sábado, 27 de setembro de 2014

Memórias do 7 de Setembro de 1974. 'Os tempos do fim'. De Walter D. Gameiro

MOÇAMBIQUE - OS TEMPOS DO FIM.  1974 / 1975

1. UM POUCO ANTES DO SETE DE SETEMBRO. OS AUMENTOS DE 100%

Viviam-se tempos de mudanca que eram novidade para todos. Em Mocambique as pessoas trabalhavam bastante, e as horas vagas eram mais dedicadas ao desporto do que ao estudo da politica, que era deixada aos politicos. Por alguna razao solida Mocambique teve sempre um PIB bastante superior ‘a Metropole.

Eu acabava de cegar de Inhambane onde lancara o cabo submarino que iria dar electricidade ‘a Maxixe, do outro lado da baia a partir da nova central Geradora de Inhambane. Ao chegar ‘a empresa dei com uma reuniao de gente perplexa, sem saber como reagir a um fenomeno novo chamado “Greve”. Greve em Lourenco Marques em 1974? Exacto. Sem sindicatos, sem representanes da CGTP nem nada? Exacto. Meti o nariz na mesa redonda em busca da solucao. Ouvi e ri-me abertamente. E com a voz propria de quem 28 anos e “sabe tudo” , clamei alto e com bom som, que so’ quem nao leu os fenómenos grevistas da Europa podia estar perplexo. Descrevi o “modus faciendi” da negociacao salarial standard e conclui … “e’ facil”!

Cerca de 30 segundos depois era nomeado por unanimidade, para ir ‘as oficinas da Av de Angola, resolver o problema. A maior parte dessas pessoas trabalhando naquelas oficinas nao tinha menor ideia de quem eu era com excepcao dalguns capataces. Havia 270 operarios em greve, exigindo um aumento de 100%.

Fiquei – confesso – bastante surpreendido com a rapidez com que fui, um miudo de 28 anos, nomeado para tal tarefa. Entendi-a como um desafio e fiz uma unica exigencia ao Gerente geral Joaquim Pereira Soares, um homem muito ponderado nas suas decisoes. “Eu vou la’, mas com uma condicao. O que eu prometer, esta’ prometido e sera’ lei!”. Recebi de volta um olhar de inquietude e uma so’ frase. “Pois sim, mas cuidado com o que for prometido, pois podemos deitar a empresa abaixo”. Assegurei que tinha a nocao exacta do risco e sem mais, meti-me no carro e fui ‘a Avenida de Angola. Cheguei por volta do meio dia, hora de almoco e portanto com todo o pessoal parado e a comer das suas cestas de vime ou de cartuchos de papel caqui. Expliquei aos capatazes e director das oficinas que estava incumbido de falar com o pessoal. Pedi um quadro negro e giz para poder escrever.

Ajudaram-me a arrastar uma bancada de aco, para o meio de uma das oficinas e pedi que fizessem uma roda ‘a volta da bancada, que eu queria falar a todos. Naquele grupo havia um amigo negro que tinha sido meu cabo durante o servico militar donde eu tinha acabado ser desmobilizado em Fevereiro de 1974. estariamos em Abril ou Maio. Perguntei-lhe donde vinha a nocao de 100% ao que me respondeu “Foi um passarinho que nos disse”.

Subi para a bancada e comecei a falar da vontade que havia em resolver o diferendo e que estava la’ a mando da gerencia com poderes de decisao. Comecei a perguntar interpelando directa e individualmente “Quanto ganha? Quanto e’ um aumento de 100%?. Quanto quer ganhar? “ “Nao sei”, foi a desposta geral da totalidade dos interpelados. Peguei no quadro e expliquei como se faziam os precos para um trabalho, mostréi um valor para cobrir as materias primas, despesas de edificio, viaturas, ferramentas e mao de obra. Como na epoca ainda se tratava de uma oficina de mao de obra intensiva, ficou claro que a parcela maior era para mao de obra. Depois expliquei o que significava um aumento de 100%. Finalmente dobrei o valor de mao de obra no “orcamento” de obra que explicava e mostréi que o valor da venda era inferior ao novo custo. Explicado o conceito, sem posturas de superioridade alguma, pedi a opiniao dos mais velhos sobre o assunto e na sequencia passamos a discutir que aumento seria justo na opiniao deles, posto que os trabalhos que estavam em curso ja’ estavam vendidos e nao se podia mudar o valor da venda aos clientes. 


Discutimos nao em termos percentuais mas em termos de dinheiro que todos entendiam. Chegamos a acordo e ficou prometido desde logo que assim seria, pois tal como tinha dito no inicio, eu estava autorizado a prometer e cumplir. Nao havia que esperar por aprovacoes nem ratificacoes. Regressei aos escritorios centrais na baixa ao lado do Cinema Gil Vicente e fui calmamente comer qualquer coisa – um Prego no pao – no café’ do Cinema. Vieram ter comigo e indagar que se tinha passado. Respondi lacónicamente, o pessoal esta’ a trabalhar desde as duas e meia da tarde. Disse eu com um falso ar de naturalidade. So’ depois de comer fui falar com a gerencia e dar conta dos pormenores.

Na sequencia desta reuniao com os operarios, um ou dois dias depois apareceu uma lista de assinaturas que retratava a unanimidade das oficinas, num rolo de papel para jormais, (O Noticias tinha um armazem de papel mesmo ao lado) a solicitar que eu fosse nomeado Director geral das oficinas. Uma semana depois – de novo com um pedido de o que eu decidisse seria lei e outra novidade, durante a reforma da oficinas a gerencia nao podia ir la’ visitar ate’ estarem concluidas todas as obras.

Dessa experiencia resultaram muitos amigos de todas as racas. A alteracao de oficinas a Fabrica demorou cerca de 2-3 meses. Investiu-se em maquinaria oficinal para reduzir os tempos de fabrico, criaram-se circuitos de fabrico para o material, pintaram-se as paredes de cores claras recomendadas para bom ambiente de trabalho, aumentou-se a ventilacao etc.

Dessas amizades, com o tempo que e’ necessario para que as pessoas desenvolvam confianca e credito, resultou que um dia mais tarde ao relembrar as condicoes dessa famosa reuniao dos 100%, voltamos a falar de onde tinha vindo a nocao dos 100%. A explicaco veio devagar mas seguramente e no final fiquei com a nocao que o PCP tinha tentáculos longos que se estendiam ate’ Mocambique e que a tentativa de divisao entre classes nao tinha sido casual mas organizada, e que o chamados Democratas de Mocambique tiveram muitas culpas no cartorio na destabilizacao das relacoes inter-raciais naquela provincia de Portugal. A traicao nao foi so’ ao nivel do Continente, mas extendeu os seus tentáculos a todos os territorios.

Soubemos mais tarde por fotocopia de cartas dirigidas ‘a Frelimo que era importante atacar e matar brancos e em particular ser muito duro com as mulheres e criancas antes de as matar.

Estas cartas que foram publicas vinham assinadas pelos encarregados do territorio ate’ ‘a Independencia.

Entretanto havia gente que pretendia ficar, com o respectivo partido FICO, e gente que pretendia cavar, com o respectivo partdo CAVO.

Havia naturalmente uma imensidao de contentores e caixas de Madeira de todos os tamanhos e feitios depositadas no cais ‘a espera de embarque. Como estas coisas foram fenómenos novos acabaram atraindo tambem fenómenos novos, ou seja, os grupos de Frelimistas mas

em maior numero os Pseudo-Frelimistas os quais oportunisticamente, acharam por bem que o ideal para punir quem se ia embora de vez, era assaltar os contentores e caixas e roubar o seu conteudo. Milhares de pessoas que ja’ nada mais tinham que o que estava nesses contentores viram os seus parcos haveres roubados em pleno cais, com a vista grossa da Frelimo e seus acolitos portugueses. Passou para muitos mocambicanos brancos a ser o desporto da altura. Trabalhar para que se basta ir buscar uma cama , uma sala de jantar, as loicas, lencois, toalhas, uma comoda e uma maquina de costura? Nao so’ passou a ser desporto passou ainda mais a ser motivo de bravata, vangloriando-se estes idiotas dos roubos que faziam com justificacoes politicas de trazer por casa. Esta gente que se esqueceu – momentáneamente – que ca’ se fazem … ca’ se pagam, continua a existir e a fingir que nada aconteceu, excepto quando confrontados directamente por quem sabe quem eles (e elas) sao ou foram.

O Universo sempre pune estas condutas e assim tem vindo a acontecer.

Para alem destes roubos que ocorreram abertamente e com confissoes vangloriadas, ainda havia a revista final da Frelimo, que decidia o que podia e o que nao podia ir, sendo confiscado para bem dos “ceguinhos” militantes.

Aos meus dois filhos nascidos em Mocambique, foram-lhe negados os brinquedos usados. Em consecuencia disso nunca mais quizeram saber de Mocambique ou de Mocambicanos.

Isto passou-se durante o reinado da gestao Portuguesa e antes da Independencia com vistas grossas de todos os representantes de Portugal que la’ estavam a zelar pelos seus proprios intereses e nao em representacao dos cidadaos nacionais que lhes pagavam os salarios.

Na fase seguinte os contentorews ficaram no cais em Lisboa e Porto ao sabor da bandidagem local. O que nao foi roubado la’ veio em muitos casos a ser roubado em Portugal pelo mesmo tipo de gente que nada mais foram que oportunistas.

Falo apenas dos contentores. Se falasse dos automoveis dos retornados, haveria material para escrever um livro dos grossos, sobre a materia. Pessoas houve em Portugal que passaram a ter automovel gratis sem terem que o pagar. Pessoas houve que tiveram que comprar o seu proprio automovel para conseguir despacha-lo do cais.

A corrupcao de que falo agora e’a da meia tijela e nao tem paralelo com a corrupcao a alto nivel que ocorreu e ainda ocorre, mais que nunca, nos altos cargos de Portugal e Mocambique.

Os dos altos cargos nao foram ainda punidos pela lei do Homem. Mas o Universo nao espera pela justica dis homens e ha’ quem tenha perdido a familia, viu filhos suicidarem-se, tenha sofrido ataques cardiacos prematuros ou seja hoje simplesmente um idiota que ninguem escuta e a quem todos chamam nomes, tenham andado aos diamantes ou nao.

Senti a necessidade de explicar esta fase dos aumentos 100% para que quando chegarmos ‘as minhas experiencias do 21 de Outubro quando ja’ estava implantado na Fabrica se poder perceber os porques de cómo decorreu o dia e de cómo se salvaram uns poucos e como morreram milhares de pessoas 
brancas, negras e mesticas. 

Walter D. Gameiro
 ***

2. A PROPOSITO DO SETE DE SETEMBRO. Copia de um post que fiz na pagina ORIGEM LUSITANIA

Eu estava la' em LM no 7 de Setembro. Vivi de perto os acontecimentos. Muito mais de perto que a maioria dos meus concidadaos. A Setembrada comecou num sabado. A nossa empresa que empregava 1000 homens de todas as racas, tinha escritorios na baixa e uma fabrica na Av de Angola, a meio caminho do Aeroporto. Eu na minha posicao de fascista colonial e explorador, estava a trabalhar sozinho na fabrica nesse sabado. Tinhamos tido uma semana dura a re-organizar a fabrica e aproveitava o sabado quando nao havia ninguem nas instalacoes alem de mim a nao ser um guarda. Tinha um calculo de ar condicionado para fazer e dar uns orcamentos que teriam de entregar-se na segunda feira. Trabalhei ate' 'as duas da tarde e so' entao sai para almocar. Sair para almocar significava atravessar a rua e comer num dos pequenos restaurantes ou melhor cantinas que havia ao redor da fabrica. Enquanto esoerava que me fizessem uma sanduiche de queijo fui bebendo um cafe e ouvi que um grupo tinha entrado e ocupado o Radio Clube de Mocambique. Depois de comer Telefonei 'a Clara Soares que era a chefe de Recursos Humanos da fabrica, fui busca-la e fomos sentar-nos a pensar no que estava a acontecer, nao as razoes ou causas porque essas eram conhecidas. Apos o 25/4 o governo de Portugal praticamente desistia de governar e era hostil 'a populacao branca de Mocambqiue. Fomos ate' ao RCM para ver com os proprios olhos, lemos os comunicados que iam saindo no Diario que era mesmo ao lado. Ao final da tarde fomos ate' ao emissor na Matola; verificamos que havia grupos de gente armada a proteger o emissor. Nada de profissionais ou mesmo militares acabados de sair, eram jornalistas, vendedores, mecanicos e toda a especie de gente normal com as armas desportivas como as cacadeiras e armas de bala para ir 'as impalas e cassa nao grossa. Eu que nao sai do carro, estava melhor armado que eles.

‘As 5 da tarde haviam convocado uma manifestacao na praca do Mouzinho de Albuquerque que foi palco da maior manifestacao de patriotismo Portugues que jamais vi na minha vida. Recolhemos a maior informacao possivel e colocamos os dados sobre amesa para raciocinar o que aconteceria a seguir. Concluimos que os militares a mando do Governo comunista de Portugal nao iriam deixar passar em branco os acontecimentos e nao iriam ficar passivamente 'a espera que o grupo que ocupou o Radio Clube se cansasse e saisse. Haveria, como houve, consequencias. Deixei a Clara Soares em casa e fui ao mercado de Xipamanine 'as cinco da manha. Cheguei a casa 'as sete da manha com o carro carregado com legumes, camarao, carne, outros bens alimentares, alguns garrafoes de agua mineral.

Durante a noite ouvi vozes de amigos meus de dentro do Radio Clube a chamarem o Batalhao de Comandos em Montepuez, mas nada de se ouvir uma resposta pela noite fora, nem o Domingo. O Governo tinha dado as suas ordens e o Batalhao comandado por Jaime Neves nao saiu para a rua a dar apoio ao Grupo. As tropas especiais nomeadamente os Paraquedistas foram chamados a intervir na Terca Feira, pondo final 'a situacao. Na segunda feira quando quis ir 'a nossa fabrica na Avenida de

Angola, nao permitiam passagem a ninguem, a partir do largo Jose' Albasini. Fiquei 'a espera e so' perto do meio dia me inseri num grupo que ia para o Aeroporto a coberto de uma escolta militar. A meio caminho sai, para ver o que se tinha passado na fabrica.

Havia muitos edificios queimados e destruidos, mesmo ao nosso lado. A nossa fabrica estava intacta. Sai do carro e fiquei a falar com o Guarda de servico sobre os acontecimentos. Quando estava nesse dialogo passou um carro Fiat branco com uma mulher a guiar o marido de janela aberta e disparar uma cacadeira e um miudo de 5-6 anos no banco de traz. Disparavam sobre tudo que se mechia. Nao era o unico carro mas este ficou gravado. Viu-me a falar com o guarda negro e disparou sobre nos.

Deitamo-nos no chao para escapar 'a saraivada de chumbo miudo. Mais adiante na rua havia uma barricada onde o carro acabou por embater enquanto o homem carregava o cacadeira de 5 tiros. As rodas de traccao estavam no ar atrabalhar em vao. Um grupo de negros que estava escondido apareceu de repente e voltearam o carro de rodas para cima. A gasolina comecou a escorrer do tanque, e os ocupantes tentaram sair. O numero de pessoas ao redor do carro naon permitiu que ninguem saisse dando pontapes nas portas. Um fosforo deitou fogo 'a gasolina que lenta mas seguramente incendiou o carro e incinerou os ocupantes.

Cerca de duas horas depois ainda nao tinha passado a columa militar de volta ao largo. Claramente nao podia sair de onde estava sem risco. Ainda assim sai para o lado do aeroporto em buca da seguranca da tropa. Ao chegar la' nao havia nenhum sinal da coluna. Resolvi tentar regressar 'a cidade pela Av Craveiro Lopes. Estava deserta, perto do aeroporto. Debaixo de uma ponte estava alguem baleado ou de pernas partidas pois nao se podia levantar. Agarrou num tijolo e tentou atingir o carro, acelerei e esquivei-me e logo cheguei 'a grande Rotunda. Um negro sem intencoes belicas avisa-me "Nao vai para ali que estao a matar pessoas". Perguntei-lhe "Porque haviam de matar-me se nao estou a fazer mal a ninguem?". Nao sei, mas estao a matar. Resolvi nao ir pelo caminho mais perto da Avenida mas meter por uma rua que ia sair 'a praca de Touros. Ao dar a volta ao campo de futebol do Primeiro de Maio (julgo) dou de chofre com uma mole humana de varias centenas de pessoas que ocupavam a estrada e areas circundantes. Fizeram-me sinal para parar. Nao so' parei como sai do carro. Perguntei o que se passava. Perguntaram-me "Traz armas?", Respondi "Nao, podem verificar" Abriram portas e a mala e ficaram satisfeitos com o resultado da busca. Comecei a andar lentamente furando pela mole de pessoas. Cada 30 metros mais ou menos nova pergunta sobre arma e nova revista. Demorei uma hora ou mais nesta operacao que foi repetida uma 10 vezes provavelmente.. Finalmente acabou o grupo e estada ficou livre, circulei ate' 'a Praca de Touros onde estava um unico policia de Transito, vulgo "cabeca de giz" com uma metralhadora G3 e dois cunhetes de 20 tiros cada. Perguntei-lhe " O que faz voce aqui?" "Estou a guardar a cidade, pois estamos 'a espera de problemas" respondeu-me.. "Voce tem alguma ideia do numero de pessoas que estao a virar da curva para invadir a cidade? "Chame por radio o seu comandante e diga-lhe que ha' um milhar de pessoas a cerca de cem metros de si a preparar-se para invadir a cidade". Eu tinha acabado de atravessar a zona do Galo, sozinho num BMW vermelho novo e ninguem me fez mal. Nem um arranhao fizeram no carro, nem a mim.

Na terca feira os Parquedistas de Portugal desalojaram o Grupo que entrou no Radio Clube e apenas difundiu mensagens patrioticas, mas nao fez mal a ninguem. Quando foi sabido atraves dos Microfones do RCM que o Grupo tinha abandonado de livre vontade o RCM, ouviu-se uma voz que com algum nervosismo disse e repetiu varias vezes: GALO, GALO FINALMENTE AMANHECEU! Ficamos saber mais tarde que era a mensagem codigo para o grupo do Galo que eu tinha atravessado na segunda feira, para se desmobilizar. A crise tinha sido desmobilizada mas as feridas tinham ficado serias e fundas. Nessa terca feira 'a noite a seguranca foi entregue 'a FRELIMO, trazida de aviao militar Portugues para LM, para impor a ordem. Nessa Terca feira 'a noite eu fui ao Largo Jose' Albasini, ver as tropas da FRELIMO. Tentai falar com alguns deles e constatei que nenhum dos inperpelados mewsmo comandantes falava um idioma de Mocambique. So' falavam um ingles muito precario e apenas respondiam 'as minha sperguntas em Portugues e outros idiomas de Mocambique FRILIMO! Nada mais diziam que FRILIMO> QUEM PENSAR QUE O SETE DE SETEMBRO FOI MAU E GRAVE, E' PORQUE JA" LA" NAO ESTAVA NO MES SEGUINTE PARA A PIOR DE TODAS AS CRISES, O 21 DE OUTUBRO. Isso foi um assunto muito mais serio e ai' sim morreram muitos mais de todos os lados do espectro.
*
No dia 21 de OUTUBRO talvez me disponha contar " a minha historia" .... Estes episodios foram induzidos no Grupo Patriota na sequencia de meses de Publicidade na radio, e jornais (la' nao havia televisao) anti patriotica e anti-portuguesa e agentes que tiveram ligacao com o PCP em Portugal. O Livro do Giancarlo Coccia, MOZAMBIQUE, THE SCORPION STING um Italiano que soube com antecedencia do Golpe em Portugal (venham la' dizer que foi coincidencia) acusa o Ten Gomes dos Santos da OPV e vendedor de carros directamente pelo nome. Escreveu um livro e colocou-se com os soldados na mata no dia 25 de Abril para ver e escrever sobre a suas reaccoes quando se soubesse do "Coup de Etat au Portugal". Eu tenho o livro. Ninguem me contou. Eu tinha conhecido o Giancarlo Coccia em Nampula juntamente com colegas meus do curso de Oficiais Milicianos, nomeadamente o Evo Camoes Fernandes que morou mais tarde em Cascais sendo representante da Renamo e onde veio a ser assassinado por agentes que se presumem ser da Frelimo nos anos 87/88 aparecendo o seu corpo em Sintra. Eu estive no funeral do Evo Fernandes. Nunca fui membro da
Renamo, mas tendo feito o COM Curso de Oficiais Milicianos juntamente com eles ficamos amigos ate’ ao seu assassinato em Sintra.

Walter D. Gameiro.



3. POR QUAL MILAGRE SOBREVIVI NO 21 DE OUTUBRO em L. Marques. - UM MILAGRE CHAMADO MOTA!

Na quarta feira depois do SETE DE SETEMBRO ser encerrado no Radio Clube todos tivemos que ir trabalhar juntos. Todos tivemos que aprender a confiar uns nos outros de novo. Foi uma sensacao estranha para todos nos na Fabrica, fossemos nos negros, mesticos, chineses, indianos, mesticos ou brancos, porque na realidade havia de tudo. Consoante as experiencias vividas por cada um de nos entre o SETE e a terca feira DEZ de SETEMBRO havia medos e duvidas no ar que so’ o correr do tempo, como a agua, haveria de lavar. A primeira manha foi para contar historias onde cada um contava a sua. Tinha havido uma alquimia especial entre nos na fabrica e eu tinha sido escolhido pelos operarios o que tornou menos penoso a aproximacao entre nos. Mas a verdade e’ que ninguem se confia por decreto e nao foi por virem politicos falar na radio para nos acalmar que apagamos as memorias e voltamos a ser quem eramos, aos olhos dos outros, como que por magia.

Mas todos nos, falando ou em silencio, caminhamos na direccao de readquirir a confianca mutua. No pouco tempo que mediou entre uma crise e outra, os politicos nao pararam de organizar a sua agenda e os seus programas. A pressao imposta pela autentica guerra ao nacionalismo portugues e o total desprezo por quem trabalhou la’ decadas a fio sem nunca ter abdicado do cumprimento da lei, nao parecia justa a ninguem. A clara mensagem dos politicos em Portugal militares ou nao, era uma so’ nessa epoca. Todos eramos apelidados de fascistas perigosos, ladroes e exploradores nao tanto pelos membros da Frelimo, mas pelos nossos proprios politicos nacionais, com ameacas publicas que variaram desde ser “Mortos a tiro pelas forcas armadas de Portugal” a ser “Atirados aos Tubaroes”. Nao admira que tenha havido uma reaccao nacionalista, tendo-se sabido sobre o Acordo de Lusaka em 7 de Setembro e quando provavelmente num episodio organizado por forcas comunistas, se fez publico um incidente em que a bandeira de Portugal foi arrastada no asfalto por um automovel, numa clara tentativa de provocar uma reaccao. Desde os tempos em que li o Principe de Machiavelli e que li “Os Tambores de Bronze” estava ciente que para instaurar uma nova forca e’ preciso causar um cataclismo para depois aparecer a nova forca como solucionadora do problema. Criar o problema, para depois aparecer com a solucao. Factos comprovaveis pela Historia no inicio de todas as ditaduras e em particular as da America do Sul, por serem as mais recentes, na epoca.

A conjugacao de esforcos entre o Governo de Transicao com elementos do PREC e da Frelimo, foi responsavel pelo despoletar do SETE DE SETEMBRO com a ajuda de elementos civis como foi acusado o Tenente Gomes dos Santos da OPVDC Organizacao Portuguesa de Voluntarios e Defesa Civil, enquanto membro ou agente do PCP de Lisboa, na palavra escrita do Giancarlo Coccia. A intencao foi clara, era necessaria uma insurreicao com uma agressao racial para justificar ‘a populacao a imposicao de uma nova ordem policial, ou seja a dos guerrilheiros da Frelimo, que nem portugues sabiam falar, ao lado da Policia de Seguranca Publica. De certa maneira e apesar de ter morrido muita gente de todas as racas, a manobra nao resultou inteiramente pois nao atingiu o grau de vitimas que haviam esperado os seus organizadores. Ao que me pareceu, o grau de racismo que se pensava existir nos meios exteriores nao era tao grande como tinham pensado, uns e outros teoricos, todos a grande distancia da realidade no terreno ou ausentes ‘a muito. Essa tera’ sido a razao pela qual foi necessario provocar o VINTE E UM DE OUTUBRO.

O dia amanheceu normal igual a muitos outros. As feridas do SETE DE SETEMBRO iam sarando gradualmente, o que nao eram boas noticias para o Governo de Transicao, cuja ambica,o ao que transpareceu, seria ocasionar a morte a muitos mais cidadaos fosse para para diminuir o numero de retornados a Portugal, fosse para afasta-los da Metropole, ou fosse para que quem ficasse nao tivesse entrado na oposicao ao novo regime de forma directa. Quem pode perceber as razoes que motivam estes dirigentes?

As pessoas de todas as idades, tinham entretanto sido instruidas para tratarem todos os brancos por Camaradas, o que resultava em mau estar. Poucos reagiam abertamente, mas ninguem gostava dessa nova moda do “Camarada”.

No dia 21 de Outubro, cerca das duas da tarde, recebo um telefonema de um negro meu amigo. Tinhamos servido juntos no exercito. A mensagem foi rapida e clara. “Walter sai dai ja’ e regressa ‘a cidade!”. “Mas porque? O que se passa?” Ha’ um tiroteio na baixa entre Comandos da Metropole e a Frelimo e os negros estao a ir para a periferia gritando “Vamos matar os Brancos todos”. Agradeci, processei a mensagem no cerebro o mais rapido possivel.

Agarrei o microfone da fabrica e disse. “Amigos, parem de trabalhar. Uma vez mais vamos ter problemas entre nos e vai morrer muita gente. Vao para vossas casas e permanecam la’. Nao andem nas ruas, mantenham-se em vossas casas ate’ ser de novo seguro sair ‘a rua.

Protejam os vossos filhos e familias. Abandonem a fabrica imediatamente. Boa sorte a todos”. Desci para a porta da fabrica e fui acalmando todos pois seria mais seguro manterem-se em casa. Fui o ultimo a sair ficando apenas o Guarda de servico, uma vez mais.

A Clara Soares saiu pelo menos vinte minutos antes de mim, pois foi isso mesmo que eu lhe pedi. Saiu de carro, passou pela lixeira em direccao ‘a Craveiro Lopes. Ao chegar ao pe’ da

Praca de Touros ja’ haviam iniciado a matanca por incineracao de viaturas com as pessoas dentro. Pegaram-lhe no carro de um lado e esteve a 45 graus, vai nao vai, para ser virada de rodas ao ar e pegarem-lhe fogo. Ao que parece passou uma ambulancia e os atacantes largaram momentaneamente o carro para o chao. Ela aproveitou para escapar, e teve muita sorte.

Eu coloquei o capacete na cabeca, sentei-me na mota e sai para a Av de Angola em direccao ao Largo Jose’ Albasini, por ser o percurso mais perto para a seguranca aparente da cidade. O espectaculo da Avenida de Angola era angustiante, mais parecendo o Inferno de Dante. Varios carros virados de rodas para cima, rodeados por multidoes, que nao permitiam que ninguem saisse dando pontapes nas portas. Quando a gasolina do tanque comecava a escorrer, pegavam fogo ao combustivel. Os gritos de afliccao de dentro dos carros de homens, mulheres e criancas eram assustadores. Passei muitos carros nestas condicoes ate’ chegar ao Largo. Ninguem pensou ou fez mencao de parar-me; racionalmente eu optei por andar devagar para nao atrair atencoes. Uma serie de cenas que nao sao faceis de esquecer e com a qual tenho tido que viver ao longo dos tempos. Um milagre tinha sido responsavel por eu ter ido trabalhar de mota e nao de carro.

Claro que violencia chama violencia e como consequencia muita gente foi a casa buscar a sua arma de desporto e saiu para a rua com intencoes de matar, o que veio a acontecer.

No 21 DE OUTUBRO houve imensas atrocidades das quais quase ninguem quer falar, como se vee, mas todos - de uma forma ou de outra – assistimos ou soubemos de muitos casos em

que comprovadamente houve brancos e indianos misturados com as caras e bracos pintados de negro, para se camuflarem a incitar esses horrores para fazer fugir os brancos. Nao e' especulacao. Ha' provas disso, pois alguns foram baledaos e foram parar feridos ou mortos ao Hospital Miguel Bombarda. Nos Hospitais houve imensas provas de mulheres cuja vagina fora cortada por garrafas partidas, mulheres gravidas que viram o ventre cortado por garrafas quebradas e os fetos mortos da mesma forma, indicios claros de esperma na boca, e ouvidos alem da violacao tradicional pela vagina e anus, executadas por muitos homens; aconteceu a criancas e adolescentres e nao so' a adultos. Homens cujos sexos foram arrancados 'a mao ou cortados por garrafas partidas. Por parde dos brancos, muitissimos casos houve de vingancas executadas por gente que nao encontrou outra forma de se vingar senao a de entrar nos suburbios de carro, armada ate' aos dentes atirando em tudo e todos os que se mechiam fossem brancos ou negros. Como uma doenca viral, nessa tarde e noite, reinou a loucura de ambos os lados. Finalmente, o que nao tinha sido conseguido no 7 de Setembro, foi amplamente atingido pela politica do PCP e dos militares politizados de Abril.

Agradecam aos " VENDILHOES DO TEMPLO" do templo, por terem visto uma oportunidade de se fazerem ricos de repente. AGRADECAM A EXEMPLAR DESCOLONIZACAO em nome dos milhares de chacinados (falou-se na casa dos 4000) e feridos ( na casa dos 12000), dos e das que nao conseguiram mais sobrepor-se aos acontecimentos psicologicos que lhes foram impostos. Mostrem aos nossos amigos da Metropole que diferencas ha' entre a versao palaciana e rosada da DESCOLINIZCAO EXEMPLAR com a qual se congratulam os chulos do sistema e a VERDADEIRA DESCOLONIZACAO EXEMPLAR POIS NAO HOUVE PARALELO DE OUTRA TAO MA’.

Talvez o Lenine tenha chegado perto em numero de mortos..

Para quem pergunte a si mesmo, como sei eu, destes detalhes? Nao ha' nenhum misterio.

Andei 'a procura de um empregado nosso que desapareceu no 21 de Outubro. Fui 'a morgue, aos Hospitais, procurei nos suburbios junto de amigos dele etc. Nao era possivel dar todas esstas voltas sem deparar com o tipo de detalhes que descrevi neste breve resumo.

Alem do mais, depois de parar a tempestade, fui trabalhar na fabrica da Av de Angola. Todos nos negros ou brancos, indianos, chineses ou mesticos tinhamos uma historia para contar. Tivemos que trabalhar juntos no exercicio de confiar de novo uns nos outros.
O melhor remedio era conseguir colocar todos a falar uns com os outtros.

No 7 de Setembro, deu para parar sair do carro e falar, dialogar com alguem. No 21 de Outubro quem parasse por qualquer razao, teria o carro envolto por uma mole de gente, virado de rodas ao ar, e o combustivel incendiado, sem quaquer possibilidade de dialogo.

Como conveceram os distintos grupos a iniciar tal catastrofe?

Desde o 7 de Setembro que em lugar de policia havia uma quantidade de guerrilheiros da Frelimo a vaguear pelas ruas de metralhadoras AK47 em punho. A maior parte dos quais nao falava portugues nem nenhum dialecto de Mocambique. Nao se tratava de uma policia para manter a ordem mas de grupos mais ou menos isolados de guerrilheiros, cuja experiencia e contacto com portugueses se resumia ‘as emboscadas que preparavam nas frentes de combate do norte.

A pressao politica anti-branco e anti-portugues continuava implacavel. Usava-se a palavra Fascista por tudo e por nada, e fascista ia passando gradualmente a ser sinonimo de branco. Os insultos dos politicos portugueses e dos dirigentes Portugueses do Governo de Transicao nas noticias, eram diarios mas as pessoas habituam-se a qualquer coisa desde que a mudanca seja gradual, nao gostam mas nao reclamam desde que continue a haver trabalho e que possam ir para casa em seguranca ao final do dia. Nos nao fazemos ideia da capacidade de adaptacao das pessoas. Nesta fase, se um negro fosse atropelado por acidente, ja’ nao era acidente mas tinha sido de proposito e era fascismo. Um absurdo.

Mas a vida la’ ia andando, sarando-se as feridas do 7 de Setembro gradualmente.

De repente um navio que vinha com tropas especiais em direccao a Portugal, fez escala em Lourenco Marques. Uma companhia de comandos da Metropole, salvo erro a 3040 foi largada para passear pela cidade. Estava preparada a receita para o desastre. Naquele momento politico, colocar tropas especiais e guerrilheiros, que nos noticiarios eram pintados como vencedores e vencidos, era como se demonstrou inerentemente perigoso. Alguem arrastou uma bandeira de Portugal da trazeira de um carro? Ou foi um dialogo entre comandos e pessoas da cidade? Ou foi – ‘a laia dos tambores de bronze – alguem que atirou de um telhado perdido? Fosse qual fosse a razao que constituiu a chispa inicial, os Comandos foram ao navio buscar as armas e voltaram ‘a baixa da cidade. Armados de G3, emboscaram os guerriheiros da Frelimo e ‘a hora de saida dos empregos a baixa tornou-se rapidamente em zona de combate e de morte. Com homens civis , mulheres e criancas a circular pela baixa esta parte da cidade frente aos correios virou campo de batalha. Claro que as vitimas eram inevitaveis havendo muitos mortos militares e civis, brancos, negros, chineses, indianos, mesticos resultando em que os negros que trabalhavam na cidade saissem para a periferia para consumar as suas vingancas, em resposta ‘a carnificina da baixa. Por sua parte esta carnificina gerou a outra das armas desportivas.

Cada um tera’ passado o seu mau bocado e cada um tera’ a sua historia ou milagre para relatar mas isso serao apenas detalhes.

Conclusao. Com esta nova manobra destabilizadora, foi possivel instaurar o medo em todas as faccoes do espectro Mocambicano. Este medo generalizado deu azo a que a maior parte dos Mocambicanos mandasse mulheres e filhos para Portugal, eu incluido. Deu azo a que se pudesse generalizar a presenca dos guerrilheiros como num estado policial em que o exercito (nem ao menos era um exercito mas uma guerrilha analfabeta) e’ que policiava. Nos casos de acidentes, chamados a intervir, nao falavam a lingua e nao podiam comunicar. Deu azo a que muitos dos que pretendiam ficar se tivessem decidido a partir de vez. Deu azo a que os que ficaram eram na sua grande maioria os que teriam tido total dificuldade em arranjar emprego em Portugal. Quem era qualificado nalguma coisa foi trabalhar na Africa do Sul ou partiu de vez para Portugal, ou outros destinos como a Africa do Sul, Brasil, Australia, Canada etc, onde muitos nunca tinham vivido mas teriam amigos ou familia. Medicos, engenheiros, enfermeiras, contabilistas, mecanicos, electricistas, canalizadores etc quem tinha qualificacoes, de uma forma maioritaria partiu.

Os objectivos tinham sido finalmente conseguidos. Portugal viu reduzido pela morte e pela desconfianca o numero de retornados; Mocambique libertou mais quadros que nao fariam concorrencia aos mocambicanos sem qualificacoes. A retorica final de Samora Machel via

radio, quanto aos brancos deu a machadada final. Instalara-se o medo em todos e a aceitacao da guerrilha no seio da sociedade civil. Que mais poderia um governo totalitario de esquerda comunista desejar? Que melhor presente poderiam os camaradas da Internacional Comunista portugueses deixar de presente aos camaradas comunistas mocambicanos? Nao foi por acaso que Alvaro Cunhal veio a receber da Uniao Sovietica a mais alta condecoracao que podia ser atribuida a um cidadao estrangeiro.

Nunca se soube ao certo quantos morreram nesta estupidez politica mas foram muitos milhares. A minha mulher fazia bancos no Hospital e tratou desde pessoas com tiros a criancas estupradas e inutilizadas para a vida, tratou homens que tiveram os orgaos sexuais arrancados ‘a mao ou ‘a navalha; militares, civis brancos e negros, guerrilheiros baleados, homens, mulheres e criancas de todas as racas sem distincao morreram ou foram feridos. A contagem real nunca existiu. Para que? Estava instalado o medo, os regimes totalitarios de Portugal e Mocambique fizeram o seu trabalho preparatorio. Neste clima de inseguranca com metade das gentes de todas as racas e desconfiar da outra metade, e’ claro que se aceita QUALQUER coisa que prometa ainda que remotamente uma estabilidade ou uma seguranca.

Sintomaticamente foram libertados os presos de delito comum, mesmo os que estiveram envolvidos em assassinato. A desculpa e’ sempre a mesma, tinham sido presos pelos fascistas, ah o papao do fascismo. Cuidado com os comunistas. Ah o papao do comunismo! A velha maxima que reina ‘a seculos. Dividir para conquistar. Polarizar a populacao eram as palavras de ordem.

Era preciso criar espaco nas prisoes, para a operacao seguinte.

Em breve comecaram as prisoes de pessoas que nada fizeram de mal. Ah, (pequeño detalhe) mas tinham tentado juntar-se a partidos distintos da Frelimo. Como muitos, foi o caso do meu amigo Eng Armando Monteiro. A liberdade de pensamento chegou, cada um era livre para pensar o que quisesse, desde que fosse ao longo das linhas do Mao Tse Tung ou do Karl Marx. Passou a haver liberdade de imprensa, cada um comprava o jornal que queria. Mas quem lera politica ‘a pressa desde o sete de Setembro ja’ sabia com que linhas havia de cozer-se quem quizesse ficar.

Apostado em nao debandar e abandonar a empresa que afinal empregava mil pessoas e pelas quais nos sentiamos responsaveis, logo que passou a tempestade, regressamos todos ‘a fabrica. Conseguem imaginar que ressentimentos haveria entre 270 operarios que tiveram de sujeitar-se ‘as consequencias como todos os outros de tais politicas totalitarias e dos seus esquemas ditos “normais’? Como conseguimos reagrupar a Fabrica e como conseguimos trabalhar?

Juntos, terminando trabalhos que tinham sido iniciados em conjunto? A fabrica nao era apenas um grupo de brancos e negros. Havia gente de todas as racas, havia mulheres e havia homens mas todos tiveram que passar pela peneira dos mesmo medos, impostos totalitariamente a todos. A pessoa ao meu lado andou a matar? Quantos tera’ morto?
Mas conseguimos gradualmente sarar as feridas. Conseguimos continuar a produzir apesar do medo e da incerteza.

Em breve a Frelimo fez chegar os seus primeiros homens de topo como o Chissano que haveria de ser presidente, logo que o Machel fosse morto, claro. Mas isso sao coisas tipicas do totalitarismo da esquerda comunista Africana, era inevitavel, era uma consequencia colateral da vida moderna dita civilizada. Pois sim, quem investe e esta’ no terreno nao e’ o

mesmo de quem investe so’ capitais e permanece ‘a distancia para quem o melhor sistema e’ o comunismo, desde que sejamos nos a organiza-lo, claro. Ja’ viram que se pode mandar nacionalizar a concorrencia? Aumentar os impostos dos outros selectivamente? Colocar o Estado que controlamos pelo dinheiro pago aos politicos para nos comprar a producao inteira ao preco que nos convem e ter esse mesmo Estado a distribuir os bens por quem “merece” e “nao levanta cabelo”? Havera’ melhor sistema que um totalitarismo comunista? Claramente que nao!
Em breve houve a sessao de esclarecimento no Liceu onde estudei. Em breve estaria a ver e ouvir um optimo professor comunista (perseguido pela PIDE/DGS) a fazer discursos na sessao de esclarecimento da Frelimo, onde ele - o Dr Frescata - muito querido dos seus alunos e alunas discorria deliciado sobre o percurso de dois parentes comunistas que vieram finalmente encontrar-se ali em LM.

O seu sentimento de gaudio nao foi durador e em breve estaria tal como muitos na lista daqueles a quem foram dados 24/20 que era o codigo de “ponha-se a cavar em 24 horas com 20 kilos de bagagem!”, e FUTSEKA KONGOHONHACO! Voz populis, Poe-te a milhas seu cabrito grande…
Mais logo chegou a vez da sessao de esclarecimento alargada no campo de futebol da Machava, para todos, pois ali no campo de futebol cabe sempre mais um…
As alternativas para quem sabia ler eram claras. Havia para todos os gostos, comunismo tipo A e comunismo tipo B, e quem nao gostar ponha-se a cavar que nao faz ca’ falta nenhuma. Os camarada molungo que ficar no Xilunguine (LM) engole muito sapo ou da’ corda nos sapato e FAMBA TINHELA. Vos populis, va’ abaixo de Braga!
Assim ao equacionar o futuro dos meus filhos, era forcoso pensar que iriam aprender o C de culatra, o G de Gatilho, o B de bala, e o M de metralhadora …
O discurso do Camarada Samora era muito eloquente, mas no fundo depois de espremer tudo, dizia que Africa era para os Africanos …
Assim e apesar dos investimentos, das casas e bens, da responsabilidade pelos operarios a voz do futuro dos filhos foi mais forte e resolvemos COMECAR TUDO DE NOVO.
Portugal seria melhor? Na data de Junho de 1975 nao parecia nada melhor. Resolvemos dar um salto para o lado e esperar por melhores dias na Africa do Sul a ver o que acontecia na mae patria.

Problema Resolvido! Bem, realmente nao. Ainda tinhamos deixado o meu pai a cuidadr dos negocios da empresa, a ver o que daria tudo aquilo.
O livro ainda nao tinha sido fechado. Faltava o Pai. Mas isso sera’ para outro texto.

So’ quando parecia que iria de facto ficar melhor em Dezembro 1979 e’ que demos outro salto para a Europa. Toca a COMECAR TUDO DE NOVO.

Demoraria ate’ Junho de 1994 a politizar-me o suficiente para perceber que Portugal era dominada pelos banqueiros e so’ trabalhavamos para o banco, para o bronze e nada mais. Mas a minha politizacao mal tinha comecado. Tinha ainda muito que aprender, mas calma que entretanto tinha que COMECAR TUDO DE NOVO, OUTRA VEZ.

Walter D Gameiro


4. EU SAI POR VONTADE PROPRIA. O MEU PAI FOI OBRIGADO A SAIR DE MOCAMBIQUE

Em Junho de 1975, oito meses depois do 21 de Outubro – ninguem pode dizer que nao tentei lutar pelo que era nosso – saimos de Lourenco Marques em direccao a Johannesburgo, na
Africa do Sul.
Despedimo-nos do meu pai, que abracamos e partimos, buscando um futuro desconhecido.
Tinha percebido naquele momento da minha partida que a empresa que tanto suor lhe custou nao iria passar para mim. Nunca tinha visto o meu pai chorar.
Umas tres semanas antes tinha-me metido no carro e tinha ido a Johannesburg, falar com uma empresa especializada em Ar Condicionado; fui entrevistado e admitido para comecar a trabalhar no principio do mes de Julho. Telefonei para Portugal e fiz saber ‘a Fatima quais eram as minhas intencoes. Ela meteu-se no TAP e regressou a LM com os miudos.

Naquele sabado quente de Junho ‘as duas da tarde, tinhamos tudo a postos com os miudos no banco trazeiro, barco de corridas a reboque carregado ate’ onde era possivel e o meu irmao a guiar a mota que iria servir de arma de “distraccao”.
Este carro tem uma historia que vale a pena contar. Os meus pais tinham ido ‘a Alemanha uns dois anos antes, e compraram o carro la’, a meu pedido. Viajaram nele pela Europa e quando regressaram, o carro veio despachado de barco; tinha por isso volante ‘a esquerda ao contrario da maioria dos outros do mesmo modelo. Vem a proposito dizer que paguei um carro aos alemaes que o tinham fabricado, paguei outro ao governo Portugues pois a taxa aduaneira era na epoca de uns meros 100% e quando quis sair - teoricamente para ir fazer uma corrida na Africa do Sul e voltar – o Governo de Transicao de Portugal em Mocambique

(ainda nao era a Frelimo que mandava) fez-me pagar 50% de deposito aduaneiro. Assim este carro custou-me dois carros e e meio, sendo que um era legitimo e um carro e meio ja’ fora roubo.

Quando fui ao Banco para levantar dinheiro, o Banco Pinto & Sotto Mayor (de Portugal) nao permitiu – e era igual para todos – levantar mais do que 4 contos, isto e’, quatro mil escudos, independentemente da quantia que la’ estivesse depositada. A quem beneficiou o que la’ ficou depositado na minha conta? Ao Estado Portugues? ‘A Frelimo” Ao Banco Pinto & Sotto

Mayor? A verdade e’ que nao sei a quem apontar o dedo, mas a lei que cobria esta pouca vergonha foi criada por Portugal pois constava de um Decreto-Lei, nao era invencao do banco. Assim era a lei desde o 21 de Outubro.

Compramos por isso divisas externas no mercado negro e dado que as portas estavam a ser fechadas a quem queria fazer alguma coisa de positivo e nao apenas escrever relatorios a explicar, porque nao se podia fazer, demos corda ao carro, carregamos os tanques do carro e do barco equipado para provas de tres horas sem abastecer … e fomos em direccao ao futuro que nesta circunstacia era para Oeste, no rumo 270 graus.

Dentro da cidade andava-se mais ou menos normalmente pelo menos para quem nao estivesse atento. Logo que entramos na estrada e passamos a Matola – primeira terrinha na direccao da fronteira – o espectaculo era outro. Deparamos com um espectaculo em 1975 que veio a ser corriqueiro em anos subsquentes por toda a Africa, mas naquela data era inedito. Tropas infantis! Exacto, miudos de 10 a 15 anos devidamente armados com metralhadoras AK47. Faziam sinal para parar, e paravamos! E saia eu do carro de imediato com a maior parcimonia. A primeira paragem serviu para aprender “os comos e os porques”. De imediato

viamos um cano de AK4 apontado ‘a cabeca. “Onde Vais”? “Vou ‘a Africa do Sul mostrar aos racistas la’ quem faz corridas melhor!” “Tens armas?” “ Nao Senhor, nao tenho. Podes ver!”. “Documentos!” Entregamos os documentos do carro e por tres vezes (pelo menos) foram inspeccionados de cabeca para baixo. Via-se mesmo que estavam a ler ... Entretanto a mota com quatro escapes livres dava uma aceleradelas” Brum Brum Brum! Entao as atencoes desviavam-se para a mota, a Honda de 4 cilindros guiada pelo meu irmao Quim. A partir desse momento apenas se falava de “ 4 TUBO! Xarra! ”. Palravamos um pouco e 10 minutos depois davamos qualquer coisa de comer ou beber aos coitados que nem comida tinham para comer e andavamos de novo. Alguns quilometros depois repetia-se a cena. ‘As vezes havia um ou outro membro mais velho de 20-25 anos, mas predominava o “Soldado Infantil” que viria a caracterizar Africa nas decadas seguintes. Os meus filhos de 5 e 3 anos iam absorvendo os acontecimentos sem fazer barulho. A Fatima na presenca de armas la’ ia forcando um sorriso de vez em quando. Ao meu irmao e eu que tinhamos feito as nossas comissoes militares no norte de Mocambique, nao nos afligiam as armas e sabiamos lidar com miudos e africanos sem traquejo no manejo de armamento. Acima de tudo banalizamos a presenca das armas e falamos sempre como se todos fossemos amigos de longa data e sem ressentimentos. Tudo isto era um puro exercicio mental e nunca tivemos uma situacao que consideramos fora do nosso controlo. Perigoso e’ sempre, pois um garoto de 10 anos com uma arma automatica que dispara 20 tiros em 20 segundos apontada ‘a nossa cabeca, exige um certo grau de preparacao psicologica, mas nao podiamos perder o controlo nunca com dois miudos no carro. E nunca o perdemos.

Fomos parados para “Inspeccao”, talvez umas 12 vezes em 100 kilometros mas a cena sempre foi identica. Cada vez que paramos tratamos o assunto como “deja’ vu” e tudo correu bem.

Finalmente chegamos ‘a fronteira com a Africa do Sul. Do lado Portugues iamos apenas fazer uma corrida, bla’ bla’ bla’; do lado Sul Africano declaramos de imediato que iamos para residir e deram-nos de imediato os documentos que eram necessarios e os locais onde deviamos fazer o pedido; tudo organizado. Ninguem estranhava em Junho de 1975 que uma familia declarasse que pretendia residir na Republica da Africa do Sul. Todos eramos bastante fluentes em Ingles.

Depois de cumpridas as formalidades, apenas faltava subir a serra e chegar a Johannesburg a uns meros 540 kilometros sempre a subir, pois a cidade esta’ quase a 2000 metros de altitude.

Na primeira oportunidade paramos numa estacao de servico para ir ‘a casa de banho e comprar uma Cream Soda da Sparleta! Verde clarinha e docinha!
Tinhamos gasolina suficiente para abastecer carro e mota, a partir dos tanques do barco de competicao, na circunstancia promovido a barco de carga. Depois que ficou escuro e o frio comecou a apertar tinhamos que guiar a mota ‘a vez. O meu irmao vinha guiar o carro para se aquecer e eu ia guiar a mota para ele descansar.
Cerca da meia noite numa das paragens subindo a serra, meti a mangueira no tanque do barco e era necessario sifonar a gasolina, chupando duas ou tres vezes ate’ o combustivel comecar a correr. Claro que ja’ andavamos nisto ‘a tempo e o cansaco ja’ se fazia sentir, numa destas vezes a gasolina veio ate’ ‘a minha garganta e tive que a cuspir fora mas os gazes que ficaram na boca nao me deixavam inspirar e nao conseguia meter ar nos pulmoes. Durante uns dois minutos estava a ver que tinha chegado a minha hora. La’ lavei a boca com agua varias vezes e la’ consegui meter ar nos pulmoes.

O resto da viagem ate’ um Hotel da Holliday Inn foi apenas deixar rolar os kilometros e de madrugada fomos dormir. Estavamos a salvo na Africa do Sul, mas tendo abandonado a nossa vida, tinhamos que COMECAR TUDO DE NOVO.  Tanto eu como o meu irmao que estudou la’ conheciamos bem Johannesburg.

No dia seguinte depois de dormir fomos visitar os amigos. Ele ficaria uns dias apenas e regressaria a Lourenco Marques de comboio. Nos tinhamos que procurar casa nas imediacoes do Aeroporto pois o meu primeiro emprego era mesmo junto ao Aeroporto Internacional de Jan Smuts, o que significava que tinhamos de procurar casa em Kempton Park. Assim fizemos e moramos no numero 33 da Jakaranda Steet em Kempon Park. Arranjar casa era uma tarefa, esperar que chegasse o contentor com as nossas mobilias era uma coisa totalmente distinta. Tres dias depois de chegarmos ja’ tinhamos casa com electricidade, agua, jardim e alcatifas. Mobilias e‘ que nao havia, pois teriamos que aguardar. Compramos uma mesa de brinqueo em pinho para os miudos e dois bancos corridos de brinquedo, tambem em madeira de pinho. Era a nossa mobilia. Compramos uns pratos, uma panela e uma frigideira, quatro copos, talheres de supermercado e munimo-nos de muita paciencia, pois as mobilias chegariam dai’ a dias... Entao a Fatima e os miudos ficavam em casa no Ar Condicionado ou no Jardim ate’ eu chegar do trabalho ‘as seis da tarde, comiamos na mesa de brinquedo pois nao havia outra e ao final do dia iamos para um hotel. Esperamos mais de um mes ate’ que finalmente, num dia de nevoeiro, la’ chegou o contentor de madeira. Tinha chegado a hora de constatar o que entretanto nos tinham roubado do lugar onde tivemos que o colocar para ser inspeccionado pelo Governo de Transicao de Portugal e pela Frelimo, pelos tais guerrilheiros analfabetos que nao sabiam a diferenca entre isto e aquilo. Claro que – como a todos – roubaram muitas coisas, mas aquilo que nos ficou gravado na memoria apos 40 anos foram os brinquedos dos miudos que estavam ansiosos por ir brincar com “o meu carrinho de bombeiros” ou “a minha ambulancia branca”. Esse foi o maior impacto por ver os miudos desconsolados e experimentando pela primeira vez na vida as realidades de serem roubados das suas posses. No meu caso pessoal, nao permitiram que as minhas tacas e trofeus desportivos viessem. Provavelmente estao em casa de qualquer comandante que por certo se vangloriara’ das suas vitorias desportivas inexistentes. A minha mulher

Fatima embora desolada, nao deixou de comentar que pelo menos nao dariam trabalho a limpar ... e que como eram para ai’ uns 40 trofeus ao todo, nao deixei de dar-lhe razao. Porque haviamos de carregar aquela tralha? E nao se falou mais no assunto. Tinham chegado as coisas basicas, como a nossa cama, as camas dos miudos, uma mesa, cadeiras, comodas e os utensilios de cozinha, pratos talheres, enfim o basico.

A VIDA TEVE DE RECOMECAR DE NOVO

Quase diariamente havia chamadas telefonicas do meu pai que ficara sozinho em Lourenco Marques.
Falavamos de como iam as coisas, queria saber como ia o meu emprego, se tinha dificuldades, se ja’ tinha chegado o contentor. Como se adaptavam os miudos.
Quanto a falar de coisas futuras ou de dinheiro tinhamos de falar em codigo. De vez em quando havia portadores de um embrulho ou pasta de cartao com notas para trocar. Amigos dele ou amigos meus la’ iam trazendo notas cambiaveis no banco mas sempre a perder largamente.

Um dia a chamada de rotina foi diferente.

- “AMANHA A FRELIMO VEM BUSCAR-ME PARA ME PRENDER! “

Isto de ser socio de uma empresa dando emprego a mil pessoas, dava direito naqueles dias a ser automaticamente adjectivado como Fascista, Explorador, Ladrao da Economia, e sei la’ que outros adjectivos idiotas mais vinham nas cartilhas da Frelimo cujos dirigentes andavam a estudar na Uniao Sovietica, desde ha’ varias decadas.

Tinha aparecido um “amigo” de um primo nosso que era Capitao do exercito portugues e que comecou por dar-lhe muitas dicas. Era um Capitao da Forca Aerea Portuguesa que tinha ido para la’ treinar pessoal da Forca Aerea de Mocambique.

Ao que parece ficaram muito amigos, ou pelo menos o meu pai assim acreditou.

Nessa noite tivemos que falar em codigo durante mais de uma hora. Combinamos os detalhes ali sobre a hora, ao telefone.

De manha cedo o tal Capitao da Forca Aerea Portuguesa que ja’ morava la’ em casa, hospedado desde que tinha chegado, pos o Mercedes do meu pai a trabalhar, meteu o meu pai na mala do carro e fechou-a, como nos filmes. Conduziu ate’ ao Aeroporto e passou com o carro para dentro da vedacao ate’ um hangar. O meu pai saiu finalmente da mala e foi levado

‘a socapa para um aviao monomotor. Levantou voo e deu como rota, ir para o norte na direccao de Inhambane em voo de rotina. Cerca de meia hora mais tarde, baixou de altitude e passou a voar rente ‘as arvores “abaixo da altitude ‘a qual - sendo ele da Forca Aerea - sabia que o Radar nao os detectaria. Atravessou a linha da fronteira e aterrou na pista de Komatiport.

Pela nossa parte falei com um amigo que tinha um Cessna e voamos de Johannesburg para essa pista.
Chegamos uns minutos depois e o aviao dele ja’ tinha descolado de novo. Aterramos e caminhei ate’ ao meu pai que estava com as maos nos bolsos pois estava frio, e nada trazia a nao ser a roupa do corpo, uma camisa sem gravata e um casaco, de bagagem nada a nao ser o passaporte.

Aguardamos pela chegada da Policia da Fronteira, que nos conduziu ate’ ao edificio da fronteira onde regularmente tratariamos dos documentos. Ouviram a nossa descricao e declararam que tinham que o extraditar para Mocambqiue, segundo a lei Sul Africana. Expliquei tentando controlar os meus instintos belicos, que o matariam sem proveito para ninguem e que afinal eu era um residente legal, que me responsabilizava por todas as despesas incluindo a sua repatriacao para Portugal. O meu amigo Sul Africano e dono do aviao tentou igualmente argumentar com o Guarda Fronteirico mas nada logrou. Num ultimo esforco deitei mao aos mais extremos argumentos e tratando-se de um Afrikander tive que utilizar uma argumentacao racista para o persuadir, contraria ‘as minhas conviccoes, mas era uma ultima cartada, para evitar uma extradicao. Finalmente o homem cedeu e garantiu um periodo de um mes, sob a minha responsabilidade, tendo eu deixado a carta de responsabilidade que tinha preparado de vespera.

Levaram-nos de regresso ao aviao que permaneceu no parque da pista. Saimos do carro e despedimo-nos do Guada Fronteirico. Quando ele desapareceu na curva da estrada, o meu pai respirou fundo e embora nao tenha dito nada, eu senti nos olhos dele que tinha pensado naquele momento, que todo o fruto do trabalho de 30 anos no qual lutou como um leao para

nos dar uma educacao e uma vida decente tinha acabado de ser roubado. A empresa, a casan ao lado do Hotel Polana, os apartamentos que tinha para alugar na Isatex, os carros, os bens, as contas bancarias, enfim toda uma vida, tinha acabado de se esfumar naquele instante. Naquele momento do ano de 1976, aos 55 anos de idade, tinha passado num apice de uma vida boa de trabalho a,

TER DE RECOMECAR TUDO DE NOVO.

Ficou em nossa casa um mes e a minha mae veio de Portugal. Solicitamos outro mes. Finalmente partiu para Portugal onde teve de recomecar do nada outra vez.

Em 1978 chamou-me para fazer parte duma sociedade numa fabrica de Paineis Solares.
Meti ferias na empresa que me empregava em Johannesburgo, a Sulzer Brothers da Suissa como Engenheiro de Projectos e parti para Israel, pois era quem na altura, mais sabia de Energia Solar Termica. Fui aprender Energia Solar para o efeito, visitei varios Kibutz, fabricas de controlos electronicos, negociei com os Israelitas para a fabricacao em Portugal sob licenca e voei para Lisboa.

O meu pai, na altura que cheguei a Lisboa ja’ tinha sociedade numa empresa de Isolamentos Industriais com empreitadas em Sines, uma Constructora Civil a Mouceli, e estava a preparar a Fabrica de Colectores Solares SOLMOC.
Cheguei a Lisboa e fiz o projecto da Fabrica.
No dia que acabei o projecto o meu pai tinha ido ‘a obra a Sines ver como iam os trabalhos.

Chegou ‘a empresa cerca das seis da tarde onde eu o esperava com as copias dos desenhos e fomos para casa. Depois de jantar reunimos sobre os desenhos, discutindo detalhes e pormenores. Estava entusiasmado e cheio de vitalidade de novo com as novas perspectivas que se abriam. Cerca da meia noite fomos dormir.

‘As tres da manha, acordei estremunhado com a minha mae a chamar por mim. A essa hora tardia, fez um enfarte massisso e faleceu nos meus bracos.
Eu tinha aprendido muita coisa na vida, mas naquela noite eu nao sabia o suficiente para o manter vivo ate’ chegar o medico.
Teve uma vida de luta dura desde que saira de Riachos em 1949 para ir para Lourenco Marques com um contrato de seis anos para fazer parte da equipa que fez a instalacao do que viria a ser a primeira central telefonica automatica de Mocambique, naquele edificio ao lado do Radio Clube. Tinha estagiado em Liverpool para adquirir a tecnologia daquelas centrais telefonicas da epoca.

Ao fim dos seis anos foi de Ferias na chamada Licenca Graciosa e por seis meses vivemos em Riachos, onde fiz a quarta classe. Ao fim desse tempo regressamos a Lourenco Marques onde tinha comprado a quota dum senhor Hawk, um ingles que era socio de Joaquim Pereira Soares e de Antunes da Costa. A partir dai’ envolveu-se de todo o coracao para fazer crescer a Agencia Mercantil Lda. De uma pequena loja electrica chegamos aos anos 70 com mil empregados, tres lojas pegadas e escritorios no Predio Lusitana, uma loja na 24 de Julho, uma delegacao em Nampula e a fabrica na Av de Angola. Tudo o que tivesse electricidade, fazia parte da empresa. Fabricavamos Elevadores, Quadros Electricos para Casas, Fabricas e para Guindastes. Grelhas e Condutas de Ar Condicionado, Equipamento para Sinalizacao de Caminhos de Ferro. Fizemos um cais de Minerio Automatico e um Cais de Acucar Automatico. Vendiamos Electrdomesticos na loja pricipal, Equipamento e Instalacao Telefonica,

Empreitadas de electricidade em Edificios Civis e Fabricas Industriais, e Empreitadas para o Estado.

Apos o 25 de Abril com a ameaca de confiscarem as contas nos bancos, adquiriu varios carros de luxo como Porsche e Mercedes e fe-los transportar para o Brasil para os negociar la’.

No Brasil esses carros foram vendidos mas muitos clientes nao pagaram por inteiro e nao conhecendo as leis, acabou tendo prejuizos nessa operacao.
La’ por aquelas bandas, as leis nao sao tao importantes como quem se conhece sobretudo na Justica e na Policia. Isso era mais importante que pagar.
Viveria no Brasil por um ano, no Rio de Janeiro, onde comecou uma empresa de Ar Condicionado.
O meu pai foi um lutador, e na hora da despedida muitos amigos vieram despedir-se dele ‘a sua ultima morada em Paco de Arcos. Um dos Engenheiros Electrotecnicos oficial da Força Aerea o Cap Eng Guimaraes que com ele trabalhou, disse-me apenas. “O seu pai foi um GRANDE HOMEM, HONREM A SUA MEMORIA”!

Eu nao me comparo com o meu pai. Creio que tenho Honrado o nosso nome.
Tal como ele muitas vezes disse do pai dele, repito eu, “Tenho pena que ele nao esteja aqui para ver como vivo e onde cheguei”.

Walter D. Gameiro

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