sábado, 6 de junho de 2015

O Quinto Império - de Dominique de Roux / 1976 (em PDF)


 O Quinto Império - Dominique de Roux


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O livro simultaneamente mais interessante e mais valioso entre tantos que, depois de Abril de 1974, se escreveram sobre Portugal, é sem dúvida o de Dominique de Roux, «Le Cinquième Empire» (Ed. Belfont, Paris).

A tese do autor é a seguinte: Portugal foi o último dos impérios e seu termo, dado agora, abre a história da humanidade para o Quinto Império, aquele que, anunciado nos libros da tradição mais sagrada e mais secreta, será o império da universalidade. Em termos mais correctos: encerrado o longo ciclo de imperialismo, a humanidade vai entrar no ciclo do universalismo. Ao poder na terra e no tempo, sucederá o poder do uno e do espírito. A dissolução do último império terrenal, equivale à putrefacção, ou saturnificação, onde germinará a flor.


(Foto - Dominique de Roux em Moçambique, com o actor francês Maurice Ronet)

No que tem de narrativo (toda a história da preparação e execução do 25 de Abril), o livro de Dominique de Roux é uma minuciosa descrição de um povo putrefacto. A famosa lamentação shakespereana de que «algumas coisa está podre no reino da Dinamarca», pode completar-se agora com a exultação de que «tudo está podre no reino de Portugal». Isso explica que, sendo este livro o mais interessante e valioso de quantos se publicaram sobre Portugal, seja também o mais silenciado, o que «ninguém leu», o que nenhum jornal noticiou. Com efeito, todos ali figuram mergulhados na podridão, desde os campeões militares e os caudilhos políticos que executaram o golpe até aos homens e mulheres mais em evidência na velha e na nova sociedade portuguesa. Todos são descritos «en su tinta»; os campeões militares, por exemplo, surgem em ambientes e actos, em que o autor também participou, vividos na guerra do Ultramar de cuja realidade e sentido todos foram igualmente ignorantes, moscas saturninas e tontas.

Dominique de Roux era uma personalidade enigmática: jornalista de celebridade mundial, era também «intelectual», de um tipo que os jornalistas nunca são; nos campos de guerra em África, entrevistava, antes do 25 de Abril, Kaulza, Spínola e Otelo, e, depois do 25 de abril, Jonas Savimbi, mas ao mesmo tempo fundava e dirigia a colecção «10-18», que todos nós conhecemos, e organizava os sucessivos números da revista «Exil». Nos primeiros dias que se seguiram ao golpe de Abril, três diários comunistas publicavam a várias colunas da 1.ª página o seu retrato com a legenda: «à solta em Portugal um dos principais agentes da reacção internacional...». Tinha preocupações de aristocrática elegância e havia quem dissesse que era um dirigente da polícia secreta francesa, o que este seu livro permite confirmar... Morreu de repente, quando acabava de publicar o «Cinquième Empire» e dias depois da invasão do Congo pelos comunistas de Angola. Há quem diga que foi assassinado.

Ao lermos o «Cinquième Empire», mais uma vez evocamos o antiquíssimo mito de como tantas vezes se vai procurar longe o que se tem à mão. Procurando a «flor azul» na distância impossível de percorrer», Dominique de Roux só pôde conhecer, do último império, a putrefacção. Nunca foi aonde o mito do império do espírito é todos os anos celebrado, embora ponha em epígrafe do seu livro um poema de Natália Correia, e não mostra conhecer (exceptuada uma apressada alusão a António Telmo) aqueles que, como Agostinho da Silva, melhor lhe poderiam falar. O jornalista atraiçou o intelectual. Ofuscado pelas vedetas, passou ao lado do que buscava e não o viu. Condenou-se a só ver a podridão (in Escola Formal, 1977, p. 9).
in Tudo podre no reino de Portugal, Escrito por Orlando Vitorino

***

"A realidade, que jornalistas e jornalismo - o estilo duma época - esconderam, este romance, trazido pelo abalo telúrico da Revolução portuguesa, revela-a.
Pelas vias sinuosas da literatura, «O Quinto Império» encontra e ultrapassa a verdade das coisas. E se o romance é mais verdadeiro que a vida, é evidente que os personagens - não as situações e os factos - pertencem a este duplo estado da ficção e do sonho.
Este romance é ainda um documento: guerra subversiva em Moçambique... sufocação salazarista... figura barroca de Spínola... fracasso da operação «Nó Górdio» sob as ordens do general Kaúlza de Arriaga... prisão da Machava... intrigas do grande capital que foge e volta para matar... viravoltas de Jorge Jardim, o Honroso Cônsul do Malávi... assassinatos (Delgado, Cabral)... Movimento dos Capitães... conspiradores de Beja... Otelo, o «estratego» e Melo Antunes fardado de génio da filosofia... manobras abortivas do Presidente Costa Gomes (Chico para os íntimos)... Álvaro Cunhal, velho «aparatchik» só obedecendo à devoção... Almirante Américo de Deus Thomaz, sempre Presidente da República Portuguesa no Hotel Miramar (Rio de Janeiro)... Tantas crónicas venezianas sobre a corrida ao poder e a vontade do poder humanista no âmago do buraco português, nosso espelho.
Mas olhai bem para a capa, quadro de Velasquez, "A Rendição de Breda»: sob um certo ângulo, aparece uma imagem, a da morte, fundamento de toda a anamorfose. Assim, o general Spínola, vencedor em Breda (1627), recebe, neste livro, a rendição do outro Spínola, a 25 de Abril de 1974, em Lisboa, lugar à parte do mundo." (Dominique de Roux)


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Lisbonne, immédiatement - Par Olivier Frébourg. Sobre Dominique de Roux

QUI SE SOUVIENT de l'Avenida Palace ? À Lisbonne, au pied de l'avenue de la Liberté, cet hôtel était le paquebot de la Vieille Europe, amarré à la gare du Rossio : tentures or, fauteuils clubs vert amande, lourdes boiseries. Il y a quinze ans, on y buvait des cocktails internationaux, comme le monocle, servis par des barmen en livrée. L'hôtel, protégé par la naphtaline, est resté fermé de longues années à cause de la construction du métro : les murs vibraient sous les coups des marteaux-piqueurs, les parquets tremblaient. Au coucher du soleil, quand le Tage lance sa poussière d'or sur la ville, tout devenait plus calme et le fantôme de Dominique de Roux demandait ses clés : chambre 601.
Cet écrivain aimait les camps retranchés, les forts assiégés, les chantiers impossibles. Aujourd'hui, les touristes français viennent passer le week-end à Lisbonne : Pessoa dans une main, le Guide du routard dans l'autre.
Le matin du 25 avril 1974, un seul Français marche sur l'avenue de la Liberté : Dominique de Roux. C'est lui qui donnera à la France les premières images de la révolution des Œillets. Dans les années 1970, la France pompidolienne prend plutôt ses quartiers d'été en Espagne. De Roux préfère avril au Portugal. Il a pourtant bien connu Pompidou. L'été 1966, il a fumé le cigare à Cajarc, dans la propriété du futur président, avec l'éditeur Christian Bourgois, Olivier Guichard et Guy Béart.
Le comte Dominique de Roux connaît presque tous les barons du gaullisme de la Ve République. Michel Debré, Chaban-Delmas ont assisté à son mariage avec Jacqueline Brusset, la fille du député maire de Royan. Mais l'écrivain, l'éditeur, le grand reporter, l'intellectuel, l'imprécateur, le guérillero Dominique de Roux, né en 1935, est possédé par la construction d'un cinquième empire, un royaume ultramarin, africain, métissé, poétique : « Plus grand sera le désastre, irrémédiable, plus le cinquième empire sera proche. C'est notre promesse, notre blessure. » Ce sera la Lusitanie.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Rússia. Dia 9 de Maio começa oficialmente a Guerra Fria do século XXI - Pag 1 de 3 | iOnline

Putin
convidou os líderes da China, Irão, Egipto, Coreia do Norte, Venezuela,
Turquia e Grécia para assistirem ao 70.º aniversário do fim da II
Guerra Mundial. O Ocidente fica de fora, com a NATO dividida
Por António Ribeiro Ferreira, Jornal i
publicado em 14 Mar 2015 - 18:00


O
divórcio oficial entre a Rússia e os seus aliados, por um lado, e o
bloco ocidental, por outro, vai acontecer em Moscovo, no dia 9 de Maio.
As comemorações do 70.º aniversário do fim da II Guerra Mundial marcarão
o princípio de uma nova ordem mundial. Ao lado de Putin estarão o
presidente da China, Xi Jinping; do Irão, Ali Khamenei; do Egipto,
marechal Sisi; da Coreia do Norte, Kim Jong-un; da Venezuela, Nicolás
Maduro; da Turquia, Erdogan; e da Grécia, Tsipras, entre outros líderes
de países, como a Bielorrússia, que sempre estiveram ao lado de Moscovo
nos bons e maus momentos. Obama, Merkel, Hollande, Cameron e tantos
outros vão ficar de fora, com a NATOa ver dois dos seus membros ao lado
de Putin. A Guerra Fria do século XXI vai, assim, começar oficialmente,
muito embora as relações entre o Leste e Oeste nunca tenham sido felizes
e muito menos amistosas.

As humilhações russas Basicamente, a paz durou pouco tempo e só
existiu verdadeiramente na última década do século XX, com a Rússia de
gatas depois do fim da Guerra Fria e da queda do império soviético e da
Cortina de Ferro. Com Boris Ieltsin ao leme, Moscovo viveu tempos
difíceis e teve de sofrer várias humilhações de um Ocidente arrogante
com a vitória alcançada. A mais grave aconteceu em 1999, quando a NATO,
leia-se os Estados Unidos, declarou guerra à Sérvia por causa da
ocupação do Kosovo. Belgrado era então o único aliado de Moscovo nos
Balcãs e umas semanas de bombardeamentos chegaram para pôr fim ao regime
pró-Rússia de Milosevic. A Rússia engoliu a humilhação e Boris Ieltsin
passou os comandos do Kremlin ao desconhecido Vladimir Putin. Iludidos
com o novo líder, os vencedores ocidentais voltaram ao ataque e levaram a
Geórgia a tentar recuperar a Ossétia do Sul e a Abecásia. O conflito
começou em Agosto de 2008, quando tropas da Geórgia avançaram,
decididas, para a Abecásia. Tudo acabou em Outubro. Putin, já líder
incontestado da Rússia, enviou as suas tropas e obrigou os georgianos a
recuar de forma desordenada. Só então o Ocidente percebeu que tudo era
diferente e que a velha Rússia estava de volta.

Ofensiva da NATO Mas antes da ofensiva da Geórgia, a NATO e os
Estados Unidos avançaram decididos para leste e integraram em 2004, na
Aliança Atlântica, os três países bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia
– e a Polónia. A Rússia ficava com quatro países integrantes do velho
inimigo junto à sua fronteira.

Ucrânia, o espaço vital Agora, em 2014, 14 anos depois da chegada de
Putin ao poder, nova ofensiva ocidental, desta vez na sensível Ucrânia,
velha relíquia da Rússia dos czares e da União Soviética, que só
conheceu a independência em 1991. Evidentemente que a Ucrânia sempre foi
uma região disputada por russos e alemães. Hitler definiu-a como o
espaço vital alemão e Estaline via-a exactamente da mesma maneira. Em
2014 surgiu a oportunidade, há muito esperada pelo Ocidente, para pôr o
pé na Ucrânia. E foi assim que, a reboque da Alemanha de Merkel, a União
Europeia tentou o presidente pró-russo Yanukovitch a assinar um acordo
de parceria muito aplaudido pelos ucranianos do Oeste. Putin chamou
Yanukovitch a Moscovo e obrigou-o a assinar uma parceria com a Rússia.

Os protestos na Praça Maidan, em Kiev, subiram de tom, alimentados
por forças nacionalistas e fascistas. O massacre de dezenas de
manifestante em Fevereiro, crime que ainda hoje não está esclarecido,
fez cair Yanukovitch.

Na madrugada de 23 de Fevereiro, Putin tomou duas decisões: salvar o
seu aliado ucraniano e trazer a Crimeia de volta à Rússia. E decidiu
também criar uma zona de segurança junto à fronteira com a Ucrânia, que
sonha agora integrar a NATO. Com a Crimeia anexada e as regiões de
Donetsk e Lugansk controladas, Putin garante o acesso ao mar Negro e ao
oceano Atlântico e protege a sua fronteira dos avanços da NATO.

A aliança com a China A posição russa face ao Ocidente é, nesta fase
do conflito, defensiva. Moscovo quer uma nova ordem na Europa, com novos
acordos sobre segurança e armas convencionais, e responde à ofensiva
ocidental com alianças estratégicas que podem alterar rapidamente as
relações de força no mundo. A mais importante é com Pequim. Não é apenas
uma parceria energética; é uma aliança militar e política em que os
dois países estão juntos em todos os teatros internacionais. Mas se
Moscovo se voltou para a Ásia, também não esqueceu o Médio Oriente. Além
do Irão e da Síria, a Rússia voltou a ter no Cairo um amigo.

O mundo está a mudar. E a Guerra Fria está de volta.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BONIFÁCIO GRUVETA MASSAMBA, 1942-2011: UM LIBERTADOR. por ABM (in delagoabayword.wordpress.com)

Até esta manhã nunca tinha ouvido falar de Bonifácio Gruveta.
Mas um curto sms de um amigo meu de Moçambique ao fim desta manhã despertou-me a atenção.
A mensagem, quase críptica, dizia apenas “morreu o bonifácio, uma das figuras mais tenebrosas da frelimo, que ordenou os fuzilamentos do campo de futebol de quelimane.”
Fui ver na internet quem era, ou melhor, foi, Bonifácio Gruveta.
Bonifácio Gruveta Massamba, ultimamente general na reserva, deputado com assento na Comissão Permanente do parlamento moçambicano, alto quadro dos históricos da Frelimo, ex-Coordenador da Região do Delta no Gabinete do Plano do Zambeze. membro do Conselho de Estado por efeito do Despacho Presidencial Nº133/2005, de 14 de Dezembro desse ano, e “empresário de sucesso”, terá sido um dos originais, verdadeiros Libertadores moçambicanos.
Tinha 69 anos de idade.
Ele estava lá desde o Início, ou seja de 1964, e nos meandros da guerrilha, ao ponto de parodiar, numa entrevista que concedeu ao Diário da Zambézia de 8 de Setembro de 2010 (entrevista dada no dia anterior na conceituada se algo atribulada Universidade de Mussa Bin Bique, que na altura lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa) se de facto teria sido ele e não Alberto Chipande a dar o tal famoso primeiro salvo nas guerra para expelir o vírus lusitano das terras de Moçambique. Ele sugere que não foi Chipande. Não que interesse muito, mas enfim, a versão Chipandiana já fazia parte do folclore nacional e da aura daqueles tempos.
Assunto pelos vistos de interesse nacional, e que fez jorrar rios de tinta nos jornais, a julgar inclusivé pelo texto do oficioso Notícias de Maputo de hoje (28 de Setembro de 2011), onde, não se sabendo ainda que Bonifácio havia falecido (nenhum jornal tendo por isso noticiado a sua morte) Eliseu Machava rosnava contra os detractores da versão chipandiana do Tiro Original e descreve em detalhe o primeiro tiro da guerra pela Independência, que terá sido desferido contra os famigerados colonialistas às 19 horas do dia 25 de Setembro de 1964 na localidade de Chai. Foram onze os libertadores, para além do então jovem Chipande, um tal António Chicapa.
Mas Bonifácio na ocasião da sua investitura com o Honoris Causa foi mais incisivo noutros temas. Referindo-se a recentes livros de “memórias” dos seus colegas da Libertação Sérgio Vieira e o legível “Voo Rasante” de Jacinto Veloso, disse – e cito: ““Tudo aquilo que os meus companheiros escreveram não é verdade, por isso, tenham calma”.
Como? o quê? é tudo mentira?

Constituição e Estado - por Sérgio Vieira, jornal 'O País'. 17-02-2015


Há muito que lutamos para nos afirmarmos como um Estado de Direito.
Não se trata de um processo célere. Há que reconhecer que a criação das zonas libertadas constituiu um primeiro passo. A independência um segundo. A Constituição de 1990 um outro. Uma marcha longa implica muitos e numerosos passos, a nossa caminhada surge como uma enorme maratona.
Durante muito tempo, democracia significava o fim do colonialismo, do racismo, a afirmação da dignidade, seres humanos como os outros, sem que cores da pele, origens étnicas, opções religiosas ou filosóficas implicassem qualquer aumento ou diminuição de direitos.
A herança pré-colonial e colonial não nos habilitavam enquanto povo à democracia e aos conceitos actuais de Direito, dos direitos democráticos e humanos. O poder pertencia a certas famílias, à aristocracia local. Esta guerreava-se com outros clãs, tribos e no exercício uniu-se a esclavagistas, invasores e colonos. O povo podia vender-se, escravos não datam da conquista colonial. O conquistador colonial reduziu os poderes destes senhores, colocando-os no escalão inferior da administração e tornando-os meros recrutadores de trabalhadores forçados, cobradores de impostos e encarregues de dirimir pequenos conflitos entre os súbditos.
Nas zonas libertadas, emergiu o conceito de dirigentes eleitos, servidores do povo, surgiram instituições para julgar os crimes, resolver conflitos. Princípios modernos de Direito começaram a afirmar-se.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mohamed Reza Pahlevi, 'a espada do Ocidente'

transcrito do blog 'Estado Sentido' este texto de Nuno Castelo Branco

Recordo-me como se hoje fosse, de ver entrar no porto de Lourenço Marques, os grandes petroleiros que desobedecendo ao embargo imposto pela ONU e muitos dos nossos aliados oficiais - EUA, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, por exemplo -, vinham reabastecer os depósitos de crude da refinaria da Sonarep (1) na Matola. As chaminés ostentavam invariavelmente as cores persas e o leão coroado, símbolo do velho império de Ciro que sobrevivera a invasões, períodos de ocaso e de ameaça de colonização.

O Xá Mohamed Reza Pahlevi foi um homem esclarecido e tendo convivido com algumas gerações de políticos de renome mundial, conhecia bem a importância da presença portuguesa em África, procedendo em conformidade com as mais estritas regras da diplomacia internacional. A voz do Irão na ONU, nem sempre condizia com os factos da normal e dura realidade material das coisas. Nele, Portugal sempre teve um amigo. Tornando-se imperador em 1941 por imposição dos Aliados, Reza Pahlevi teve de se conformar com a invasão e ocupação do seu país por russos e ingleses (2), conscientes da importância estratégica do Irão e da imperiosa necessidade de controle das jazidas petrolíferas do Golfo Pérsico. Na Conferência de Teerão, um arrogante Winston Churchill dizia-lhe que ..."pode Vossa Majestade chamar Irão ao seu país, que para mim, que não me atemorizo, será sempre a Pérsia"... 

Manoel Cordo Boullosa (1905-2000)

Natural de Lisboa, onde nasceu a 5 de Dezembro de 1905, quarto filho de Manoel Cordo Martins e Leocadia Boullosa, um casal galego que se dedicava ao comércio de vinho e carvão, veio a falecer no passado dia 6 de Abril, na Quinta dos Pesos, onde residia, em Caparide, São João de Estoril. Órfão de mãe com apenas um ano de idade, partiu, por essa razão, para a Galiza, onde foi entregue aos cuidados de sua tia Amalia. Efectuou a instrução primária em Pontevedra, numa escola que actualmente ostenta o seu nome, tendo regressado a Lisboa aos nove anos, após ter completados os primeiros estudos. 

Aos dezasseis anos, após ter concluído o curso comercial, Manoel Boullosa começou a trabalhar com o pai, auxiliando-o no negócio da venda de carvão. Dois anos mais tarde adoeceu gravemente, com uma tuberculose. Em Portugal as possibilidades de tratamento eram muito reduzidas, tendo por isso o pai decidido enviá-lo para um sanatório na Suíça. Uma resolução tomada com grande sacrifício, uma vez que para tal se viu obrigado a vender três prédios de que dispunha em Lisboa, adquiridos no decurso de uma vida de intenso labor, a fim de custear os dispendiosos tratamentos. No entanto, a estadia na Suíça foi amplamente benéfica para o jovem Manoel. Conseguiu curar-se da terrível enfermidade, conheceu a sua primeira mulher e abriram-se-lhe as portas para o negócio do petróleo, por intermédio de Pedro Bessa Pais, filho do malogrado presidente da República Sidónio Pais, o qual lhe apresentou o irmão António, que naquela época era concessionário da Shell. 

Uma vez regressado a Lisboa, resolveu aproveitar os conhecimentos contraídos na Suíça, reconvertendo o negócio paterno das carvoarias, e dedicando-se ao fornecimento de combustíveis para automóveis, tendo fundado, alguns anos depois (em 1933), a Sociedade Nacional de Petróleos (Sonap). Estavam lançadas as bases de uma bem sucedida carreira empresarial na área dos combustíveis, que incluiu investimentos importantes em Moçambique ­onde foi proprietário da refinaria Sonarep, construida na década de O60­ e na África do Sul ­onde instalou uma distribuidora de comnbustíveis­, tendo ainda realizado uma forte aposta no Complexo Industrial de Sines, do qual foi um dos grandes mentores, mas de que nunca chegou a ver os resultados em virtude da sua posterior nacionalização. No entanto, nunca deixou de acompanhar a situação no mercado petrolífero, e só já após ter completado noventa anos de idade admitiu abrandar o seu ritmo de vida. 

SONAREP - A Refinaria de Lourenço Marques - Matola


A Sociedade Nacional de Refinação de Petróleos - SONAREP - foi a primeira refinaria construída em Moçambique. 

A ninguém pode restar dúvidas acerca do interesse verdadeiramente nacional da iniciativa de construir uma refinaria em Moçambique. De facto assim entendeu o Governo da Nação e em boa hora o fez acolhendo com carinho a iniciativa e a proposta feita em 1958. 

Estudadas as bases e definidas as condições de concessão de alvará, foi o processo mandado submeter à apreciação do Conselho de Governo da Província de Moçambique, a qual deu o seu parecer favorável.Assim, em 21 de outubro de 1958, o Ministro do Ultramar, por despacho, estabelece as condições a que deveria obedecer a instalação da refinaria. 

O Empreendimento, que resultou do estreito contacto mantido com o mercado de petróleos da zona de África e de um estudo sistemático baseado no parecer autorizado de técnicos da especialidade, só poderia tornar-se uma realidade desde que se afastasse a idéia rígida dos números e a ânsia de multiplicar os lucros. 

Felizmente, tudo concorreu para que a obra se materializasse e assim em 28 de Maio de 1961, dentro do prazo previsto, é inaugurada oficialmente a primeira refinaria de Moçambique. 


Refinaria


Num periodo em que todos os países defendiam ciosamente as suas divisas, a instalação desta nova industria em Moçambique, trouxe, por um lado, a vantagem da diferença de preço entre o petroleo bruto e o petróleo já refinado,e, por outro, o benefício que se obteve com a exportação do produto para os mercados Africanos e consequente entrada de divisas. 

Desde o primeiro momento a província inteira acolheu com entusiasmo a iniciativa. A garantia que seriam tomadas medidas para a defesa do consumidor e que a nova industria nunca pesaria como um fardo na economia local à custa de preteccionismos deslocados consolidou no espírito de todos a obrigação moral de apoiar aqueles que pretendiam elevar o nível industrial ponde de parte a ideia do lucro, que , como é óbvio, ninguém podera esperar nun futuro próximo. 

Foram imobilizados nesta construção, segundo Manuel Bulhosa (1) presidente do Conselho de administração e seu accionista majoritário, 220 mil contos, aos quais a provincia participou apenas com 50mil, e ainda somente despendeu inicialmente 10 mil, sendo os restantes , integralizados em anos, conforme planejamento pré-aprovado.. 

Destes 220 mil, 70 mil foram empregues em trabalho e materiais obtidos em Moçambique,através da industria local, que foi eficiente e altamente dedicada. 

Houve portanto uma decidida transferencia de capital para Moçambique, quer através dos dispendios em moeda local quer através de apetrechamento importado e que ficou definitivamente incorporado no patrimônio económico de Moçambique. 

A capacidade de laboração, ao ser inaugurada a refinaria, era de 13 000 barris diários o que, para certos tipos de petróleo bruto, podia representar a possibilidade de produção efectiva correspondente a mais de 600 mil toneladas anuais 

A refinaria já foi projectada para ampliação necessária para elevar a produção da mesma para o total anual de 1 milhão de toneladas.