quinta-feira, 30 de junho de 2016

O MISTÉRIO CAMARATE

Uma denúncia de facto explosiva: Fernando Farinha Simões falou numa «conexão» envolvendo a CIA, a secreta francesa, traficantes de armas, Henry Kissinger, Oliver North,Frank Carlucci, conselheiros da Revolução, o Grupo Bilderberg  e …Pinto Balsemão, que terá tido conhecimento atempado de que o atentado estaria a ser perpetrado e nada fez para o evitar.

A confissão espontânea (?) de Fernando Farinha Simões fora obtida na prisão de Vale de Judeus  onde cumpre seis anos e meio de prisão por agressões, ameaças à jornalista e sequestro da apresentadora da TV, Margarida Marante, com quem manteve uma atribulada relação. O texto da contrição foi passado ao amigo de longa data que o foi visitar, José Esteves, bombista confesso, bruxo nas horas vagas, ex activista dos CODECO no Verão Quente de 75, antigo guarda costas de Freitas do Amaral, «and so on», que numa entrevista à extinta revista «Focus«, chegou também ele a confessar a autoria do atentado que vitimou Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. 

Ele e o comparsa, que há vários anos tentam procurar dividendos – estranhamente, sem serem incomodados pela justiça e pelas várias comissões de inquérito parlamentares, da autoria da morte do antigo primeiro ministro e do ministro da Defesa que viajavam com as mulheres no Cessna que se  despenhou em Camarate em 1980 –  não são pessoas de fiar, se bem que ambos se tenham relacionado com o que há de pior na escória do intriguismo político à escala global, da espionagem, do tráfico de armas, sendo esta a causa provável apontada  para a eliminação de Adelino Amaro da Costa e Sá Carneiro por «ordem» de um complot que envolveu a CIA, Frank Carlucci, Henry Kissinger, Oliver North, conselheiros da Revolução portugueses e oficiais generais então no activo, sendo também referenciado…Francisco Pinto Balsemão, a quem Fernando Farinha Simões denuncia de ter tido conhecimento com antecedência do atentado por via dos seus amigos no Grupo Bilderberg, que decidiu que após afastar o então líder do PSD (pois este era pouco susceptível a aliciamentos) iria assumir a chefia do Governo.


ESTEVES JÁ DENUNCIARA TENTATIVA DE ALICIAMENTO

Sublinhe-se, a propósito, que em Abril de 1995, quando José Esteves foi testemunhar perante a V Comissão de Camarate, afirmou que fora aliciado com 80 mil contos – 400 mil euros em números actuais – para incriminar o general Ramalho Eanes. De acordo com o suspeito, a oferta terá sido feita pelo seu antigo patrão, Francisco Pessoa, que afirmou estar a agir em nome de um grupo de pessoas que incluía o cartoonista e principal defensor da tese de atentado, Augusto Cid. À saída da audiência, e numa atitude até então inédita, visto que a comissão funcionava à porta fechada e estava obrigada ao segredo de Justiça, Augusto Cid anunciou aos jornalistas que iria processar José Esteves, tendo acrescentado que, por terem sido ainda mencionados os nomes de Francisco Pinto Balsemão e Freitas do Amaral como sendo amigos de Francisco Pessoa, estes estariam igualmente na lista dos suspeitos da tentativa de aliciamento a José Esteves. O advogado de José Esteves, Rui Santana, esclareceu depois os jornalista que eram falsas as declarações de Augusto Cid, pois o seu cliente nunca dissera que o ex-primeiro-ministro Pinto Balsemão e o ex-ministro da Defesa, Freitas do Amaral, constariam do grupo que o tentara aliciar. Mais tarde, durante as investigações da TVI, foram revelados documentos de movimentos bancários de José Esteves, através de uma conta sua em Espanha, onde teria cerca de 60 mil contos – 300 mil euros. Para além desta violação do sigilo bancário, a TVI revelou ainda, em notícia de abertura do “Novo Jornal”, os passaportes angolanos e portugueses de José Esteves e mostrou documentos de identificação para circulação no aeroporto de Lisboa, em 1990, altura em que José Esteves poderia ter tido acesso directo ao local onde estavam depositados os destroços do Cessna de Camarate.»

mais recentemente em Lisboa, Sô Zé (José esteves) 
e Fernando Simões, 'atentando' contra uma sapateira


Agora, nova peripécia surge neste caso Camarate, quando, estranhamente, o link que O Crimedigoeu  publicou onde constava essa confissão de Fernando Farinha Simões foi apagado por José Esteves. Por que o fez, ele que se mostrara tão exuberante em denunciar o complot montado para assassinar Sá Carneiro?  E logo coincidindo com a data de entrada em funções de uma nova Comissão de Inquérito, que deverá iniciar a sua actividade no próximo mês de Setembro, ele que também se mostrara tão disponível em prestar depoimentos à mesma? Estranho, muito estranho…


A CONFISSÃO NA INTEGRA

Embora o vídeo ainda possa ser encontrado na net, não no youtube onde surgiu pela primeira vez pela mão de José Esteves, voltamos a publicar na íntegra o seu conteúdo :

1. Eu, Fernando Farinha Simões, decidi ?nalmente, em 2011, contar toda a verdade  sobre Camarate

No passado nunca contei toda a operação de Camarate, pois estando a correr o processo judicial, poderia ser preso e condenado. Também porque durante 25 anos não podia falar, por estar obrigado ao sigilo por parte da CIA, mas esta situação mudou agora, ao que acresce o facto da CIA me ter abandonado completamente desde 1989. Finalmente decidi falar por obrigação de consciência.

2. Fiz o meu primeiro depoimento sobre Camarate, na Comissão de Inquérito Parlamentar, em 1995. Mais tarde prestei alguns depoimentos em que fui acrescentando factos e informações. Cheguei a prestar declarações para um programa da SIC, organizado por

3. Emílio Rangel, que não chegou contudo a ir para o ar. Em todas essas declarações públicas contei factos sobre o atentado de Camarate, que nunca foram desmentidos, apesar dos nomes que citei e da gravidade dos factos que referi. Em todos esses relatos, eu desmenti a tese oficial do acidente, defendida pela Polícia Judiciária e pela Procuradoria Geral da Republica. Numa tive dúvidas de que as Comissões de Inquérito Parlamentares estavam no caminho certo, pois Camarate foi um atentado. Devo também dizer que tendo eu falado de factos sobre camarate tão graves.e do envolvimento de certas pessoas nesses factos, sempre me surpreendeu que essas pessoas tenham preferido o silêncio. Estão neste caso o Tenente Coronel Lencastre Bernardo ou o Major Canto e Castro. Se se sentissem ofendidos pelas minhas declarações, teria sido lógico que tivessem reagido. Quanto a mim, este seu silêncio só pode significar que, tendo noção do que fizeram, consideraram que quanto menos se falar no assunto, melhor.

4. Nessas declarações que fiz, desde 1995, fui relatando, sucessivamente, apenas parte dos factos ocorridos, sem nunca ter feito a narração completa dos acontecimentos. Estavamos ainda relativamente próximos dos aconntecimentos e não quis portanto revelar todos os pormenores, nem todas as pessoas envolvidas nesta operação. Contudo, após terem passado mais de 30 anos sobre os factos, entendi que todos os portugueses tinham o direito de conhecer o que verdadeiramente sucedeu em Camarate. Não quero contudo deixar de referir que hoje estou profundamente arrependido  de ter participado nesta operação, não apenas pelas pessoas que aí morreram, e cuja qualidade humana só mais tarde tive ocasião de conhecer, como do prejuízo que constituiu, para o futuro do país, o desaparecimento dessas pessoas. Naquela altura contudo, camarate era apenas mais uma operação em que participava, pelo que não medi as consequências. Peço por isso desculpa aos familiares das vítimas, e aos Portugueses em geral, pelas consequências da operação em que participei.

5. Gostaria assim de voltar atrás no tempo, para explicar como acabei por me envolver nesta operação. Em 1974 conheci, na África do Sul, a agente dupla alemã, Uta Gerveck, que trabalhava para a BND (Bundesnachristendienst) – Serviços de Inteligência Alemães Ocidentais, e ao mesmo tempo para a Stassi. A cobertura legal de Uta Gerveck é feita atravez do conselho mundial das Igrejas (uma espécie de ONG), e é através dessa fachada que viaja praticamente pelo Mundo todo, trabalhando ao mesmo tempo para a BND e para a Stassi. Fez um livro em alemão que me dedicou, e que ainda tenho, sobre a luta de liberdade do PAIGC na Guiné Bissau. O meu trabalho com a Stassi veio contudo a verificar-se posteriormente, quando estava já a trabalhar para a CIA. A minha in?ltração na Stassi dá-se por convite da Uta Gerveck, em l976, com a concordância da CIA, pois isso interessava-lhes muito.

6. Úta Gerveck apresenta-me, em 1978, em Berlim Leste, a Marcus Wolf, então Director da Stassi. Fui para esse efeito então clandestinamente a Berlim Leste, com um passaporte espanhol, que me foi fornecido por Úta Gerveck. 0 meu trabalho de infiltração na Stassi consistiu na elaboração de relatórios pormenorizados acerta das “toupeiras” infiltradas na Alemanha Ocidental pela Stassi. Que actuavam nomeadamente junto de Helmut Khol, Helmut Schmidt e de Hans Jurgen Wischewski. Hans Jurgen Wischewski era o responsável pelas relações e contactos entre a Alemanha Ocidental e de Leste, sendo Presidente da Associação Alemã de Coopenção e Desenvolvimento (ajuda ao terceiro Mundo), e também ia às reuniões do Grupo Bilderberg. Viabilizou também muitas operações clandestinas, nos anos 70 e 80. de ajuda a gupos de libertação, a partir da Alemanha Ocidental. Estive também na Academia da Stassi, várias vezes, em Postdan – Eiche.

7. Relativamente ao relatodos factos, gostaria de começar por referir que tenho contactos, desde 1970, em Angola, com um agente da CIA, que é o jornalista e apresentador de televisão Paulo Cardoso (já falecido). Conheci Paulo Cardoso em Angola com quem trabalhei na TVA – Televisão de Angola na altura.

8. Em 1975, formei em Portugal, os CODECO com José Esteves, Vasco Montez, Carlos Miranda e Jorge Gago (já falecido). Esta organização pretendia, defender, em Portugal, se necessário por via de guerrilha, os valores do Mundo Ocidental.

9. Atrav´s de Paulo Cardoso sou apresentado, em 1975, no Hotel Sheraton, em Lisboa, a um agente da CIA, antena, (recolha de informações), chamado Philip Snell. Falei então durante algum tempo com Philip Snell. O Paulo Cardoso estava então a viver no Hotel Sheraton. Passados poucos dias, Philip Snell, diz-me para ir levantar, gratuitamente, um bilhete de avião, de Lisboa para Londres,  a uma agência de viagens na Av. de Ceuta, que trabalhava para a embaixada dos EUA. Fui então a uma reunião em Londres, onde encontrei um amigo antigo, Gary Van Dyk, da África do Sul, que colaborava com a CIA. Fui então entrevistado pelo chefe da estação da CIA para a Europa, que se chamava John Logan. Gary Van Dyk, defendeu nessa reunião, a minha entrada para a CIA, dizendo que me conhecia bem de Angola, e que eu trabalhava com eficiência. Comecei então a trabalhar para a CIA, tendo também para esse efeito pesado o facto de ter anteriormente colaborado com a NISS – National Intelligence Security Service ( Agência Sul Africana de Informações). Gary Van Dyk era o antena, em Londres, do DONS – Department Operational of National Security ( Sul Africana ).

segunda-feira, 27 de junho de 2016

«Eu ouvi a explosão a bordo do Angoche»

Fomos repetidamente procurados pelo sr. Carlos Augusto Torres, de 72 anos, retornado de Moçambique, onde viveu grande parte da sua vida. Primeiro, como caçador profissional; depois, como industrial de pesca, ou, mais simplesmente, como pescador. Nesta sua segunda actividade africana, residia numa casa isolada, na Ponta Serissa, no extremo norte da Baía de Almeida, situada a sul da foz do rio Lúrio: na costa de Moçambique, entre Nacala e Porto Amélia. Procurou-nos para nos dizer: 
— Eu ouvi a explosão a bordo do «Angoche»! 
— Ouviu a explosão? 
— Sim senhor! Ouvi um grande estrondo no mar, estava eu na cama, antes de adormecer, seriam 10 ou 11 horas; e na manhã seguinte o meu pessoal disse-me que também tinha ouvido aquele estrondo, e que tinha visto fogo no mar. Era com certeza um navio a arder. Pelas notícias que se conheceram depois, não podia ser outro senão o «Angoche». Na altura em que se deu a explosão a bordo, o navio acabava de navegar para norte do Farolim de Chaonde, antigo posto administrativo do mesmo nome, que fica na extremidade sul da Baía de Almeida, a uns 16 ou 17 quilómetros distante da minha casa. Ali, o navio seguia sempre a um máximo de 3 a 4 milhas da costa, e aí é que deve ter sido abordado pelo barco-pirata, que terá obrigado a tripulação do «Angoche» a deitar certa carga ao mar, e depois os raptou a todos... 
— Porque diz que o «Angoche» ia a 3 milhas da costa? 
— Porque era a rota daqueles navios, naquele lugar. 
— Quer dizer que ouviu a explosão que aconteceu a uns quinze quilómetros da sua casa? 
— Sim senhor. Ouvi eu e ouviram os pretos que trabalhavam comigo. E eles até viram as chamas do incêndio, a bordo. Seriam umas dez ou onze horas da noite de 23 de Abril, quando eu ouvi a explosão. 
— Diga-me uma coisa: se o navio tivesse aproado ao largo, digamos, rumo a nordeste, de modo a que estivesse sensivelmente à mesma distância da sua casa, teria ouvido também a explosão? 
— Com certeza. Mas os navios como o «Angoche» navegavam sempre perto da costa, naquele lugar. Nunca iam para o largo. 
— E numa noite com boa visibilidade, até que distância é que os seus homens poderiam avistar as chamas de um navio com fogo a bordo? 
— Até umas vinte milhas, talvez. Mas os navios, ali, navegavam sempre junto à costa. 
— Acha então, que o ataque ao «Angoche» se deu tão perto da costa? 
— Com certeza! 
— Porquê? 
— Porque era a rota deles! 
— Era perigoso navegar para o largo? 
— Não era perigoso, mas iam sempre perto da costa, para aproveitarem a corrente. 
— E há muitos tubarões naquela área? 
— Pesquei lá durante vinte e quatro anos, e só uma vez apanhei um tubarão nas redes. Os meus homens, e eu mesmo, quando era mais novo, atirámo-nos muita vez ao mar para desembaraçar as redes, e fazíamos isso sem qualquer receio. Qual tubarões, qual nada! A tripulação foi raptada e levada não sei para onde. 
— E quem acha o senhor que poderia ter feito isso? 
— Bem, não sei... Mas a tropa nunca quis falar do caso. 
— A tropa? 
— Sim. A minha casa da Ponta Serissa estava isolada e eu recebia lá muitos oficiais e soldados. Muitas vezes. Iam lá comer lagosta e camarão e caldeiradas, e eu gostava de os obsequiar: era a nossa tropa, que estava a combater por nós, e eu tinha muito gosto de a receber o melhor que podia. Mas sempre que lhes falei do caso do «Angoche», todos desviaram a conversa e diziam que o assunto não era com eles: «Esse problema não é nosso» — era o que diziam os oficiais. 
— E o senhor foi interrogado nalgum inquérito? — A mim nunca ninguém me perguntou nada. Mas ai por volta de 1975, deu à costa no farolim do Chaonde uma caixa de granadas, e, algum tempo depois, apareceu uma barrica de 100 quilos de alcatrão em bom estado, sem verter nem nada. Com certeza que era carga do «Angoche». 
— Mas uma caixa de granadas é mais pesada que a água: devia ter ido para o fundo. 
— Pois foi para o fundo, mas há naquele mar correntes submarinas muito fortes, que empurram tudo para terra! 
— A propósito de correntes: se o navio estava perto de terra quando ficou à deriva, como é que apareceu lá tanto para sul, na rota do petroleiro que o encontrou? 
— Bem, eu não sei quando é que ele ficou à deriva. O que eu sei é que a nossa tropa — alguns oficiais — já há muito tempo queriam entregar Moçambique aos «turras». Um dia, um soldado até me perguntou se eu sabia de quem é que tinha vindo a ordem para a nossa tropa não disparar contra os «turras». Eu não sabia, e disse-lhe que não sabia. E sabe o senhor uma coisa? Olhe que quando os nossos soldados perceberam que íamos ficar sem Moçambique, que íamos entregar Moçambique, houve alguns que até choraram de raiva: não sabiam explicar o que sentiam, mas sentiam! Então eram portugueses. 
— E porque é que nunca se soube exactamente o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Ora, porquê?!... Pois se eles estão aí por toda a parte; se eles é que estão a mandar! Como é que vinham contar à gente aquilo que fizeram ao navio e à tripulação!? 
— Bem... Vamos utilizar parte do que nos contou, mas queremos saber se pretende guardar o anonimato, ou.. 
— Anonimato? Não, senhor! Quero que ponha lá o meu nome. Tenho 72 anos, já perdi um olho, e ninguém me (lá trabalho. Até se riem, quando eu digo que quero trabalhai', Mas tudo o que eu afirmo é verdade. Fiquei sem nada, ao fim duma vida inteira de trabalho, e os últimos 24 anos passei-o§ a pescar na Ponta Serissa. Estou farto de passar miséria, desde que voltei à Metrópole, em 1976! Para sete pessoas, recebo dois contos e trezentos por mês! Mas tudo o que eu digo é verdade! Olhe, veja o senhor se consegue falar com Pedro dos Santos, que parece que está agora numa pensão de retornados, no Cacém, e que, lá em Moçambique, morava um pouco para o norte da minha casa, na Baía de Matacaua, logo abaixo da foz do rio Lúrio. Veja se consegue falar com ele, e verá se eu não digo a verdade. 


==========================

Pedro dos Santos, outro pescador de Moçambique: 
«Ali não havia tubarões: em 22 anos nunca vi nenhum...» 
No nosso número de 14 de Março último, publicámos as declarações do pescador Carlos Augusto Torres, que nos disse ter ouvido a explosão a bordo do «Angoche», e nos garantiu, pela sua experiência de ter pescado diariamente naquelas águas durante vinte e quatro anos, que ali não havia tubarões. 
A finalizar as suas palavras, recomendou-nos que contactássemos com um seu vizinho em Moçambique, também pescador, chamado Pedro dos Santos. 
No final desse artigo pedíamos ao sr. Pedro dos Santos que nos procurasse — o que finalmente aconteceu apenas esta semana, por ter estado doente, segundo teve a amabilidade de nos dizer. 
Pedro dos Santos é outro pescador português de Moçambique — mais exactamente: outro ex-pescador português de Moçambique, que viveu vinte e dois anos na baía de Metacaua, logo ao sul da foz do rio Lúrio, e imediatamente a norte da ponta Serissa, onde vivia o seu colega Torres. A casa em que ali viveu foi toda construída pelas suas próprias mãos, e encontrava-se num recanto da baía, abrigada dos ventos do mar por uma língua de terra. 
Amavelmente, prestou-nos as informações necessárias para melhorarmos o croquis daquela região costeira que tínhamos publicado, a acompanhar as declarações do seu amigo Torres. E disse-nos: 
— Naquela noite, um pouco depois das 11 horas, ouvi um estrondo enorme no alto mar. Dias depois, quando houve aquelas notícias do «Angoche», fiquei sem qualquer dúvida de que o estrondo que ouvi nessa noite foi o da explosão ocorrida a bordo daquele navio. Na manhã seguinte, os pretos perguntaram-me se eu também tinha ouvido o ruído, e disseram-me que tinham visto fogo a arder no alto mar. 
— Mas aqueles navios não costumavam navegar muito próximo da costa? 
— Costumavam, sim senhor. Nós, em casa, até ouvíamos distintamente o ruído das máquinas. Mas, nessa noite, só se ouviu a explosão, o que quer dizer que o barco iria fora da sua rota normal, navegando mais ao largo. Porque eu ainda estava acordado, e antes da explosão não tinha escutado o ruído das máquinas, como era habitual escutar. Não fui logo para a beira da água, para verificar se veria alguma coisa, porque a minha casa estava num recanto da baía e tinha uma língua de terra entre mim e o oceano: teria de andar a pé um grande estirão. Bastantes dias depois, o chefe do posto, Anselmo Évora, perguntou-me o que eu sabia, e se alguma coisa dera à costa. Mas, passado mais de um mês, deu à costa um par de botas de borracha, daquelas que os embarcadiços usam para lavar o convés dos navios. Tive-as ali alguns dias, e depois desapareceram. Deviam ser do tripulante que mataram e eles deitaram ao mar. 
Aproveitamos a pausa para o assunto fundamental desta conversa: 
— E a respeito de tubarões naquele mar? 
Pedro dos Santos sorri, e diz com naturalidade: 
— O meu vizinho da ponta Serissa já lhe disse que em 24 anos, apenas uma vez viu um tubarão. Eu, com 22 anos de trabalho diário naquele mar, nunca vi nenhum tubarão, nem soube que alguém os tivesse visto por ali. O fundo, naquelas paragens, tem muitos bancos de coral e, por isso, as redes prendiam-se com frequência: tanto eu como os homens que trabalhavam comigo, sempre nos deitamos ao mar sem qualquer apreensão, para desembaraçarmos as redes. Ali não há tubarões. E mesmo que pudesse aparecer um ou outro, nunca seriam em quantidade suficiente para devorarem 24 homens. 
— Em sua opinião, o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Com certeza que raptaram a tripulação. Os russos, ou chineses, navio de superfície ou talvez submarino, mas devem ter levado todos os homens da tripulação... 
E, depois de acender um cigarro, continuou: 
— A guerra estava a tomar uns aspectos muito feios, ali para o norte de Moçambique. Algum tempo antes do que aconteceu ao «Angoche», tinha sucedido a mesma coisa a um pescador negro, que era pai de um dos homens que trabalhavam comigo... 
— A mesma coisa? 
— Bem, quase a mesma coisa. Se não destruíram o barco dele, foi porque se tratava de uma canoa que não interessava a ninguém, a não ser a um pescador. Mas eu conto: uma bela tarde, o pai desse meu pescador saiu para o mar na sua pequena canoa, apetrechado para a pesca que contava fazer, como de costume. E aconteceu que, no dia seguinte, o barco dele varou da praia, com todas as coisas lá dentro: os anzóis, a cana, o isco, a âncora, e até a comida que ele levava consigo... Tudo estava em perfeita ordem, a bordo daquela pequena canoa de pesca; mas o pescador é que faltava... e nunca mais apareceu. Ora, pelo aspecto das coisas que estavam na canoa, não podia ter acontecido nenhum desastre que fizesse o pescador ter caído ao mar; e se isso tivesse acontecido, ele voltaria para o seu barco. A opinião geral, incluindo a do seu filho, foi que eles o levaram... 
— Eles quem?... E para quê? 
— Bem... Eles queriam informações sobre os nossos territórios, e coisas assim. A verdade é que o pai do meu pescador desapareceu sem deixar rasto, e nunca mais tivemos notícias dele. Mas a sua canoa deu à costa com tudo em ordem a bordo. 
E aqui findou o depoimento deste outro pescador português de Moçambique, que confirma totalmente o de Pedro dos Santos. Ambos são peremptórios: naquela, região, seria impossível que os tubarões tivessem devorado vinte e tal homens do «Angoche». 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Operação Angoche OK! Radio-telegrafista morto!" - Vida Mundial, 23 de Dezembro de 1976


"Angoche" - 5 anos  depois 

À ESPERA DA VERDADE 

Do dia 17 de Outubro de 1974 ficaram, para os familiares dos tripulantes do "Angoche", os resíduos das promessas não cumpridas. Dos dias, semanas, meses que se lhes seguiram restam, bem vincados nos seus rostos, o desespero, o cansaço das corridas aos ministérios, a fadiga da espera, horas a fio, frente a São Bento. Ontem aguardando Vasco Gonçalves. Hoje aguardando Mário Soares. Amanhã aguardando outro qualquer. Sempre aguardando novas de outras terras. 

Ontem como hoje quase exilados no seu país. Quase tratados como bichos raros oriundos não se sabe donde, com problemas estranhos a Portugal. 


"NÃO ACREDITAMOS!" 

Frente a nós três mulheres. Às quais nada conseguirá jamais disfarçar o sofrimento destes anos. 

Ana Maria Bernardino: mulher do comandante do "Angoche", Adolfo Bernardino. 

Alda Sardo: mulher do primeiro-oficial de máquinas, António Francisco Sardo.
A mãe de Ana Maria. A idade já avançada não lhe retirou a vitalidade para esperar o regresso do genro. 

"As versões oficiais são falsas. Todos eles mentem quando abrem a boca para falar do "Angoche". Como podemos acreditar na versão que diz que eles foram comidos pelos tubarões? " 

Na voz de Ana Maria Bernardino reside, bem vincada, a certeza de que o marido está vivo. Nada lhe prova, aliás, que ele morreu. 

"Tanto que nós corremos nestes 5 anos, desde Lourenço Marques até hoje, em Lisboa. Todos nos têm mentido. Desde a PIDE em Lourenço Marques até aos Governos sucessivos em Lisboa." 

Alda Sardo conta-nos, quase até ao mínimo pormenor, as diligências que têm efectuado com o fim de conseguir uma resposta. Que lhes diga a verdade. 

"Nunca notei qualquer inimizade do meu marido para com os outros membros da tripulação. Quando muito poderia haver aqueles aborrecimentos passageiros, naturais em quem convive no dia-a-dia. Mas não inimizade." 


LISBOA: QUE FIZERAM OS GOVERNOS?

Nos nossos números anteriores relatámos alguns dos aspectos que nos pareceram merecer maior realce, no que respeita às diligências efectuadas por membros do Governo, com vista a detectar os tripulantes do "Angoche". Diligências não muito claras a avaliar pelo teor dos documentos que publicámos, em especial o emitido após a Conferência de Lusaca. Até que Vasco Gonçalves surge na cena política. 

Em Fevereiro de 1975 os familiares dos tripulantes do navio levam a efeito uma manifestação junto ao palácio de São Bento, insistindo em que uma delegação sua se avistasse como Primeiro-ministro Vasco Gonçalves. Este recusa-se a recebê-los. 

Algum tempo depois é empossada a Comissão de Inquérito para o caso "Angoche", com a seguinte constituição: Paiva de Andrade (oficial da Marinha de Guerra); Comandante Bessa (oficial da Marinha Mercante); António Fernandes Matos (Polícia Judiciária); Salgadinho (escrivão do Tribunal); dr. Grainha Durval (Ministério dos Negócios Estrangeiros); Jorge (delegado dos familiares). Desta comissão apenas há a dizer que nasceu já morta. Pouco tempo depois de ter tomado posse já a sua composição tinha sido alterada: Paiva de Andrade foi substituído pelo oficial da Marinha de Guerra, Rogério Guerra. Das investigações nunca se soube nada de concreto. Com o decorrer do tempo a comissão desapareceu sem deixar qualquer rasto. 

"Aquela comissão foi a maior das vergonhas. Andaram a brincar connosco", disse-nos Alda Sardo. A dita comissão, aliás, embora estivesse prometida desde Fevereiro, só tomou posse após a data da independência de Moçambique. Para o Governo não existia pressa. Tudo se fazia muito calmamente. Como se de um caso de pura rotina se tratasse. 


UM FUTURO POUCO CLARO 

Entretanto, o almirante Pinheiro de Azevedo promete reestruturar a Comissão de Inquérito. O que, efectivamente nunca veio a acontecer com carácter definitivo. 

"A V Divisão chegou a enviar a capa do processo, dizendo que era a única coisa que tinham sobre o "Angoche". E disseram isso quando eu já tinha visto o processo", continua Alda Sardo. 

E sucediam-se os Governos. Sem que nada se aclarasse. O próprio dr. Mário Soares se recusou, ultimamente, a recebê-los, prometendo contudo que uma nova Comissão de Inquérito começará a funcionar dentro de poucos dias. 

"Lembro-me de, ainda estava em Lourenço Marques, ter sabido da existência de telefonemas para a CNN ameaçando um assalto ao navio tal como veio a acontecer. Depois do "Angoche" as ameaças repetiam-se em relação ao "Chinde", cujo comandante se recusou a zarpar de Lourenço Marques." 

Do navio "Angoche" sabe-se ser, para alguns, assunto encerrado. Para outros, algo que quase não começou. 

Para a sogra do comandante ("fui eu quem recebeu a notícia, sozinha em casa") nada foi ainda feito. Tal como para a maioria dos familiares. 

Para nós, fica-nos a incerteza do futuro dos tripulantes e dos que, em Portugal, os aguardam. 

Laconicamente, uma mensagem captada por um navio na data do assalto:

 "OPERAÇÃO ANGOCHE O.K. RÁDIO-TELEGRAFISTA MORTO.". 

H.G. 

Um carregamento de ouro? - Vida Mundial, 16 de Dezembro de 1976


" Angoche" 5 anos depois  AINDA O SILÊNCIO 

Após o que ficou expresso no nosso último número, quase que se tornaria desnecessário prosseguir com o assunto versado. Contudo, dizemos quase. Porque um aspecto não foi focado: a acuação, das autoridades portuguesas após o 25 de Abril. 

25 de Abril de 1974. Logo às primeiras horas da manhã o eclodir de um golpe de. Estado. A proclamação perante as câmaras da televisão: "Portugal será um Estado democrático." 

Para as famílias dos tripulantes do navio "Angoche" — e quiçá para eles próprios — um novo e vasto horizonte se abria. Haviam desaparecido da cena política aqueles que, a todo o transe, procuravam "arquivar" o assunto. No palco outras figuras surgiam capazes de, pensava-se, deslindar o mistério. De dizer a verdade. De envidar todos os esforços para que esta surgisse, clara e bem visível, aos olhos de todos. 


COM OS OLHOS NA TANZÂNIA 

Empossando o I Governo Provisório, no qual figurava como ministro dos Negócios Estrangeiros o dr. Mário Soares, iniciam-se as negociações com vista à descolonização. Uma das primeiras viagens efectuadas com esta finalidade, levou o dr. Mário Soares a Dares-Salam, capital da Tanzânia. 

Logo que houve conhecimento de que esta viagem se efectuaria, alguns dos familiares dos tripulantes do "Angoche" dirigiram-se ao Ministério do, Negócios Estrangeiros pedindo que fosse tido em conta o caso de 24 indivíduos que nada provava estarem mortos. Receberam, nessa altura, a promessa de que tudo seria feito para esclarecer o caso. Porém, o tempo passou sobre o regresso da delegação sem que nenhuma resposta tivesse sido dada. Até que surgem as negociações de Lusaca. De novo os familiares se movimentam no sentido de obterem algo de concreto. Em vão. A única resposta lacónica, imprecisa e ambígua, é recebida em 17 de Dezembro de 1974 e dimanada do gabinete do chefe do Estado-Maior da Armada, cujo conteúdo integral era o seguinte: 

"Em resposta à carta enviada sua Excelência o Senhor Presidente da República e posteriormente remetida a este gabinete, tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Exas. as diligências levadas a cabo no sentido de ser apurada a verdade do caso ANGOCHE. 

Assim, foi encarregado um oficial deste gabinete de proceder a averiguações e este, depois de examinar os vários relatórios do Comando Naval de Moçambique e da extinta DGS, sobretudo um relatório técnico desta Direcção e ainda com base nas informações colhidas em Lusaca pelo dr. Mário Soares, junto da FRELIMO e do Governo da Tanzânia, chegou à seguinte conclusão: "A existir algum sobrevivente, hipótese extraordinariamente remota este não está interessado em se dar a conhecer." 

Apresento a V. Exa. os meus melhores cumprimentos (...). A "hipótese extraordinariamente remota" referida na carta acima transcrita, aparece-nos não ser, afinal, tão remota como isso, a acreditar no depoimento que publicámos no nosso último número. 


QUAL A CARGA DO "ANGOCHE"? 

A carga contida nos porões do Angoche" foi algo que, durante tempo, se pretendeu fazer crer que era constituída por "abastecimentos para as tropas estacionadas no norte de Moçambique", versão da qual se fizeram eco os jornais da época. Passado algum tempo precisava-se melhor o género de "abastecimento": munições e bombas. 

Do relatório assinado por um furriel-miliciano a prestar serviço em Nacala, consta o seguinte no referente à carga: 

"100 bombas avião — 50 kg cada 
100 caixas de material aeronáutico pesando cerca de 400 kg e diverso material de engenharia, tal como tractores, atrelados, tanques e carga diversa." 

No que diz respeito a esta parte do relatório apenas nos chama a atenção o facto de ser feita referência à existência de tanques. Isto porque, se se trata dos tanques de guerra clássicos, segundo, nos informaram tais veículos não eram utilizados naquela zona de Moçambique. 

A carga do "Angoche" seria um facto de somenos importância, se não existissem dois dados capazes de funcionarem como pedras fundamentais em todo o processo: a suposta conivência do autor do relatório sobre a carga com o assalto ao navio; e as declarações, prestadas a título particular por uma alta individualidade político-militar do nosso país no momento actual, segundo a qual a carga do "Angoche", para além do descrito conteria OURO. 


OURO: DE QUEM E PARA QUEM? 

Segundo a mesma fonte de informação, uma elevada quantidade de ouro em lingotes teria dado entrada no "Angoche", ainda em Lourenço Marques, dentro de caixotes em tudo idênticos aos restantes que continham material bélico. 

Chegados que somos a este ponto, apercebemo-nos de que este pequeno-grande facto terá sido, possivelmente, o móbil em torno do quais e gerou o assalto ao navio. Segundo declarações prestadas por Alda Sardo, mulher do Primeiro oficial de máquinas do navio, o marido há muito que lhe vinha confidenciando notar atitudes estranhas em dois membros da tripulação, fundamentando essa afirmação no facto de, frequentemente, os ir encontrar a conversar em voz baixa, parando estes de o fazer logo que se apercebiam da presença de alguém. 

Será possível que o ouro (a existir) tivesse dado entrada no "Angoche", com o conhecimento desses dois tripulantes, e já destinado a passar para outras mãos mediante um assalto? Poder-se-á pensar que o ataque de choro de António Sardo, na véspera da partida de Lourenço Marques, fosse devido ao facto de saber já que aquela seria uma viagem sem regresso? Tentemos reconstituir uma versão possível: 

1 — António Sardo depara com os dois tripulantes referidos em conversa, apercebendo-se estes de que estavam a ser ouvidos. 
2 — Ao notarem isso, confiam a António Sardo qual a verdadeira carga do navio, exercendo uma pressão sobre ele na base de uma troca elementar: o seu silêncio com a garantia da segurança da família. OURO: na base de tudo? 

De certo modo tudo isto não são mais do que suposições. Baseadas, contudo, num facto: após a entrada do navio em Lourenço Marques, nenhuma referência é feita à existência de ouro nos porões. 


A CONTINUAÇÃO DAS CONTRADIÇÕES 

No Verão de .1974 o comandante Silvano Ribeiro declara a Alda Sardo que os tripulantes do "Angoche" se encontravam na Tanzânia. Alguns dias depois telefona dando uma versão diferente: teriam sido devorados pelos tubarões, o, que constituía na altura a versão de Vítor Crespo. Mais algum tempo se passa e nova comunicação de Silvano Ribeiro que apresenta uma nova hipótese, desta feita com o rótulo de "certeza": os tripulantes do navio chegariam a Lisboa no dia 17 de Outubro desse ano. Nessa mesma noite, Mário Castrim e Augusto Vilela telefonam a Ana Maria Bernardino, mulher do comandante do "Angoche", fornecendo-lhe a mesma informação e declarando ter tido esta origem num oficial do exército. 

O dia 17 de Outubro de 1974 passou. Os aviões que nesse dia aterraram no aeroporto da Portela não traziam novas do "Angoche". Nenhum outro avião ou barco as trouxe. Até hoje. Até quando? 

H.G. 

NO PRÓXIMO NÚMERO: O QUE DIZEM AS FAMÍLIAS DOS TRIPULANTES 

O CASO ANGOCHE - revista Vida Mundial, 09 de Dezembro de 1976


"Angoche", 5 anos depois 

"Angoche". Navio da CNN com 80 metros de comprimento e cerca de 3200 toneladas. Era um cargueiro que assegurava as ligações entre vários portos da costa de Moçambique. 

No dia 23 de Abril de 1971 abandonou o porto de Nacala com destino a Porto Amélia. A carga era constituída por armamento destinado às Forças Armadas portuguesas que actuavam naquele território. Vinte e três tripulantes e um passageiro a bordo. 

Na madrugada do dia 24, a chegada do barco não se verifica. As comunicações já tinham deixado de existir. O armador alerta as autoridades que, contudo, só iniciam as buscas a 26 sem qualquer resultado positivo. No dia 27, a República da África do Sul contacta Moçambique, informando que o "Angoche" seguia a caminho de Durban, rebocado pelo petroleiro "Esso-Port Dickson", pertencente a uma companhia inglesa mas navegando sob a bandeira do Panamá. Aqui começam a surgir as perguntas. Porque é que o petroleiro não contactou as autoridades portuguesas? Porque é que, quando acabou por o fazer, forneceu indicações de posição continuamente alteradas?

No dia 3 de Maio, navios da Marinha de guerra portuguesa dirigem-se para o local onde se encontra o navio, depois de este ter sido sobrevoado e fotografado pela reportagem do jornal "Notícias da Beira". Interceptado entre Vilanculos e Inhambane, o comandante do "Esso-Port Dickson" escusa-se a dar explicações pela sua atitude. De concreto, apenas que nenhum dos tripulantes fora encontrado. O "Angoche" era um navio-fantasma. Segundo a versão do comandante do "Esso-Port Dickson". 

OS LACÓNICOS COMUNICADOS 
A partir de 27 de Abril os comunicados das autoridades sucedem-se sem que, contudo, algo seja adiantado em relação à sorte dos tripulantes e do passageiro desaparecidos. As notícias nos jornais nada adiantavam, entrando, não raras vezes, em contradição. Em 6 de Maio, o "Diário de Notícias" afirmava, citando Rádio Pequim, que o barco teria sido abordado por um submarino e a sua tripulação obrigada ,a abandoná-lo. No dia 8 do mesmo mês aquele jornal referia a rádio sul-africana para afirmar que os tripulantes do "Angoche" se encontravam detidos na Tanzânia. A 21 desse mesmo mês, e ainda o "Diário de Notícias", referia uma conferência de Imprensa da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, na qual se afirmava que estava totalmente posta de parte a hipótese de abordagem e rapto. 

FRELIMO DECLINA RESPONSABILIDADES 
Entretanto, em Dar-Es-Salam, capital da. Tanzânia, Joaquim Chissano 'declarava não dispor de informações que lhe permitissem avaliar claramente a situação. 

Mais tarde, a FRELIMO afirmaria nada ter a ver com o assunto, admitindo no entanto que, no caso de a tripulação ter sido capturada por guerrilheiros, isso teria de ser considerado como um legítimo acto de guerra. Com tudo isto, a incerteza quanto ao destino da tripulação aumentava. Tanto mais que as versões eram distintas. 

Enquanto uns diziam que todos teriam sido devorados pelos tubarões — versão da PIDE em Lourenço Marques mais tarde retomada por Vítor Crespo outros afirmavam que se encontravam vivos e prisioneiros na Tanzânia. Porém, nada de concreto era dito. As famílias recusavam-se a aceitar a versão que dava os tripulantes como mortos. 

Na verdade, não é ao primeiro susto que homens com mais de uma dezena de anos de mar, se lançam à água sem tão-pouco levarem consigo os cintos de salvação. 

Mas era esta a versão, senão oficial, pelo menos oficiosa. O certo é que ninguém reivindicava a autoria da acção que, a ter sido efectuada pela FRELIMO, lhe daria até uma boa publicidade quanto à sua capacidade de intercepção dos meios de abastecimento das tropas portuguesas situadas no Norte de Moçambique. 

ATITUDES ESTRANHAS E ESTRANHAS CONTRADIÇÕES, 
Nesse tempo frequentava o colégio marista em Lourenço Marques (actualmente Maputo) o filho do primeiro-oficial de máquinas do "Angoche", António Francisco Sardo. Era uma criança com 7 anos que ainda se não apercebera de nada do que se estava a passar. 

Logo a seguir aos acontecimentos, isto é, ao detectar do navio por parte das autoridades portuguesas, um capitão-tenente da Marinha surge no colégio pretendendo avistar-se com o filho de António Sardo para lhe comunicar que o pai se encontrava bem. 

Porque o quis fazer junto do filho e não da mãe é algo que nunca foi esclarecido. Algo havia, porém, de concreto: António Francisco Sardo, na véspera do início da viagem, teve um ataque de choro em casa, facto que, segundo relato da sua mulher, acontecia pela primeira vez. Afinal aquela era uma viagem como dezenas de outras, pensava-se. No final, veio a verificar-se ser diferente. Porquê o ataque de choro? 

Por quê a tentativa desesperada do terceiro-maquinista em evitar o seu embarque? ' Mas não ficavam por aí as interrogações. 

O professor Trepa Torres, do colégio marista de Lourenço Marques, radioamador de longa data, dirigiu-se a casa de Alda Sardo, mulher do primeiro-oficial de máquinas do "Angoche", no dia 8 de Maio de 1971, noticiando-lhe que acabava de captar no seu rádio a notícia da chegada da tripulação do navio ao quartel-general de Dar-es-Salam. 

Anos depois, tendo sido chamado a Lisboa para depor perante a Comissão de Inquérito formada para o estudo do caso "Angoche", o mesmo indivíduo 'negou tudo o que tinha dito naquela altura e, inclusive, afirmou não conhecer a mulher a quem tinha dado a notícia citada, quando posto perante ela. 

Além disto, ainda em Lourenço Marques, um inspector da PIDE declarou a Alda Sardo que as investigações tinham, praticamente, terminado tendo-se concluído que: 
1. Uma bomba de relógio tinha sido colocada no navio, quando este se encontrava ainda acostado ao porto de Nacala; 
2. Que, na mesma altura, fora cortada a antena, impedindo assim as comunicações; 
3. Que ao rebentar a bomba os sobreviventes se tinham lançado ao mar. Quanto a isto, pelo menos um facto há que deita por terra a argumentação utilizada: o "Angoche" fez a sua última comunicação com terra, cerca de duas horas após ter zarpado de Nacala, o que não poderia ter feito com a antena já cortada. 

Por outro lado, e a derrubar o terceiro dos argumentos, existe uma mensagem da delegação da Direcção de Segurança do Estado para a de legação da representação da Segurança do Estado em Durban, cujo texto é o seguinte: 

"Qual a data e a altura em, que o navio português foi visto pela primeira vez e qual a data e o momento exacto em que alcançou o "Angoche"? 

Resposta: Pelo que se conseguiu averiguar, o capitão Aquini observou o' "Angoche" por volta das 7 horas no dia 26 de Abril de 1971. Recebeu membros da tripulação a bordo às 9.18 horas aproximadamente e rebocou-o cerca das 10 horas." 

Uma outra mensagem dizia o seguinte: 
"ESSO-PORT DICKSON-DURAN 
RADIO COTTO DURBAN 

Recolhidos dois portugueses navio motor Angoche abandonado pela tripulação prosseguindo a velocidade reduzida, informa ETA Durban mais tarde. 
a) Aquini".

Há uma evidente contradição entre estas duas mensagens. Enquanto a primeira refere ter sido a tripulação recolhida a bordo, a segunda afirma que o navio foi encontrado abandonado. 


QUEM ACREDITA NA MORTE DOS TRIPULANTES? 
Na verdade, e a mais de cinco anos de distância do eclodir do acontecimento, nenhuma das pessoas ligadas, directa ou indirectamente, ao caso "Angoche" admite a morte dos tripu-lantes, a começar pelos próprios familiares. A reforçar esta opinião existe um depoimento de um elemento há pouco tempo regressado de Moçambique, e actualmente a residir algures no Norte do País, depoimento esse que passa-mos a transcrever: 

"Fui preso no dia 28-10-74. Dez dias depois de ser preso fui transferido para o campo de recuperação de Nachingueia. Após a independência fui transferido de Nachingueia para o Norte de Moçambique, para Porto Amélia. Quando fui transferido foram-no todos os pretos, mas ao chegar a Lichinga (antiga Porto Amélia) ficámos divididos em dois grupos: os políticos separados dos não políticos mas continuando o cozinheiro do "Angoche" junto comigo, presumindo-se que ele também fosse considerado político (...) Nos fins de Junho ou princípios de Julho de 1976 fui transferido de Lichinga para a Beira. Ao chegar à Beira, por estar a fuga preparada, fugi do aeroporto tendo um automóvel à espera que me conduziu a casa de um branco amigo onde permaneci durante três meses. 

Ao fim deste tempo, ao passar na Beira o "Nova Sofala" da CNN, consegui embarcar clandestinamente com o auxílio de um elemento de bordo que distraiu o vigia do navio. 

Durante a minha prisão eles alegavam que tinha pertencido ao movimento livre de Moçambique e que só seria libertado depois de se apresentar... (indivíduo que não é identificado). Durante a minha permanência em Nachingueia estive junto com os tripulantes do "Angoche" de cor preta, e os tripulantes brancos também se encontravam no mesmo campo mas separados por arame farpado. Dois tripulantes não se encontravam nesse local. Segundo informações, eram o comandante e o imediato mas sem confirmação certa." 

Este depoimento dá-nos pelo menos uma certeza: a de que os tripulantes do "Angoche" não morreram conforme quiseram fazer crer. Muitas outras questões há, contudo, a referir, o que contamos fazer no nosso próximo número. 

H.G. 



segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Angoche, 'miramortos' da Beira, corveta João Coutinho e... tudo ligado!

Este artigo do Expresso diz tudo. É de 5 anos após o assalto ao Angoche. Liga Angoche - 'Miramortos' - corveta João Coutinho. Os que escrevem sabem muito mais certamente do que ali se atreveram a expor. São bem conhecidos. Dois sub-directores do Expresso, muito por dentro de assuntos africanos. De assuntos de Moçambique. São dois os responsáveis por esta coluna de Opinião:


Augusto de Carvalho

e o nosso sempiterno comentador, e não só, professor Marcelo...

Rebelo de Sousa.

Transcreve-se a página 274 do livro de Metzner Leone sobre a Operação Angoche. Que por sua vez transcreve o Expresso de 23 de Abril de 1976!


TEM ALGUMA INFORMAÇÃO CONCRETA SOBRE O CASO?

TEM ALGUMA INFORMAÇÃO? 
Toda a informação 'sensível', contactos e mensagens devem ser dirigidos ao nosso grupo de trabalho para o mail:
casoangoche@gmail.com

São bem vindas todas as contribuições em torno deste tema - o desaparecimento da tripulação do Angoche e a ligação do caso ao mistério do prédio 'miramortos' da cidade da Beira em que foi 'suicidada' uma jovem portuguesa.