Batatas. — Otelo, qual é o seu herói? — Hitler! (Um momento de reflexão.) E Nerú... ! Teria ao menos querido dizer Nero? É adulado. Representa com a bilheteira fechada todas as noites. 

A agonia de Spínola prolonga-se no meio das alegrias do esquadrão. O feld-maréchal toma consciência de que o seu livro, que sempre teve um estatuto de inexistência, contribuiu para mergulhar o seu país na barafunda. Adeus federalismo e lusitanidade! 

De memória de Terceiro Mundo, nunca se vira um ministro dos Negócios Estrangeiros atamancar como Soares uma política de descolonização, liquidando tudo para embelezar a sua reputação de socialista. Nem sequer negoceia com os antigos adversários, anuncia-lhes previamente que têm razão. Julgado severamente por Samora Machel da Frelimo, dá por finda a sessão e corre a abraçá-lo. Para a Guiné, as coisas aceleram-se. Manda-os para Londres para casa do amigo Wilson que, precisamente, faz fogo na Irlanda contra os seus próprios terroristas. Spínola, magoado, humilhado, não deixa de avalisar os estragos do chefe socialista que, descobrindo tarde demais que o seu laxismo desonra o porta-voz duma nação, irá disparatar com o tom da evidência, ao mesmo tempo do lado dum socialismo árabe e do lado dos israelitas. Abjecção da diplomacia do MFA, o major Melo Antunes, tomado a Eminência Parda do Conselho da Revolução, qualifica a descolonização como 'o maior feito dos portugueses desde as Descobertas'.

Spínola está de asa caída. Não chega aos calcanhares do Primeiro-Ministro de Singapura, déspota esclarecido, que, entre a construção de dois prédios económicos, pergunta a si mesmo: tomarão os comunistas o poder para o ano que vem? Na cabeça de Spínola, uma ideia fixa, como desembaraçar-se do MFA? O seu maquiavelismo abre brechas. Nomeia Palma Carlos Primeiro-Ministro pela dupla recomendação do socialismo e da maçonaria, sendo este tributário dum coração de pilhas e podendo sucumbir a uma emoção. Este santo homem de grande calibre não tinha grande alcance. Cada hora que passa tira crédito ao seu governo, diminui a confiança do Presidente em si mesmo, confi-nado no serralho de Belém, a tal ponto que entre ele e o seu predecessor, Américo Thomaz, se anula a diferença.

O capital preferiu pôr-se a andar. Acampam na Europa, no Brasil, os Champalimaud, Pinto Magalhães, Borges e Cia., família Mello, ITT, CUF, General Time and Rubber, Walter Moreira Sales. Eles não mudaram: Vendem milhões de marcos alemães, dólares, rupias. Com uma simples chamada telefónica, a especulação ganha. O capital foge, paga a matadores e volta quando a estrada está livre, o país governado por um regime acomodatício. O capital é a coisa mais sensível do mundo, dizem eles. A sua conduta é emocional, mas tem a pata do tigre, para lá da mentira, da traição, da desonra. Trata-se de ganhar com tudo e com o défice da nação. Todos os ricaços espreitam o dia do desabar do MFA, sonhando com Guatemala City, United Fruit em Lisboa, um comissário americano por empresa. As pessoas de dinheiro são ignóbeis, piores quando se sentem ameaçadas. Estonteiam-se com projectos vingadores, pagam a alguns pistoleros, sicários com desconto, querendo gastar o menos possível, habituados a corromper tudo a vil preço. 

A espanhola Vigo é promovida a capital mundial da porcelana da Companhia das índias. Os preços vão abaixo. O escudo angolano vende-se ao quintal, cotação do medo. Três pessoas são mortas, o dinheiro baixa. Rembrandt, Velazquez, Zurbaran descolam em avião particular de pistas secretas no Sul. Alguns Espírito Santos e um Brito são presos, mas a banca, a farmácia, o cimento e o aço, tudo embalado, móveis e títulos, arrebanharam para o exílio, até quilómetros de vedação. 

Canoniza-se o embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci: «Santo Carlucci, que mal fizemos nós a Deus? A Banca portuguesa era um Montepio, a Bolsa uma falsa Bolsa, as nossas acções, boas acções, as transferências ilegais, um costume entre cosmopolitas, os nossos dividendos, a caridade bem ordenada começa pelo próprio. Pensa nas nossas filhas, ó Santo, em Leonor, em Mafalda, em Fátima, elas são virgens. Se tu pudesses, ó Santíssimo, mandar os teus rifles contra estes vermelhos nojentos, estes porcos.» Oh, acorrei, floresta de Dunsinane! Para ouvir responder: You're very lucky, Gentlemen! 

E a Madeira reclama a independência. Há o RUMA no Funchal, o MAIA, a LAIMA, o MIJAM e mais recentemente o PDM e o ELAM, todos activos, organizações ditas fantoches pelos mesmos que acham normal entregar as ilhas de Cabo Verde ao PAIGC. Dizem que a CIA está no Corvo, mas que o KGB nunca esteve na ilha do Sal. Portugal já não passa duma província que, entre o pandemónio e as transacções clandestinas, grita o que perdeu. Tornar-se-á também ele um país como os outros? Em primeiro lugar, o que é uma revolução que acaba com os títulos e os galões do salazarismo para ainda mais se engalonar? 

Outrora, a peste, que penetrava pelo porto de Lisboa, era propagada pelos vendedores de tecidos: «Foi assim que morreu Brás por causa do casaco e que foi enterrado com ele.» O MFA faz viver os alfaiates em pé de guerra, mobi-lizados noite e dia. Pedem-lhes bordados, coisas brilhantes, tecidos e galões. É a quem conseguir duas, quatro estrelas. Mofa-se: o Hotelo tem quatro estrelas. Spínola que não deve, pensa ele, contas a ninguém, prepara-se para a dignidade do marechalato. Encomendou uma farda de gala, preta, mangas com torcidos, frente e bolsos regalonados, colarinho direito ornado de debrum vermelho, cinto preto de crocodilo com REPÚBLICA em letras douradas, calça de seda com banda amarela, meias botas de couro macio. Fechado neste estojo chapeado de ordens, pavoneia-se, excitado por receber os embaixadores comunistas de casaca, enquanto se vai remirando ao espelho. 

Quanto a Costa Gomes, não se conhece exactamente a origem do seu cinzento azulado que se aproxima do «cinzento solha», gravata branca e casaco traçado de duas filas de botões de oficial general em tecido da mesma cor, mangas em fio de prata, colarinhos bordados com um CG escarlate. Elegante, consciente disso, julgando-se irresistível, não se atreve. com medo da mulher. Por não poder mudar Portugal com um toque de varinha de condão, os capitães vivem à larga. O major Fabião — uma doença de nervos — deambula feito general castrista, mas o casaco verde-azeitona cai sobre uma calça de nanquim. Os ajudantes estão à coronel, de dólmans pretos, os novos brigadeiros trazem casacos azul ferrete, capa bordada com o recamo do posto. 

Entrou-se na era das intentonas * e das inventonas *, a descoberta das «presumíveis conspirações» que permitem as contra-conspirações. No Botequim, Natália Correia, só ela um partido, manda cantar a história que se anuncia: Cunhal juntando as suas mentiras à mentira que ele representa; Melo Antunes recusando o PC mas apoiando-se numa esquerda que vive à grande em Moscovo, e Otelo entre as mãos dos esquerdistas, que a direita manipula, convencido em dez minutos de qualquer coisa por qualquer pessoa, e mudando tantas vezes de opinião que os seus companheiros se perdem até ao momento em que o conflito ainda latente entre Vasco Gonçalves, o «ditador», e Melo Antunes, o «pensador», avança com o carro de enterros. Nos documentos internos do PCP, um leitmotiv: Otelo uma vez cai para um lado, outra vez para outro. 
CDE é uma mulher lá que a gente se diverte Diversos partidos, diversos Um só é uma mulher. 
E o famoso: 
M. R. Pum Pum Sejam chineses Já que os moscovitas São uns parasitas São uns trastes burgueses. 
Também lá se canta o romantismo socialista, Soares-o-doce, apaixonado pela sua estrela, um édredon. Mas quando Melo Antunes, na sua manobra anti-gon-çalvista, quer fazer de Fabião Primeiro-Ministro, certo de governar efectivamente por trás deste pateta, impossível encontrar o seu candidato nem no Estado-Maior, nem em casa. Após três dias, os infatigáveis obreiros da Resistência desencantam-no em casa dos sogros, afectado por uma «crise de vontade». De crer que Portugal foi inventado para a servidão, passando da ditadura à estupidez, da estupidez à ditadura, todos os regimes iguais, a quererem curar a doença pela morte. 

Enquanto Costa Gomes, «a rolha», taramela, inaudível, e Melo Antunes se julga um pensador para o futuro, o MFA, duzentos e quarenta membros, reúne con-clave durante trinta horas de enfiada, não sabendo o que fazer com a sua vitória, entascado num discurso mais que nunca socialo-pluralo-marxizante-delirante. O advérbio verdadeiramente está na moda: implantação ver-dadeiramente da democracia. E a aliança MFA-povo é Molière político. Georges Dandin ministro entrega-se aos seus descomedimentos. Cada vez que o ilustre Vasco Lourenço, que exercia ascendente sobre lOtelo, conseguia convencê-lo a não dizer mais asneiras, graças ao seu admirável e tão bom sorriso, era todavia preciso despachar Marques Júnior no encalço do chefe do COPCON para que o primeiro magala não o virasse de pantanas. 

Vasco Gonçalves nomeado Primeiro-Ministro, a última calinada de Spínola, tem a arte de enganar milhares de pessoas com o coração. Por uma cultura democrática popular patriótica científica e de massa. Com o companheiro, a revolução arma-se duma nova PIDE, a V Divisão, instrumento indispensável à ditadura gonçalvista. Ele baixa a cabeça sobre as folhas do seu texto para a malta. Levanta-a, vocaliza enquanto a malta se deleita ao vê-lo gingar no estrado e brandir os óculos. O povo, e mais o povo. O Povo. O Povo, e quando digo Povo... Não é só o Povo que vai trabalhar amanhã... Por Povo não entendemos... pretendendo exercer o Poder em nome do Povo... Quem havia de pensar que havia tantos povos. A palavra volta, na modulação oratória. O gladiador deste fascismo de fancaria enreda-se nas malhas da sua rede, os cravos levados no maelstrom de merda a ferver da dinamização cultural que anuncia. A primeira etapa, dizem os soviéticos a quem acabam de confiar todo o frete português. 

A Comissão de dinamização cultural, n.° 50, rua Castilho, é dirigida pelo comandante Pessoa Guerreiro: Maio de 1968, incorporado no MFA. Cada região militar tem que enviar os seus comandos aos sectores sociais mais atrasados. Mas, como esta tropa funciona com anfetaminas e soporíferos, os analfabetos que eles querem catequizar mandam-nos embora à pedrada. 

E, por toda a parte, Soares: de pijama, de gabardine, cada vez mais gordo, cada vez mais magro, inclinando-se diante de Kissinger, aos pés do dalai-lama, beijando o anel ao Papa, levando a mulher à Tunísia, onde se estão nas tintas para as mulheres. Soares em quarenta e cinco dias, da Zâmbia ao triângulo das Bermudas, por toda a parte onde pode dar com os costados e voltar enaltecido com um fracasso. A América é generosa nos seus cálculos. Pensa-se em Robespierre, em Lenine. Cometeram crimes, mas nenhum deles cedeu. Afinal, para quê condenar Soares a vinte anos de biblioteca romântica, obrigá-lo a recopiar dez vezes Donoso Cortés inteiro? Ele levanta voo. É um balão. Quando era pequeno, diziam-lhe, dando-lhe pancadinhas na nuca: «Mário, faz lá de balão!» 

 Otelo inaugura. Tem vários rostos, o esquerdista e o palidote. Escreve peças, sem nenhum erro de português, mas muitos arranjos muito concretos: «Ele coçou a cabeça com todos os dedos.» Agarrou no ar algumas noções políticas: 1. Os socialistas no poder, é contra os americanos; 2. A censura, quando é exercida pelo PC, é vigilância no interesse dos trabalhadores. Um jornalista alemão estafa-se a dar-lhe todas as noites aulas de economia, mas ele não deixa de preconizar o anarquismo com, como em Fourier, um mar de limonada. Lê, lê, para ter uma opinião, ao acaso dos manuais, despistando-se no guévarismo, o maoísmo, o populismo, liga-dos a temas socialistas confusos, fascismo à portuguesa com a revolução permanente e a longa estrada rectilínea, daquilo a que Tomás Mann, falando do nazismo, chamava «a embriaguez das férias perpétuas do Eu.» 

Fabião, feito general, alimentado como os demais no barril caetanista, arrasta o seu socialismo de incapaz e o seu arcaboiço de Ilha da Páscoa, no meio dos sovietes que sonham rachar o bronze de Henrique o Navegador. Não passa, dizem eles, dum pequeno corsário, bacalhoeiro da CIA, o infamante Dom Henrique. 

O exército inteiro já não é mais que um agregado de FUR, SUV, amotinados da marinha que fazem comícios entre as brigadas do MLM e dos intelectuais que, para encurtar razões, reclamam alto à democracia. Já não se sabe quem é quem, o grande xamã, daroeses gira-dores, soldados de fancaria vestidos na feira da Ladra, e os místicos tipo Benares caídos na marabutagem. A palingenesia deste curioso sincretismo: a «haitização» mundial. Acha-se o Camboja muito chique, os khmers vermelhos um ideal. Ao mesmo tempo, cabelos de Medeia, alaúdes e guitarras, canta-se: Eu deixei tudo por Marylin. Quem colocará o encefalograma? 

Vasco Gonçalves, apresentado pelos jornalistas como «uma boa cabeça, lento a decidir-se, mas seguro nos seus juízos e resoluto», desenfreia-se. Verdadeiro chefe, no estilo «mobilização total», engana agora Álvaro Cunhal que o tinha encarregado da «reestruturação político-revolucionária do MFA com vista à transformação da sociedade». Arenga um povo imaginário, protótipo, de que cada um dos portugueses constituiriam uma parcela, integrados no MFA, sol do mundo. Realizariam juntos a comunidade deste novo éden. Ultrapassa as filípicas do absurdo. Desnorteados, os seus ministros demitem-se, os seus camaradas abandonam-no e Otelo, sem saber como desembaraçar-se dele, imitando Salazar, aconselha-o com um cartão de visita a pôr-se ao fresco. Cunhal tomou distâncias, mas Costa Gomes hesita ainda em substituí-lo, embora seja obrigado a reconhecer que o povo já não segue. 

Só Rosa Coutinho agarra a ocasião da explosão do MFA para lançar a ideia dum MFA civil, uma outra maneira de prolongar com o PC o clube dos senhores. Melo Antunes, o render do pensador, o homem da grande prosa, que vai conseguir o despedimento de Vasco. O episódio conhecido junta-se às facécias dramático-históricas do 25 de Abril. Como Antunes precisa de um braço secular, escolhe Otelo, chefe do COPCON, a quem promete a presidência da República em troca da prisão de Costa Gomes, se este recusar desembaraçar-se do «Maluco». Costa Gomes percebeu que era tempo. O grupo dos Nove aflito vota então uma moção garantindo ao demitido «a confiança atenta e inquieta do Conselho da Revolução». Otelo: «Ainda não nasceu quem conheça o pensamento de Melo Antunes. Eu cá conheço-o.» 

* * *

Portugal é ao mesmo tempo a Europa e a não-Europa, o Extremo-Ocidente que termina a Europa voltando as costas aos seus problemas. Num texto curioso, Froissart lembra-nos que, estando em Bruges, ouve falar dum cavaleiro português de partida para um outro porto da Flandres. Corre a vê-lo, interroga-o. E é-lhe respondido que João I e o Condestável Nuno Álvares acabavam, de facto, de restabelecer uma nação que, logo de repente, se lançava no Mar Tenebroso, a descobrir o globo. Nessa altura, na Europa, os países-infantes guerreavam-se entre eles. Esta iniciativa vinha de longe. Três séculos antes, Cristo anunciara em sonhos a Dom Afonso Henriques que faria do seu reino o reino do mar. Reservava para Portugal a vocação de ser mais que ele mesmo, de se espandir não em conquistas, mas para transmitir ao mundo a sua mensagem universal, o Quinto Império. 

Eu escutava o rumor de Lisboa e já só ouvia a historiazinha. Via-a ocupada com os seus falsos símbolos depois de ter sido Spínola, depois MFA, depois MFA nenhum. 

Catarina não se tinha afastado do muro, onde, sentada, ela acabava de bordar, num bastidor com flores, um açor dourado planando por cima de nove estrelas em arco sobre fundo de azul e branco. «Sobretudo não me fale do 25 de Abril, das pinochadas do seu Otelo, da Revolução. Não houve revolução, palhaçada, restauração. Um novo almirante no poder dirá uma coisa qualquer e os outros responder-lhe-ão uma coisa qualquer! Daqui vai deduzir que eu sou fascista, mas eu sou bem anterior às ideologias, eu sou das origens... E amanhã os Açores! Não aconteceu nada. Quem sabe se, de ilha em ilha, Portugal não voltará para nós? Olhe a bandeira que eu estou a bordar, tem as cores do Espírito... Os militares, se é isso, pessoas que fazem a chuva e o bom tempo!»

Eu queria falar-lhe de Angola. Ia para lá. Savimbi, precisamente... 

Ela interveio: — Uma mulher apaixonada, o que é, François? Uma mulher que tem segredos. Conta-os ou não os conta. O meu segredo, vou revelar-lho hoje, é o de Portugal. Nós outros, nós todos esperamos alguma coisa, desde sempre. Já não se pode falar de esquerda ou de direita, mas de Leste e de Oeste. «Quanto maior for o desastre, irremediável, mais perto estará o Quinto Império. É a nossa promessa, a nossa ferida. Então, você sabe, François, a tarantela imbecil dos seus capitães, para nós, na verdade, vento! Todo este escândalo para voltar a nada. Entretanto, talvez o meu pequeno segredo traga uma conclusão provisória ao seu testemunho... provisório. Olhe para a minha bandeira amarela e azul, as nove estrelas de ouro que eu estou a bordar... Mas mais tarde, bem mais tarde... «... Por favor, François, acenda-me o cigarro.» Tinha-se posto a observar os anéis de fumo circunscrevendo outros anéis que formavam ilhas e esferas. Deste modo ou daquele, eles flutuavam sobre as águas misteriosas da Chegada e do Novo e desfaziam-se por cima da embocadura do Tejo que largamente mistura as suas idades mortas à solidão do mar. 
... sobre a solidão do mar. 

sábado, 17 de setembro de 2016

"Quinto Império", de Dominique de Roux, excertos - Portugal e o Futuro

As teses de Spínola nada têm de revolucionário: apenas uma Comunidade lusitana, de Lisboa a Timor, e a autodeterminação dos povos. Conceitos requentados, um apanhado de ideias gaullianas que o tempo tornou insossas, cozinhadas pelos tecnocratas da SEDES e outros europeus de carreira do clã do Expresso. Com vinte anos de atraso, os senhoritos da Rua Duque de Palmela, conservadores dum outro género, pálidas estrelas do céu marcelista, tinham enfim encontrado uma razão para se determinarem. Já que explicavam tudo enfiando frases umas nas outras, ei-los agora certos de que o liberalismo encontrou o seu campeão. Spínola, quando só era português, vá lá, mas quando se julga de Gaulle, é o vazio incomensurável, a diarreia multinacional ao sol do Porto. 

Esquecem-se que ele aprendeu a ler aos sessenta anos. As pessoas como ele não lêem nada (excepto o Reader's Digest). Estranho por profissão ao livro, fica tão surpreendido de ver um sob a sua assinatura que em vez de assimilar modestamente as reflexões dos outros, julga-se logo um pensador. Estilo nenhum. Fica cavaleiro gótico, Dona Maria. 

Para mais, ei-lo dependente dos seus conselheiros, que o espicaçam ao fornecer-lhe cópias em proporções sumérias. Apertado no seu crânio de simples militar, teria sido preciso acrescentar-lhe quatro andares para ser de Gaulle. Quando José Blanco lhe administra Hegel, a história do mundo é a justiça do mundo, sente vertigens. Recusa Da guerra, convencido que Clausewitz o plagia. Nietzsche atordoa-o. Engels confunde-o. Quando aborda Marx, corre a fechar-se em casa do irmão em Sintra onde cada habitante viu pelo menos uma vez na vida um disco voador. 

O Expresso, que leva Spínola às nuvens, será o primeiro a demoli-lo quando tiver encontrado melhor, o MFA. António Teimo, que ao menos, na sua província, em Borba, lia os ocultistas e Abellio, chega à conclusão que Spínola não devia ter assinado. Em torno de Portugal e o Futuro, dois clãs: o do general Francisco da Costa Gomes e dos seus capitães, e o do eterno dr. Joaquim Silva Cunha, ministro da Defesa, apoiado pelo Presidente da República, que, surpreendido com a repercussão da obra, reclama um comentário oficial: Esclarecer.

É sabido que o Movimento dos Capitães começou com uma história de promoções. E depois, o ressentimento dá que pensar. Sempre o encadeamento infinito das circunstâncias. Dos Puros (oficiais de carreira) aos Espúrios (milicianos), palavra que significa também «bastardos». 

De um lado, reivindicações legítimas, um grupo envolvendo Andrade Moura, Armando Ramos, Virgílio Varela, Monge, Neves, Casanova Ferreira; do outro, políticos com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço. Estes têm uma cabeça maior que o corpo, e um programa preciso. 

À facção de Monge patriota, que quer derrubar o regime «com as armas na mão» e organizar eleições livres, opõe-se a facção esquerdista de Melo Antunes, armada apenas com o seu programa político e que não quer zaragatas. Conta com a opinião internacional quando, apresentando-se de farda de gala diante do ministério da Defesa, aí começará uma greve de fome. «E nós havemos de devolver as nossas cruzes de guerra ao ministro. Um escândalo universal!» Miserabilismo romântico de Melo Antunes. 

Os Monge são idealistas exaltados, prontos a lançarem-se na aventura «por amor da pátria»; os macrocéfalos pensam derrubar a «ditadura» deitando-se no chão do Terreiro do Paço. Um homem para eles, Costa Gomes! «Travou uma luta magnífica em Moçambique contra a subversão.» Tal é a ideia de Antunes, fanático da moderação, que inventou um socialismo de tecedeira de 'anjinhos à base de leituras dispares: Herculano, Antero de Quental, o iluminado dos Açores, espécie de Leopardi; Sérgio, muito filósofo francês do século XVIII com luzes de Proudhon e Auguste Comte — a parvoíce à francesa. Os seus autores estrangeiros: Marx, Rosa Luxemburgo e as publicações Maspero, que ele encontra na livraria cooperativa da Universidade. Transfigurado por este brique-à-braque, envenenado de impaciência, sonha com um mundo angélico cujo príncipe seria ele, arcanjo gelatinoso que soçobrará no equívoco logo que tiver adoptado um vocabulário.

Para evitar o choque entre os dois movimentos, Spínola consegue criar uma comissão coordenadora onde aparecem os majores Otelo Saraiva de Carvalho e Hugo dos Santos. A primeira reunião do MFA terá lugar em Cascais. A aviação, que não está representada, garante que, no dia D, não atirará sobre os amotinados. A marinha, minada de oficiais vermelhos, uma tradição republicana, envia quatro representantes manobrados por Rosa Coutinho, submarino do PCP. 

Cento e noventa e seis oficiais tagarelam sobre a democracia pluralista, navegam entre Spínola e Costa Gomes, entre o calor da Baía e o fiorde. Quem quer para chefe único do movimento o general Spínola levante a mão! Ninguém levanta. Quem quer Spínola e Costa Gomes juntos levante a mão! Unanimidade! 

Assim são as conjurações! Desdobramentos de baratas. Trata-se por vezes de débeis mentais absolutos. Antigamente, as pessoas tinham vergonha de se confessarem imbecis. Hoje, o cretinismo é também o privilégio da esquerda. Ontem, no metro de Paris, um letreiro enorme: «Alto à democracia» e no Centro Católico de Assas, um pano vermelho: «A democracia não passará.»

Saraiva de Carvalho, que ninguém leva a sério, é ao mesmo tempo a mascote dos insurrectos e o agente de ligação de Antunes que o soube impor à comissão do plano militar. O seu papel limita-se a transmitir, mas fielmente... Seria antes pela plebe. Ora, eis que o histrião encantador e gabarola dos números de galucho nos palcos da Guiné entra na pele dum outro personagem, Otelo revolucionário e estratego, que se lança de corpo e alma na conjura, como já em tempos se tinha embeiçado pela Legião Portuguesa, instrutor a 400 escudos por mês, ou como se tinha sabido insinuar no grupo CUF, agente imobiliário; cantor de fado para Edward Kennedy! 

No governo, sabe-se mais ou menos que se está a tramar um golpe. Caetano tem contactos sem os ter, nomeadamente com Spínola, mas guardando umas distâncias tais que lhe deu o seu aval sem que a decisão lhe seja imputável. 

Quanto à PIDE-DGS, funciona mal com Caetano, que a destrói ao mesmo tempo que a conserva. Desde que se chama DGS, já só é um mito, delegada para a vigilância dos grupúsculos de esquerda e dos meios estudantis. Ia longe o tempo em que ela pululava, mais numerosa à noite que coelhos bravos. Pode-se abolir a tortura, nunca acomodar a polícia. De resto, Silva Pais e os seus Barbieri (os dois chefes da polícia política) trabalharam tantas vezes em Africa, de mãos dadas com os Capitães, que dão provas, em relação ao Movimento, de uma estranha irresolução. 

Ninguém, neste meio pequeno, se pode desembaraçar dum passado comum inscrito no corpo. O pai do próprio Melo Antunes é um agente notável e todos os movimentos de libertação têm contactos com a PIDE-DGS. Nito Alves, entre outros, encarregado em Angola de infiltrar a primeira região militar do MPLA... 

Em 1966, o general Deslandes, colocado em Luanda, sugere ao ministro do Ultramar, Adriano Moreira, a solução rodesiana. É rejeitada mas, desde esse instante, Champlicano nunca mais deixará de ter contactos secretos com o MPLA, o PAIGC e a Frelimo. Tudo está atacado de inutilidade mortal. Tudo soçobra.  

A 14 de Março, os ultras (Presidente da República e Silva Cunha) conseguem a destituição dos generais Costa Gomes e Spínola. 

(...)
17 de Março de 1974: os autores do golpe das Caldas estão na cadeia. O Movimento dos Capitães viveu. O Movimento das Forças Armadas começa. Os jornais minimizam. Caetano repreende os «inocentes», levianos talvez, na televisão. Tudo volta à ordem. Esquece-se Spínola, que perdeu a ocasião e mantém um silêncio absoluto sobre o fiasco. Mas Antunes, que inventou Otelo para estrangular o putsch sem ele saber, pede-lhe que retome por conta deles o plano de Casanova.

Os acontecimentos formam-se por si mesmos, mas depois do 16 de Março, a estrada está livre. Os capitães ideólogos souberam tirar uma lição da fuga do governo para Monsanto! Vão poder pôr em execução sem falhas um plano já experimentado. Estratego modelo este Casanova, se não tivesse sido vendido. Os livros que Antunes leu, interpretados à sua maneira, conseguirão o 25 de Abril e porão Otelo em foco. Esse, tinha sido sorteado à palhinha, um bom companheiro, grato aos seus amigos, que o vestem com a pele do urso. 

António Chapalimaud afirmou, no entanto, o seu apoio a Spínola aquando da assembleia geral do Banco Pinto e Sotto Mayor. Única nota discordante: Dar-Es-Sallam, onde Marcelino dos Santos, vice-presidente da Frelimo, acusa este mesmo general de perpetuar de outro modo «o sistema português da opressão e exploração». 

Estão drogados com éter, os responsáveis deste regime à deriva. E a fina-flor progressista, em Megève, encontra-se com Nelson Rockefeller, Luns (da NATO), um Helmut Schmidt, todos os patrões das «multi». Interrogam os embaixadores estrangeiros sobre os acontecimentos das Caldas, pedindo-lhes respostas de guarda-livros. «Reina a calma em todo o país»...

(...)
Eu reencontrei Otelo (na foto à esquerda aquanda da sua primeira comissão, em Angola) em plena história de amor. Tinha posto o pé em ramo verde. Cada vez que lhe dizia: «Amo-te», ela respondia: «Cala-te, tu falas depois.» Parecia aparvalhado de sono, enfiado numa poltrona de pelúcia, almofadas bordadas, mobiliário Olaio. Numa estante, Júlio Dinis, Octave Feuillet local, e alguns livros desse Jorge Amado, mesmo bom para as pessoas que lêem isso. Na parede, a reprodução d'A Ceia de Leonardo, que coroa todos os lares do soldado: «Em verdade vos digo, um de vós me há-de trair.» 

Otelo: «Com esta vida, já não durmo. Ainda menos tempo para ler. Em breve, vai haver barulho.» 

Que mudança desde Bissau! Cezarzinho tinha engordado, o queixo ao cubo e o maxilar... Gozo e trivialidade tinham guarnecido o jovem capitão que teria podido sonhar com o teatro. Diante de mim, um adulto ultrapassado pelas suas ambições. Como um pára da Argélia, um reprovado alemão dos anos 25, eu sentia-o fora do real, fascinado pelo poder popular, que reivindicava para os seus camaradas e ele mesmo em nome duma vingança e dum ideal confuso, nacional e socialista. 

Solene, tinha-se posto a explicar-me, plácido como um touro manso, a sua Revolução. Como eles a viam, ele e os seus camaradas, esta festa socialista, toda a gente feliz, construindo à saloio uma sociedade sem classes, falanstério, kibboutz e campo de juventude. Um sentimentalismo de obscura administração de mato. Ele só acreditava no vivido. 

Teria diante de mim uma encarnação portuguesa da Internacional do fascismo vermelho que, do castrismo ao esquerdismo, recruta todos os dias uns meia-tijela? Recusava-me a acreditar. 

— Você ouviu-o, François, o nosso general Spínola na Guiné, Pátria, Pátria, mas nem uma vez a palavra popular. Fervia a demolir Spínola, mimando o seu ar de prelado quando se dirigia ao povo: Bom povo português. 

E eu, que tinha vindo a casa de Otelo para lhe falar do gaullismo, duma revolução gaullista em Portugal! 

Continuava ele: — O cavalo foi dado a Spínola. Nós teríamos preferido que ele caísse à esquerda no galope. 

Com a mania portuguesa de remontar sempre ao dilúvio ou de se calar, eu tinha direito à biografia completa, ao concurso hípico, à lista dos prémios...

— A sua Revolução, Otelo, eu aconselho-o... Reforma agrária total. Unidades de produções agrárias controladas pelo MFA. Quarentena dos partidos. Ofensiva, Otelo, contra o PS e seus aliados de esquerda. Nacionalização, expropriação a todo o custo. Deixe só de pé os patrões nacionais de tendência MFA... 

Ele só escutara para me dizer: os franceses são assim, eu sei, eu sei, eu sei... «Parênteses, nós os capitães, nós somos contra a propriedade e pela camaradagem, apenas.» Tinha retomado o fio da conversa sobre o outro à rédea solta. As dragonadas, revistas de lanceiros, cargas contra os grevistas... 

A partir da África, eu sentia que Otelo não podia deixar de invejar, primeiro, o coronel em Angola, e depois o procônsul junto a quem eu o tinha visto servir com que despeito amoroso. Inesgotável. 

Eu consegui dizer uma palavra: Os esquemas marxistas, Otelo, são inaplicáveis em Portugal. Não há indústria, Otelo, muito poucos proletários. Realize ao menos aquilo que de Gaulle não teve tempo para impor à Europa: liquidação do capitalismo pretensamente nacional, na realidade estrutura de dissimulação imperialista. 

Ele escutava. «Otelo, desabitue este país! A classe dominante vive habitualmente. Num país despolitizado a este ponto e psico-socialmente levado a aceitar uma tutela ditatorial, evite a politização que prepararia um novo totalitarismo. Impeça todo o paternalismo e mesmo todo o dirigismo. Reserve a arbitragem para si.»

Otelo engolfava-se na verbosidade à moda, as palavras para exprimir o quê, repetidas sem fim, bagatelas tiradas dos livros de sociologia que não duram dez anos... Ele falava de organizar «um Kominform português», uma semântica de combate, «urna linha socialista-nacional-revolucionária de autenticidade portuguesa no seu combate político-revolucionário de vanguarda». A sua referência: Melo Antunes. Tinha, por ele, a razão da história, o código dos costumes. O único que tinha uma máquina de escrever. 

Vasco Lourenço
(...)tocavam à campainha. Aquilo movia-se devagar. Primeiro, sapatorro número cinquenta, graxa preta, sola dupla e calças de cagar em pé, os bolsos atafulhados de tabaco. Seguia-se a corrente de relógio presa aos suspensórios e chegava-se ao tronco dum pesadão, de coração nas mãos, com certeza, e cheio de malícia, como estava cheio também do que tinha comido na véspera. Melena na testa, deitar-lhe-íamos fogo para fazer rebentar o petardo. Este Vasco Lourenço que tinha o punho do tamanho da cabeça, era capitão, igualmente, mas não satisfeito de ser só isso. Queria, por sua vez, fazer a sua experiência, desempenhar um papel, ambicioso obstinado pelo lugar de Salazar. O nome dele lembrava o quê? Era ele o espantalho de Bissau, expressão que usavam para qualificar um oficial que passava as estribeiras? 

Eu estava a mais. Tinham que reflectir entre eles e reflectir em quê! Phraséologie oblige. Otelo acompanhou-me até baixo, querido tanso. Eu deixava-o entregue aos seus planos, puxar um pouco daqui, um pouco dali, ideias a uns, carícias aos outros, fidalgote na sua terra, tal como também se escreve um romance. No fim de cada frase, mil possibilidades de guardar, de cortar, de condensar, tudo do domínio do arbitrário. 

O exército em fuga atirava-se à aposta lançada por Spínola, mediador versátil a quem de Gaulle não teria dado dez galinhas a guardar. 

A porta fechou-se sobre os dois compadres! Eu escutava-os a resfolegar: 

— Ó rapaz! Ó papos d'anjo! Tu bochechas! Remoques de caserna, em que voltava batatas. Eu soube depois do 25 de Abril que aquilo queria dizer «povo»... 
A minha indiscrição foi breve. Oficiais lançavam-se pelas escadas, convexos, desbragados, uma quinzena de dinossauros anões, mal instruídos em ideologia. Última reunião dos golpistas. A melhor profissão do mundo, é, apesar de tudo, a de revolucionário. Eu cruzava a História... A História é horrível e vazia.

(...)
24 de Abril de 1974! Um destes últimos belos dias! 
O dinheiro isola ainda no Ritz, refúgio dos corrilhos e dos homens de negócios detentores de segredos de Estado. Vêm às informações junto aos criados do bar que não escondem aos iniciados o pertencerem à PIDE. 

- Senhor Jardim, em Tomar deitaram a mão a um estudante. Levava uma mala da Frelimo. 

Jardim virou-se para mim. Está a ouvir, a desintegração por toda a parte. E estamos em Abril! Tinha-me chamado com toda a urgência ao Ritz, onde eu o encontrara, mal barbeado, atrás de óculos escuros, em plena conversa. 

«Enganaram-me, François, a mim, Jardim... O próprio Caetano! Aqui está: «Depois do caso Wyriamu, eu resolvo conceder sozinho a independência a Moçambique. Tinha podido organizar, graças às minhas relações pessoais com a Zâmbia e o Malávi, as primeiras conversações do cessar-fogo. Kaúnda representava a Frelimo e Banda, Portugal, por meu intermédio. 

Estávamos neste pé, quando — não sei que mosca me picou — eu decido informar Caetano. Parvoíce, não é, ter uma consciência? Arrependemo-nos sem razão. Nesse dia, valia mais ter lutado com o diabo. A 12 de Abril — passo os pormenores —, cometo a dupla imprudência de contar-lhe tudo e de lhe deixar uma cópia das negociações. Acolhe isto com espanto e frieza. 

Eu acrescento: «Senhor Primeiro-ministro, compreenda que nem Kaúnda nem Banda podem aceitar um Moçambique comunista.» Manda-me embora sem uma palavra; três dias depois, sei através do nosso amigo do Ritz, o barman, que Caetano entregou o meu texto a Costa Gomes que o confiou ao general Silvino Marques que o dá a Spínola. Depois, nada, silêncio de morte. E eu sou seguido pela PIDE. In articulo mortis! Ah! Um segundo! As últimas notícias de Moçambique! Chamo Castor no meu walkie... Escute!» 

«Castor, aqui Castor, dizia a voz misteriosa... Desmente-se que Mons. Vieira Pinto, bispo de Nampula em Moçambique, tenha sido preso aquando da sua chegada a Lisboa. Acrescenta a mesma fonte que o prelado tem os movimentos livres. Foi conduzido ao Cartaxo, a uns cinquenta quilómetros...» Furioso, Jardim tinha desligado: «Peço notícias da situação em Moçambique e Castor dá-me o angelus

Um dia acabo por descobrir que ele trabalha para Champlicano. Trabalham todos. Nito Alves, em Angola, uma criação Champlicano, e encarregado de desmantelar a 1ª Região Militar do MPLA à qual pertence. E Marcelino da Mata, muito ligado ao PAIGC, mata Cabral. É preciso ser português para perceber! Estranho, irreal! Champlicano, desde há trinta anos, você vai acreditar, todos os anos pelas idas de Março, passa esta notícia no Times: «O Sr. Júlio César, o homem mais nobre que viveu no fluxo e refluxo do tempo, assassinado pelos que mais lhe deviam. 44 antes de Cristo!...» 


Bom, cá está o Kaúlza! Nem uma palavra sobre a nossa conversa! Encontremo-nos aqui por acaso. Ele é menos beato que os outros...» 

Via-se Kaúlza patrulhar no vestíbulo, através da porta envidraçada, candeeiros Lalique, tapeçarias de Gaudissart, baixo-relevos dourados, a decoração dum paquete. Parecia esperar... O barman tinha ido ter com ele e, juntos, calcorreavam a sala, pensativos. «E sobretudo não lhe vá chamar fascista, vibrava Jardim no crepitar dos gadgets. O exército do ar é-lhe devoto, o general Troni e os seus páras. Tem diante de si o ponto central onde tudo converge. Arriscamo-nos a uma bela pinochada! Senão, é a profecia de Lenine: "A Europa cairá como uma pêra madura, quando formos capazes, dizia ele, de a cercar não só a Leste, mas ao Sul, assegurando-nos em África das posições-chave". Desde que...» 

Lá ao fundo, o barman inclinava-se para reaparecer atrás de nós: — Senhor Jardim, devo dizer-lhe, Costa Gomes... No vestíbulo, as costas de Kaúlza tinham-se arredondado. Só, inacessível, a «Pantera cor-de-rosa» dirigiu-se para a porta giratória que, no seu movimento, o levou. 

(...)
Eu vi-me a empurrar a porta do Botequim, e beijar — boa noite — Natália Correia, poetisa, o matriarcado em estado puro, muito antiga e muito moderna. Mme. de Staël e Mme. Récaniier, as duas juntas, mal teriam feito Natália. Quando Mme. de Staël refilava, o Directório preocupava-se. 

Mais seriamente, Natália profetizava! Sobre Spínola: Apoiemo-lo não pelo que é, mas pelo que representa. Vasco Lourenço? O campónio do grupo. Um saloio, um manhoso. Melo Antunes? Pior que socialista ou comunista, a paixão de enganar. O último acto de Tartufo. O Tartufo Lusitano, as ambições de Tartufo. Otelo? Nada. Um idiota! Ela via os acontecimentos precipitarem-se e a Revolução conduzida por ineptos. Uma dinastia de artistas, perguntava ela, que não coincide com nenhuma ideologia terá o poder de transformar a fatalidade da morte em ressurreição? 

Nesse caso, François Mazin devia esquecer o seu gaullismo, ligado ao General em vida, e mergulhar na clandestinidade, provocar focos de incêndio com fósforos. 

— Nada mais discreto, François, que a candura e, no bolso do fato, uma caixinha de fósforos. As bombas são para quando se perdeu tudo. 

Fomos jantar a uma tasca: O Clube dos Três Vinténs. A patroa asturiana cantava com pronúncia de Castela. Tinha o volume dum monge lúbrico, deitava vinho em gaitas de grés vermelho. Meia noite em ponto! Ela cantava um fado: 
«Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.»

O quão delirante começava o 25 de Abril! Era lua cheia e em breve a Páscoa. Isto tornava-nos ferozes! Senhor tende piedade de nós! O candidato à Presidência seria um morto. 
(...)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

'Quinto Império' - excertos. Dias antes do 25 de Abril. 'Champlicano', Henry Jordain, as redes na sombra

(...) Respondia-me ela (Catarina Ataíde) que Spínola era um feaseur e que neste país se anunciavam constantemente tantos acontecimentos que nunca se davam. Nunca. «Mas o governo de Marcelo, quer fale do presente, do passado ou do futuro, bem pode fazer, que já não consegue nada.» 

Eu teria preferido que ela me desse informações sobre uns e outros, relacionada pela família com os meios oficiais, muito Mittel Europa, e sobre os quais corria aquele número de chavões que os franceses transmitiram às outras línguas. Mme. Bovary tinha substituído aqui o arsénico por doce de laranja. Ela esquivou-se: «Você quer saber o que eu penso, eu pessoalmente? Já não sei como me desembaraçar comigo mesma.» 

O Tejo dava-lhe vontade de se atirar. Situada ali, a casa dela estava no centro do debate português sobre o dentro e o fora, a luta entre o realismo e a epopeia, tal como a exprimem Os Lusíadas; Camões chama à aventura, mas o Velho do Restelo: não partam... 

Eu não insisti. Não possuía o código secreto do fado onde é preciso estar dentro das sociedades tradicionais para compreender as palavras que significam coisas tão diferentes, nem o da saudade que projecta o ser e as coisas fora do tempo, na imortalidade. Em frente dela, eu tinha ar de quê com a minha revolução mundial, que, precisamente, ameaçava abalar Lisboa e talvez perder a sua própria família, enquanto ela, portuguesa de gema, me propunha os Açores? Onde recomeçar com ela? 

Eu olhei para o relógio: 22 de Abril de 1974. Catarina acompanhou-me até ao portão e fechou-o pondo um dedo à frente da boca. 
A rua do Almada era diante de mim uma linha recta! 
Já só houve com Liebig uma troca de impressões vagas e respostas insuficientes de ambas as partes. E enfim, acabou-se, que alívio! 

(...)
Mas deixemos Lisboa, por algumas páginas; e François Mazin, mergulhado nos seus cálculos no Avenida Palace, à espera que a Internacional gaullista se deslocasse a Portugal, candelabro do Apocalipse. 

A África portuguesa estava numa viragem. A ONU, a 22 de Novembro de 1973, tinha reconhecido «O Estado soberano da Guiné-Bissau». Os oficiais estavam desencorajados, lugubremente envelhecidos, pensando que fazer já não tem sentido, que nenhuma acção tem finalidade. E volta-se a Os Lusíadas, ao velho respeitável do Restelo, o Salazar de 1930, sem visão do Império e para quem a África não passa de uma palavra: Costa de África, terra dos exilados políticos e dos assassinos profissionais reagrupados em Curibecas, sociedades secretas que bloqueiam a colonização em proveito de práticas ainda mais sinistras, mais nocturnas e mais negras. 

Quando Paiva Couceiro, governador de Angola, e o seu sucessor, Norton de Matos, sucessivamente pedem por carta a Salazar os meios para ali criarem um novo Brasil, nem nada! Este nunca lhes responde e demite-os um após outro. Mas, logo que em 1961 os primeiros tumultos rebentam em Luanda e em Uíge, o Velho despacha as suas Forças, julga-se Vasco da Gama. Tarde demais! 

O Ultramar escorregava para o atoleiro. As tropas especiais do conde Z... nada poderão. A partir daí, o deslaçar, as normas desnorteadas. Catrapuz, Os Lusíadas! Não se resumia a salgalhada da multirracialidade a uma abstracção? Casamentos interraciais, mas nenhum preto ocupa um lugar de responsabilidade. Simples pincelada de paternalismo. As Curibecas são donas do território. Um rural, este Salazar!

'Champlicano'
Certos oficiais fazem tudo para que aquilo falhe, pessoas como Costa Gomes que contam no seu tempo mas não ficam na história. Chefe de Estado-Maior, repete nos seus comunicados, nas suas declarações, nos seus discursos, o que é preciso dizer, com uma uniformidade de baixeza exemplar a todos os níveis, ele a quem tanto custa exprimir-se, pegando-se à política de Caetano, esse a quem tudo pode atingir, tiros de espingarda e maçãs podres. 

Após dez anos de guerra esquecida, Costa Gomes assopra-lhe, dizem, a declaração das Caldas: «É impossível abandonar tudo para dar lugar a um punhado de aventureiros.» Instigado por esta espécie de Padre José [Joseph de Tremblay, conselheiro do cardeal Richelieu, conhecido como a «Eminência Parda.» (N. da T.)], e de acordo com a PIDE, tinha confiado aos militares a chefia dum gabinete de «Operações pontuais»; uma central instalada em Bissau, donde e para onde toda a espécie de maquinações iria circular no mundo. 

O coronel Henrique Miguel Champlicano estava à testa deste gabinete alcunhado «Sociedade do Prego», sem que alguém jamais se tivesse atrevido a aprofundar o sentido daquilo. Daí a expressão: forjar um prego para o seu caixão, sempre que a ocasião se apresentava. Champlicano, um homem doce, apagado sob a sombra de Spínola a quem informava só o bastante para não entrar em confidências. A sua ideia fixa: destruir, e por todos os meios, a subversão, onde quer que ela estivesse. 

Tanto Spínola era tributário da sua casa de doidos quanto Champlicano operava sem escrúpulos com a fria determinação do crente, na certeza de que uma minoria pode vencer tudo. Só ele designava as vítimas, organizava os atentados, armava as ratoeiras, desinformava, mandava os seus agentes insinuarem-se, pouco a pouco, na confiança da pessoa a suprimir. Se Teresa de Ávila tivesse reagido, ele mesmo lhe teria posto uma almofada em cima da cara e nela se teria sentado o tempo necessário. 

Agentes duplos, executores de cordão negro, espiões, informadores, os portugueses são tão simpáticos. Sem ódio, mas cheios de interesse e de piedade pelas futuras vítimas, sabem levar o curare, ou atirar com um dobrar de rins um tiro de pistola no bandulho. Missão cumprida, vão sentar-se à mesa do café, como verdadeiros clientes sérios de Courteline soerguendo os ombros e dizendo para consigo: «O que é que tem?»

À força, os chefes históricos dos movimentos de libertação vão desaparecer um a um. E os assassínios são envolvidos por um mistério tal que arrastam no seio desses partidos purgas e vinganças internas. Depois da morte de Mondlane, presidente da Frelimo, que foi aos ares ao abrir uma bíblia armadilhada, Dar-Es-Salaam torna-se um pinhal da Azambuja. 

Em Kinshasa, os chefes da FNLA mantêm guarda-costas pagos pelos outros para os vigiar. Viriato da Cruz, fundador do MPLA, um mestiço não arrogante, morre de desespero em Pequim por causa de Neto que lhe fecha a entrada em África e Amílcar Cabral é abatido numa estrada. Para Lumumba, Champlicano tivera que exigir à CIA uma droga capaz de «matar um leader africano», a qual eles tinham desencantado em Fort Derrick, Middlesex. 

(...)
Mas quando perguntavam a Salazar se a PIDE tinha realmente o fabuloso poder que lhe atribuíam, ele respondia que as lutas da oposição eram bem mais eficazes que a sua polícia. Explicar-se-á talvez assim a misteriosa evasão da prisão de Peniche de Álvaro Cunhal, que vai imediatamente minar a oposição nacional no exílio, sabotar as tentativas do general Humberto Delgado. É ele quem o aconselhará a ser operado a unia hérnia em Praga. Mal o general escolhera o cirurgião soviético, o chefe do Partido Comunista Português vestira-se de preto. 

Spínola fez absoluta questão de meter-se na Operação Conacry, partindo do princípio que, sem ele, todo o subalterno é um incapaz forrado de mitómano. Mas tem escrúpulos. Solicita, por precaução, o apoio dos serviços franceses e alemães. Os habitantes de Conacry não estão prontos a esquecer a repressão cega que seguiu o fracasso spinoliano. Massacre de Barry Ibrahima, Ray Antra, Barry Diawadou, Traore Samba Lamine. Precisa e eficaz, a Sociedade aceitava no entanto as exceções, transgredindo, à sua custa, a regra do assassinato judiciário que tinha sabido aperfeiçoar. Em 1973, Champlicano estendia as suas redes: do Congo-Brazzaville ao Camarão, de Túnis ao Gabão. 

Melhor que ninguém, estava informado do mal-estar interno das Forças Armadas, efeito duma larga subversão telecomandada, uma em proveito dos americanos com Spínola e Kaúlza, a outra em proveito da URSS com Álvaro Cunhal e Oscar. Champlicano sabia que Spínola era incapaz de ter êxito sem Kaúlza, porque o procônsul da Guiné correria o risco de confundir a política portuguesa com a sua política colonial. 

Sabia também que Golbery, o general brasileiro, e o seu «Agrupamento secreto de acção política internacional» queriam apressar a criação dum bloco brasilo-americano, ao qual adeririam Portugal e os seus territórios de África independentes. Nessa altura, o capitalismo de Estado evoluiria para um certo nacional-socialismo. 

Golbery: antigo chefe do SNI, criador das organizações anti-bandeirantes e da CODI (Centro de Operações de Defesa Interna). Os brasileiros são para os americanos o equivalente aos cubanos para os russos, mudas de agentes e de mão-de-obra. 

Ao mesmo tempo, Guilite Coutinho, presidente da todo-poderosa Associação dos exportadores brasileiros, fazia castelos no ar com os seus interlocutores portugueses, dirigentes da CUF, delegados de Champalimaud, os quais jogavam, em nome do futuro «novo regime», a implantação luso-brasileira em Africa. 

De Lisboa a Bissau, de Brasília a Washington D. C., de Madrid a Pretória e de Zurique a Salisbúria, reinava uma actividade intensa e tenebrosa de políticos, militares, propagandistas, negociantes, professores, jornalistas, funcionários. Todos, nesta atmosfera, tentavam derrubar o Estado marcelista brandamente, para o substituir por uma social-democracia antes que fosse tarde demais. 

Mário Soares viajava pela Europa do Norte, Bulhosa, o petroleiro, fazia soar o rebate dos pedreiros livres, Perdigão, Palma Carlos, que importa a cor política. 
Mas Champlicano não contava a ninguém que Moscovo estava na corrida com o seu Partido Comunista Português, instrumento natural da sua política exterior. Cunhal, em Praga, manobrava os cordelinhos da acção soviética: um era o comandante Varela Gomes, e o outro, o coronel Vasco Gonçalves, dito "óscar". Entre os dois — prestando-se a sua acção a interpretações diversas —, o general Costa Gomes mantinha relações clandestinas com toda a gente, compondo ainda as declarações oficiais de Marcelo Caetano. 

Estes homens tinham sido alcunhados «o trio de Beja», tendo os três cooperado na famosa conspiração contra Salazar que visava substituir a integração por uma política colonial avançada. Não só chegavam subsídios secretos até às células comunistas portuguesas, mas também já tinha sido concebido um plano de restabelecimento económico para o caso do êxito do poder popular. Provinha de um certo «Comité de Estado soviético para a coordenação dos assuntos secretos», encarregado de apoiar os países europeus com economia em pleno desenvolvimento, que corriam o risco de ficar isolados do resto da Europa depois da sua viragem à esquerda. Um piano Marshall imprevisto! 

Champlicano sabia que Moteikine era o secretário-geral desse «Comité», delegado para as relações entre Moscovo e Cunhal. Que Tsoukanov, secretário particular de Brejnev para os assuntos especiais, acabava de se encontrar com Cunhal em Praga, bem como Mazourov, da Comissão de controle político do C. C., o último pro-sector do grupo Garcia Gomes-Lister, representando este a tendência minoritária à testa do PC espanhol ortodoxo (os maioritários Santiago Carrillo e Manuel Azcarate seguem uma linha mais liberal). 

O que explica muitas coisas, pensava Champlicano, intoxicação, desinformação. Mais tarde, só em intenção do grande público, fornecer-se-ia informação para criar um clima de opiniões favoráveis aos comunistas. Na Informação, não há diferença entre rumores e certezas. Antes de esmiuçar, tem que se ter tudo em conta. Até 1969, a central da subversão antiportuguesa estava na Suíça, em Lausana. Que tinha sido dito na reunião secreta respeitante a Portugal, realizada em Prades no convento de São Miguel de Cuxa? 

Champlicano lamentava que ao nível da informação o seu serviço não valesse o dos israelitas. Formados na escola inglesa de Orde Wingate, na Palestina sob mandato, tinham criado o famoso «Departamento C», de Comunismo. Sabia enfim que um terceiro movimento se acrescentava aos outros dois: o movimento dos capitães, saído da própria deliquescência do poder. Tudo tinha partido de Bissau. Uma dezena de oficias reunidos para discutir uma medida vexatória que lhes fora aplicada, tomavam consciência de que, agrupados, eram uma força. 

E de repente põem-se a votar resoluções; a escrever ao ministro da Defesa, já sem nenhum respeito pelas vias hierárquicas. Lisboa detém-nos: começo da fronda. Os oficiais repartiam-se em duas categorias: a primeira, privilegiada, dos generais e dos estudantes. Estes escolhidos à vista dos diplomas, aqueles nomeados pelos ministros a seu bel-prazer. A segunda contava os inumeráveis plebeus, os oficiais subalternos. Estes últimos, prejudicados por uma selecção darwiniana, sentiam-se próximos dos sub-oficiais, a quem se estendia a sua protecção contra os oficiais superiores. 

Ajudando-se mutuamente, os capitães descobrem a tomada da palavra e verificam o seu dom de persuasão. Otelo de Carvalho, Melo Antunes, Vítor Alves, Osório, o futuro! A partir daí, já não se dominam, são propriedade da Revolução nascente. Quem havia de dizer! Estes rapazes, até aí, serviam-se de perífrases para se dirigir aos superiores — o senhor que tem instrução! Vão metamorfosear-se, chegado o dia, nem mais nem menos, em secções de assalto. Mas o seu populismo fará deles epígonos de Rõhm, de Hedilla, de Castro, a mafia castanha dum certo Terceiro Mundo, de cortejos de autos-da-fé e de campos de rectificação. 

Henrique Champlicano não precisava de procurar as coisas, elas saltavam-lhe à vista. Os ventos revolucionários semeados pelas grandes centrais americanas acercavam-se de Portugal. Um único objectivo real: a URSS e a sua esplanada oriental. Era por certo permitido refletir sobre o estado da União, embora a União tivesse sabido gerir tão habilmente a Primavera da Boémia. Quando Spínola o interrogava, Champlicano ficava impreciso. Os seus próprios amigos figuravam nas suas listas. 

Como fazer compreender ao general que os Comités anti-Vietname tinham sido apenas um dos elos da subversão americana cuja acção principal visava Varsóvia, Budapeste, a Geórgia a longo termo, as repúblicas da Ásia, Moscovo? Ao abrigo da tempestade da Vietnam Solidarity Campaign, tinham preparado o encontro Nixon-Mao, que tinha como princípio o isolamento que a China deveria impor à União Soviética. 

Encontravam-se, nos bastidores, tanto Helms, patrão da CIA, como o almirante William Raborn, ligado aos serviços do Pentágono, Walter Reuther, da United Automobile Workers, ou J. Schiff, o financiador de Trotski, o grupo Bildelberg por inteiro naturalmente, o grupo Pugwash e a revista americana Rampart, que, em 1969, se tinha atrevido, não sem razão, a publicar os documentos secretos da NATO. 

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A estrada de Ratoma, Guiné-Conacry, é tranquila e o Volkswagen corre na noite. 
Hesita um momento, depois ergue a arma e dispara. As ordens, no entanto, proibiam matar Cabral, mas mandavam levá-lo a Bissau, onde o esperava o grupo operacional de Champlicano, acrescido de três personalidades chegadas nessa mesma manhã de Lisboa para receber o carregamento: — O vice-almirante Pereira Crespo, ministro da Marinha; — O general Costa Gomes, chefe de Estado-Maior inter,armas; — O major Silva Pais, chefe da PIDE-DGS. 

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Quem matou o general Delgado? Ou antes, quem e denunciou, mandando-o assim para uma morte certa? Champlicano? Isso é possível! Existirá um elo entre os diferentes capítulos da morte de Cabral, de Delgado e de Mondlane? Na realidade, Champlicano valia mais que a sua paixão pelo serviço. 

HENRY JORDAIN
Na véspera dos acontecimentos de Lisboa era com Henry Jordan, do Joint, um amigo de infância, que ele Champlicano teria gostado de discutir sobre a «vaga revolucionária» e os seus riscos calculados. Ao contrário de Delgado, Jordan era um homem apagado. Apaixonado pela dedução e a análise, comprazia-se a examinar o ser ao microscópio. 

Champlicano tinha-o encontrado pouco depois, graças às redes portuguesas do BND alemão, como chefe do American Joint Comittee, um organismo utilizado desde 1948 para cobrir as missões de espionagem no Leste. Quais foram as relações entre certos elementos da oposição portuguesa e a PIDE?

— Quem traiu o general Delgado? 
— Qual foi a responsabilidade do dr. Fernando Piteira Santos, antigo chefe do FPLN? 
— Quem é este Henrique Cerqueira ? 

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Henry Charles Jordan dirige-se a Praga a 16 de Agosto de 1967, consciente dos seus deveres, das suas responsabilidades e da sua missão precisa: derrubar o regime de Novotny. Em Praga, o correspondente de Henry Charles não é senão Goldstiicker, director da Ikerarni Noviny, que empreendeu lançar no seu jornal a primeira campanha de democratização. Objectivo estratégico: soprar os ventos, pródromos dos cataclismos. 

Mal se instalara no Hotel Esplanade, Jordan percebe que é seguido. No segundo dia, há tantos agentes do STB checo nas ruas vizinhas que ele decide ficar no quarto e sair depois da meia-noite. 

E em vez de ir a casa de Goldstücker, dirigir-se-á directamente a casa de um dos membros mais seguros da organização Voska que o conduzirá a Dubcek. Chove a cântaros. Ruas vazias. O bairro dorme. Ao atravessar a ponte Carlos, ele passava do gótico ao barroco, da burguesia à aristocracia, da Reforma à Contra-Reforma. Os relógios astronómicos do castelo marcam as horas de um tempo que em breve será volvido. Heydrich foi assassinado nesta ponte no Mercedes preto com que sonha António de Sousa, aliás Álvaro Cunhal, que dorme não longe dali, instalado em segredo. 
(...)

Meia-noite. Conacry está isolada. E às cinco da manhã, os navios do PAIGC, perseguidos pelas vedetas guineenses, são inspeccionados. Da Costa e Inocêncio Kani são presos. 
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A 21 de Agosto, o cadáver de Henry Charles Jordan é pescado no Moldau, com um atacador à volta do pescoço. Os polícias dirão: «Pois bem, não temos provas.» Enviarão à família a carteira, o passaporte e uma página arrancada a um jornal ilustrado, encontrada dobrada no bolso do morto.
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Uma vez em Badajoz, o general Delgado decide dirigir-se para uma quinta isolada parto da pequena cidade de Olivença. Por seu lado, a secretária, Arajaryr Campos, instala-se em Vila Nueva del Fresno, a trinta e cinco quilómetros. Tinha-lhe dito: «Desconfie desses amigos com quem tem que se encontrar.» Teve tempo de sacar o revólver e ferir um dos seus agressores. O seu cadáver foi transportado de carro para Vila Nueva del Fresno onde o esperava, debaixo duma árvore, o cadáver de Arajaryr Campos, com um atacador à volta do pescoço. Eis, realmente, algo que se parecia com um assassínio! 

Naturalmente, há várias versões da morte de Delgado, entre as quais aquela segundo a qual, raptado em Badajoz, teria sido transportado vivo para Portugal pelo falso dr. Castro e Sousa, na realidade Ernesto Lopes Ramos, que tinha como cúmplice o autêntico adido naval Fernando Castro Araújo e o professor Mário de Carvalho encarregado de fazer crer ao general que «a rolha precisava dele para saltar». 

Delgado gostava dos códigos. Via-se, com um milhar de partidários, descer do céu sobre Lisboa, apoderar-se de tudo, tudo partir. Não era exactamente um adversário, mas figurava nas listas de Henrique Champlicano e nas de Álvaro Cunhal. A maior parte dos acontecimentos têm menos importância que a sua projecção. A morte de Delgado, a de Cabral servem a oposição que se põe a interrogar com frenesi, evitando as questões essenciais. — Quem denunciou o general Delgado? Socialistas ou comunistas?

Nas vésperas do 16 de Março de 1974, Henrique Miguel. Champlicano interessava-se sobretudo pela parapsicologia e pela hipnose de Charcot. Para vingar a morte do seu amigo Jordan, projectava o rapto de Zednenek Redjek, investigador de medicina geral na Universidade Carlos em Praga. Queria que o Kapaudjiu, embaixador da morte com o cordelzinho, pudesse agir sem se deslocar... 

(...)
Lee Harvey Oswald não agiu sozinho. E quem matou Jack Ruby, que matara Oswald alguns dias depois do assassinato de Kennedy? Sabe-se que dois informadores da CIA estavam presentes nesse dia em Dallas, um dos quais era Frank Sturgis, Frank Fiorni de baptismo, nome que tinha ido buscar ao herói de Rimini, Run de E. Howard Hunt. (O próprio romancista montará, depois da baía dos Porcos, a ratoeira Watergate.) 

Segundo a Comissão Rockefeller: as sombras que se distinguiam nas fotografias, e que faziam crer na presença de Sturgis e de Hunt, seriam apenas um efeito óptico, ramagem... talvez. 

(continua...)