quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O QUINTO IMPÉRIO - 1977, Dominique de Roux. Excertos do livro 'maldito'

Clément é o 'alter ego' de Dominique de Roux, francês, jornalista, escritor, intelectual, editor e aristocrata mas, acima de tudo, ligado à 'piscina' - ao SDECE - os serviços secretos franceses no exterior. Apontado como espião, organizador de mercenários, etc., etc. Pesam também as ligações à Aginter Press - agência de informação de fachada com sede na Lapa, em Lisboa nos anos 60 e 70 - e ao Projecto 'Gládio'.

Clément ao longo do livro surgirá sob um outro nome, operacional, como François Mazin, sugerido pelo 'engenheiro', um tal Salvador Palmela Bruno, de um gabinete ultra-secreto, o ANO (estamos certamente a falar da Aginter Press / Gládio). Um certo Chadek do leste europeu surge como outro dos elementos ligado ao projecto, agente 'travestido' de trotskista, ligado a grupos da '4ª Internacional'.

Depois de 'Ne traversez pas le Zambeze' (1973), escrito após uma visita a Moçambique, De Roux recebe a missão de ir à Guiné e a Moçambique 'tomar o pulso à situação'. Conhece Otelo, Spínola, Kaúlza de Arriaga, Jorge Jardim, Orlando Cristina... Mais tarde seria conselheiro de Jonas Savimbi, da UNITA.
 
Em 'O Quinto Império' do qual que este texto encorpa imensos excertos, relata pois a odisseia africana na Guiné e em Moçambique em 1973, e os meses e dias em Lisboa antes e por alturas da revolução do 25 de Abril. Não só toma o pulso à situação como serve de elemento de ligação - ou instigação? - junto de principais autores da 'revolução dos cravos'. Percebe-se em toda a trama aqui relatada uma tensão entre a corrente globalizante, pró-americana com os franceses de charneira, e uma tradicionalista, e que resiste ao que é de facto a tomada de poder por forças maçónicas - o que hoje constatamos. Agitado o papão comunista, há que aplicar o 'choque eléctrico' para que Portugal avance, 'passe entre a revolução e a reacção'.

Nos anos vindouros iremos ver que foi isso mesmo que se passou, e operou-se uma transferência de poder das grandes famílias tradicionais portuguesas para os gigantescos empórios americanos e europeus. Portugal do 'Quinto Império' está ainda por cumprir.

O Quinto Império é pois um fresco fantástico sobre estes tempos conturbados.

Dominique de Roux é acutilante e abre o saco. Saberia ele quando editou o 'Cinquiéme Empire' que tinha poucos dias de vida? Ventila factos escaldantes - o atentado que matou Carrero Blanco em Espanha, cometido pela ETA, teve afinal a 'sugestão', foi mais uma 'false flag' da CIA. E Kennedy, sim, Kennedy... aventa-se a mão invisível da agência, através de uma 'joint venture' com elementos da OAS, garantem outros. De passagem fala-se também na granada lançada por Orlando Cristina contra um oficial - seria dos comandos, e está criado o pretexto para desencadear Wiryamu e atrapalhar a política africana de Caetano, empurrando Kaúlza para os desígnios de Jorge Jardim.

'O Quinto Império' é editado em meados de Março de 1977. Duas semanas depois, a 29 de Março de 1977, Dominique de Roux aparece morto! Doença cardíaca...

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(...) Mal chegou, Clément compreendeu a razão de ser de Portugal, precisamente a de não ter nenhuma. Ou então uma razão de ser inteiramente secreta, incomunicável. «Os comunistas não têm sexo!» O homem que, abruptamente, acabava de pronunciar estas palavras era o mesmo que, até então, tinha explicado a Clément, o mais devagar possível, a dificuldade de ser português.
O capitão Novo tinha vindo buscá-lo ao Avenida Palace. Esperavam juntos, no escritório dele, a chegada do responsável da ANO, um instituto de investigação na Lapa, o bairro aristocrático de Lisboa (os seus palácios do século XVIII, do tempo das minas de ouro do Brasil, do tempo do último esplendor português).
— Sim, senhor, os servidores da Revolução não têm mais sexo que coração. O comunismo atrofiou-lhes tudo. Eles são a mecânica de um sistema de polícia, de psiquiatras e de penitenciários. A palavra «povo», na boca dos membros da Partido, é uma farsa. Mentem de tal maneira que deixam de saber o que é a mentira. O espírito de negação esmagou neles toda a espiritualidade. Rebaixa-os, materializa-os e fecha-os na mentalidade pequeno-burguesa com as suas hierarquias às avessas. Se quiser, o comunismo é as traseiras do nazismo
Pela janela aberta, Clément sentia o ar calmo, mediterrânico. Ao menos por uma vez, Lisboa não tinha vento atlântico nem tosse. Do outro lado da rua, ele via a fachada cor-de-rosa de uma das cidadelas da feudalidade, casa patrícia defendida contra os ladrões mas não contra os motins. Sentia-se o tempo passar. Falar de política? Tarde demais!
Alguns instantes depois, o 'delegado da ANO para a zona Portugal-África veio ter com eles. Tinha entrado, e sem pernas. O engenheiro Salvador Palmela Bruno tinha dado a volta à sala, entalado a cadeira de rodas atrás da secretária, o tronco poderoso, um duro.
— Novo explicou-lhe com certeza o meu acidente em Moçambique. Uma mina! É assim! Mas porque não se fala das guerras que Portugal não fez? Nós perdemos quinze mil homens em África, mas quantos teríamos perdido em 1940? Chadek tinha-me prevenido da sua chegada. Benvindo pois a Lisboa, François. Daqui em diante você é François Mazin, meu caro Clément.
«Os mais belos olhos que eu jamais vira sob a testa de um homem», disse Clément para consigo, no instante preciso em que atravessava clandestinamente a fronteira simbólica para lá da qual se resumia a um testa-de-ferro.
- É a sua primeira estadia, não é, Mazin?...
Tem diante de si o director da ANO, digamos uma espécie de instituto de 'estudos estratégicos'. A sua voz, sobretudo, era impressionante. Variações de ternura tais que parecia à beira do soluço, as modulações de um homem transtornado, que precisava de comover o interlocutor, por não ser capaz de agarrá-lo pelo braço e levá-lo com ele.
— Que quer de mim? digo eu. Eu tenho confiança em Chadek. Acabo de chegar. Qual é o problema?
— Temos a vida diante de nós, Mazin. Saiba que em Portugal começa a África, onde nem o tempo nem a duração têm lugar.
(...)
O engenheiro só abriu a boca à vista de um cartaz gabando as praias multirraciais de Moçambique: «Eu estou cansado, nem você imagina, de combater por coisas perdidas de antemão... (O meu silêncio.) Você deve ser democrata. Os democratas chegam sempre tarde demais.»
De novo, braços tinham agarrado no engenheiro, desdobrado a cadeira de rodas, e foi escoltados pelos grooms do Grémio que nós fizemos a nossa aparição nos salões cor-de-reseda decorados com quadros meditativos d'além túmulo.
— Ali, Mazin, você tem o Portugal que conta, os fiéis do reino de Salazar, e o que resta do seu corpo, governo, burguesia de negócios, lobby do algodão, a banca, o aço, o cimento e os toiros, todas as «Maria-vai-com-as-outras» das percentagens e da prebenda que proclamam, nunca se tendo dignado falar com um empregado ou um operário, que mais vale um assassino que um comunista. Os aristocratas não comem aqui o seu pão. Seleccionaram-se no Turf Club, rua Garrett. Juntos continuam a viver as coisas entre eles para terem recordações que talvez um dia venham a apreciar. Até lá se encontra um monarca destronado a quem a masturbação tornou surdo. Olhe! Na mesa ao lado, de camisa cor-de-rosa, tem o César Moreira Baptista, ministro da Informação, com um dos Mellos do Banco. Um pouco mais longe, Costa Gomes, general influente, alcunhado «Judas» pelos camaradas. Dizem que tem um cancro na garganta e os seus inimigos pedem ao cancro que cumpra o seu dever. Aquele tipo que parece Toukhatchevski, vai vê-lo em Lourenço Marques, é Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe de Moçambique. Fez fracassar vários golpes de Estado convencendo Salazar, que não acreditava. Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros, um poseur, mas simpatizo com ele. Gosta de mulheres. Faz a corte à mulher de um latifundiário. Pertinho de nós, Natália Correia, a nossa maior poetisa. Lutero mulher de belos frutos. Atrás, o director da televisão, o Cagliostro da vigarice. Todos, excepto Natália, que tem génio e sonha, estão demasiado ocupados a falar de política para a fazerem. Estão mais agarrados aos cargos e ao dinheiro que um Bragança ao seu castelo de dez séculos. Para eles, Caetano é comunista e, sem nada preverem, perpetuam um século XIX duvidoso, mesclados dum grande sentimento de ordem e de polícia, o capital imobilizado e o operário confinado no seu trabalho. A outra Europa estabeleceu as bases do liberalismo, mas estas pessoas vivem no mito da vocação mundial de Portugal, último bastião do «Ocidente cristão». Ora, sem se aperceberem, enfrentam forças concretas tão duramente como o homem das cavernas. E arranjam-se por dirigir as operações da caixa e dividir os lucros entre eles. Aqui, tem duas espécies de inúteis, os simplesmente inúteis e os inúteis nocivos. Nascidos donos deste país, vão-no explorando e ralam-se tanto com ele como com o dia de ontem. Como se desenrascou Luís XVI para ser guilhotinado antes de exercer a sua profissão de rei? Há uma história parecida na Alice no País das Maravilhas. E quando lhes dizem que Franco vai morrer e a Espanha vai ao ar, eles respondem que não têm medo da guerra civil. Cito-os: «De resto, os comunistas espanhóis só querem recuperar o ouro da banca de Espanha, depositado em Moscovo.» São tão mentirosos que têm que provar por todos os meios que têm razão. Vaticinam, empregando palavras cujo sentido não percebem muito bem. Bem vê que, ao nível da qualidade, a direita política é igual à esquerda. A política nunca tem a solidez das maçãs de Cézanne.
- Você chega ao fim de um mundo, um fim que nós temos que acelerar. Os ministros comem-se uns aos outros, os militares traem sem dar nas vistas. A sociedade está corrompida, os privilegiados e os notáveis estão desiludidos, indiferentes à África e à Europa. Quanto à geração da boa gente nova, é incompetente e levanta-se ao meio-dia. E quem, entretanto, tem saudades do regime, quem será o último salazarista? (Baixou a voz.) O doutor Álvaro Cunhal, chefe do Partido Comunista Português, hoje em liberdade (graças a Salazar, dizem). No fundo só difere de Salazar num ponto: nasceu para voar em estilhaços... como o almirante Carrero Blanco. Nós trabalhámos bem em Madrid, como no Texas, para John Fitzgerald Kennedy. Eu sorrio ao ler os relatórios dos peritos, o inquérito da comissão Warren. E estes jornalistas que passaram já doze anos da sua existência a chafurdar nos papéis, a colar em computador o registo da voz de Lee Harvey Oswald... Os tempos não estão para a poesia mas para a gadanhada. Tempo de pausa, sorriso disfarçando a fulguração habitual do sofrimento, o êxtase negro do mutilado. Leia as Memórias de Livingstone, encadeou ele. Atribui aos portugueses qualidades bizantinas: mentiras, assassínios, cobardia, todos os contra-meios e contra-argumentos das minorias pobres e fracas. Meu caro Mazin, você mesmo há-de verificar, nós somos púnicos, parecemo-nos com os mercenários de Amílcar, e todos esses matreiros do Mediterrâneo. Nós somos girinos!...
(...)
Devolvi-lhe a jogada para lhe provar que, embora não dissesse grande coisa, tinha amadurecido algumas ideias:
— O círculo da banalidade universal fecha-se. Já só há a pedagogia marxista e a barriga dos cofres fortes. Para quando a burocracia chinesa de mil anos! Por vezes acredito na inutilidade de tudo!... Mas em que lhe posso realmente ser útil?
— Tanta pressa, Mazin, tanta pressa! Eu tenho que lhe descrever primeiro esta sociedade portuguesa que, porque dorme e come à vontade, pensa que é a mais importante do mundo. Se a história de Castela é imperialista, a de Portugal é universalista, o que não quer dizer nada para os marxistas. Oiça-me bem. A burguesia portuguesa está próxima dos marxistas. Para ela, nada ultrapassa a história e nada a transcende. Os marxistas, esses, ainda por cima, travam-na. Não ousam transpor o limiar da sociedade sem classes. Atrasam-lhe a chegada. Tal é o paradoxo dos idólatras da história. Mas estou a chegar ao seu caso, Mazin.
Se eu fosse Deus e tivesse que salvar uma cidade, era Lisboa que eu salvava, ancorada na Europa mas atenta a uma simbólica que cubra o universo. No resto do mundo, esta está completamente perdida sob as preocupações do imediato. Nós estamos persuadidos de que, passando-se tudo no tempo, podemos inverter 'o curso do mundo. O essencial para nós está na Guiné, em Angola, em Moçambique. Os oficiais de que precisamos são cabeças de alfinete manipuláveis. Provaram os pensamentos de Mao Tsé-Tung capturados nos cadáveres dos guerrilheiros. Intelectualmente, estão no Jorge Amado, um brasileiro cheio de histórias naturalistas, Zola exótico. Consideram os comunistas uns cordeiros, ingénuos como todos os militares. Sonham em embalar o povo nos seus braços de gorilas. Mas o PC pensa a mesma coisa, tem a mesma ideia que nós, e trabalha para nos surripiar a operação. Examinemos a situação. Nem mais caetanismo que pompidolismo. Caetano é o herdeiro envergonhado da ditadura de uma classe, hesitando entre o seu temperamento de liberal e o medo da desordem. Se não é conservadora, a burguesia portuguesa é estúpida. E depois, fica demasiado do antigo sistema entre São Bento e Belém. Caetano pensa na Europa, o almirante Thomaz é prisioneiro do lobby africano. Caetano tergiversa, incapaz de conceber ou de sentir a profunda, a insustentável fatalidade da história. Ora, a história é por natureza ambígua e só se realiza na medida em que malogra. Caetano proíbe a censura, mas mantém-na a metade. Dissolve a polícia política, mas volta a criá-la sob um outro nome.
Entreabre as prisões o bastante para que os libertados denunciem publicamente os seus torcionários. Humilha o exército de carreira, dando galões aos estudantes cujos campos manda ocupar pela sua Guarda Republicana. E, à primeira sublevação de quartel, fugirá disfarçado de mulher. Ficará até ao fim a reboque do clã do almirante, dos seus integristas e da PIDE. Precisamente, o ministro do Exército é esse tapado à sua direita, Silva Cunha. Trepane-o e, em vez de miolos, encontrará um recheio cor-de-rosa de caranguejo. Eu escutava-o. Compreendia que a história repousa nas decisões e nas enxaquecas de uma centena de indivíduos médios, idiotas, que podem impor as suas ideias, manias, caprichos, gadgets, hold-up, depois de conversas de três minutos. O equilíbrio do terror situa-se a esse nível. Ele prosseguiu: Vejamos as nossas cartas! A burguesia? É a partir do instante em que o dinheiro se pode tornar eficaz que ela se recusa a sê-lo ela mesma. Champalimaud? Um mafioso sem Mafia! Marcha por ódio, pagará para derrubar Caetano mas, depois, quererá pôr a Revolução ao serviço dos seus negócios. O general Kaúlza de Arriaga? Muito inteligente, activo, mas anticomunista primário. Imagina que a União Soviética professa o marxismo. Delgado? Liquidado pela direita mas executado pela esquerda. Craveiro Lopes? Já apenas um nome de aeroporto!
— Ficam, digo eu, os comunistas!
— Espere, Mazin, você está a carburar depressa demais.
E António de Spínola? Nosso governador militar na Guiné! Sessenta anos, formação prussiana, procônsul, aristocrata, corajoso e astucioso. Pode ser o cavalo de Tróia da força que precisamos... o Movimento... das Forças Armadas... M... F... A... cá está! Movimento das Forças Armadas. Uma bela sigla. Administraremos a Portugal a descarga eléctrica suficiente, para que passe sem custo entre a Revolução e a reacção.
O senhor, por exemplo, podia ir a Bissau daqui a alguns dias com um cartão de jornalista. Irá ter com Spínola. Sondá-lo. Boa sorte!
E eu digo «sim», não sei porquê. Estávamos sozinhos. Os notáveis tinham voltado a penates. O engenheiro estava só e Caetano já sozinho. Eu já não pensava logicamente, com aquela lógica que já tanto difere de um ao outro. Tinha que deixar de sonhar com o passado e o futuro, agarrar o presente como um garoto. Ao longe, eu via o Tejo com um. barco. Ouvia os criados do restaurante sacudirem as cadeiras de palha e os pratos de barro. Escutava a, língua portuguesa.
(...)
Os elefantes são individualistas, eis porque o engenheiro queria viver no meio da sua sociedade matriarcal enfeudada a uma única avó. Palmela Bruno, como os elefantes, tinha o sentido da morte. Ele resmungava: «Olhe, empurre-me. Depois dos cangurus, seguimos o som da trombeta. Huíla, o preto, assopra na corneta. Os homens livres já só têm um refúgio, meditar no animal. Só o animal é impermeável ao marxismo. Os pombos de Paris pensam. Reconhecem as pessoas pela cor... E as moscas, sabe, gostam de morrer sozinhas...»
Huíla aspirava com a tromba a moeda estendida, metia-a numa caixa, virava-se, avançava um passo e depois puxava pelo sino fixado na parede e, voltando em direcção ao público, buzinava ao guarda que, automaticamente, o recompensava com uma braçada de palha. Amanhã, François, se Portugal se tornar comunista, o elefante dará erva ao guarda. Eis um homem reeducado. Se o elefante encarna o fascismo — tendo o cornaca adquirido aos seus olhos a qualidade de personagem único —, o homem, é o marxismo, consciência moral, demencial desejo de manter a servidão dos outros e a sua, o sonho do carcereiro de dormir numa cela.

Mais uma vez voltara a Portugal, «morto espiritualmente e intelectualmente». Salazar, dizia ele, tinha tido sentido da propriedade demais, pondo por cinquenta anos o seu país em situação. A sua famosa sovinice, o seu gosto pelas passas de uva, a sua devoção por Santa Teresa, a sua admiração pela França: «Como é bela a França! Eu fui a Lurdes.» Graças a ele, Flaubert, perseguido pelos seus credores, teria podido escrever em Sintra. Europeus, parem de chamar aos outros Terceiro Mundo, vocês não são sequer a parte côngrua! Entretanto, ninguém quer mudar nada da situação. O partido nacional é uma mulher e convidam-na para almoçar no Monte Santo Isidoro. (Eu pensava na sua cadeira de rodas, símbolo do monstro moderno. Os aviões cheios de paralíticos.) Os portugueses têm o sentido do compromisso e sabem organizar os jardins. Foi D. João II que inspirou Maquiavel. Lisboa é toda ela à imagem deste espírito, cidade em curvas e bossas, palácios pombalinos, mas as circunstâncias... Os liberais do Expresso, esses, encarnam o marcelismo. Importantes em 1969, são a esperança e os meninos bonitos de Caetano, com o seu estilo «nouille», moralismo social, diletantismo ideológico. As pessoas que resistem, fazem-nas calar, e as eleições, ganham-nas com maiorias que o não são. Veremos voltar a I República, 1910, caótica, uma miséria, a anarquia portuguesa de cravos pacíficos, se ninguém tiver cuidado...
— O assassinato político, François, bem doseado, alivia: fusil magnum, dum-dum. Um único assassino pode pôr em causa a República, premindo uma vez o gatilho.
Mas os meandros do pensamento lusitano mergulham-nos nas zonas de um sub-destino. O padre Domingos, 1919, chefe do partido terrorista monárquico, bem sabia disto. O pensamento português sempre se há-de hipnotizar com o regresso de Dom Sebastião. Nunca saberá acabar a sua aventura, povo flutuando atrás de tudo... (Eu pensava: somos vários seres na mesma duração e um deles morre, de tempos a tempos. Que pensaria ele realmente? Saído do zoo, já não se lembraria.) — A esquerda tornada tão estúpida como a direita inventou 'até uma Cogula' [Sociedade secreta francesa] universal, tupamaros, palestinianos, Fidel Castro. O exército, pelo contrário, está minado, repito-lho, pelos cocos (era ouvi-lo pronunciar coco). A África portuguesa vive a tragédia de uma guerra colonial clássica, mas, do outro lado, a guerrilha é obra da subversão mundial... (Vai falando... Eu era transportado para o mundo das crianças, seguindo com o olhar um caracol, que avançava num raminho.) O engenheiro não parava de explicar a manobra, os seus Protocolos dos Sábios de Sião... Depois disse, creio eu, que se deitava todas as noites às oito horas, de desgosto. Dizia-se: morto de cansaço ontológico: «A morte aproxima-se. O círculo fecha-se. Vou dormir muito tempo, muito tempo.»
Enquanto esperava o meu bilhete de avião para Bissau - viagem cujo princípio eu tinha aceitado —, tinha decidido ficar em Lisboa e viver à boa vida. Enfim, a vida de Palace.
Temos que dizer que se falava pouco na guerra de África, confinada em pequenos caracteres, sexta página do Diário de Notícias, entre um 'anúncio e o resumo da conferência de Domingos Monteiro, nosso ilustre colaborador! Mas quem morreu hoje, ao serviço da Pátria? Em combate? Os seguintes militares: em Moçambique, o soldado do RE n.° 702594/69, Estêvão de Almeida Chale, natural de Mecusi, filho de Chale e de Faifa; na provín-cia da Guiné, o comandante do pelotão de milícias, n.° 03064, Jane Samba Câmara, natural de Catio, filho de Malan Câmara e de Baylo Yalo, casado com, Aclama Colubali e Uri Yalo...
De crer que a legalidade do regime de Caetano, no fundo, se opunha à ilegalidade da guerra. No conozco país con mayor capacidad a no poder enterar-se de las cosas. «Não conheço nenhum país com tal capacidade de se desinteressar de tudo.» De crer que ninguém nasce, nem morre em Portugal.
Uma manhã, o engenheiro mandou entregar-me o bilhete de avião acompanhado de uma mensagem: «Meu caro Mazin, eu prefiro, discrétion oblige, vê-lo quarta--feira à noite em casa dos Vaz da Silva, no Restelo, Rua Vasco da Gama, n.° 15. Antes da sua partida, temos que ter uma última conversa. Daqui em diante, eu também passo a usar um pseudónimo. Chamo-me Liebig.»
(...)
Mas, eis Liebig. Ela eclipsa-se. Ele enxuga-se. Ela deixou-me. Ele diz-me:
— Meu caro, eu queria que a catástrofe acontecesse. Ah! que as bombas rebentassem sózinhas e em todas as direcções ao mesmo tempo.
Eu só pensava nela, e ele na sua Guiné, no meu papel, em tácticas. Arrumado à sombra, Liebig tomava fôlego sob as folhagens de Verão. E, ao longe, saturadas de luz, as mulheres ovóides. Por questão de marcar o meu interesse, calafetado assim no seu sonho, pensamentos e segundos-pensamentos, pus em dúvida o seu pessimismo: — Nós podemos ganhar dez 'anos. Basta agir! Você tem que compreender a situação deste país, François. O almirante Thomaz foi reeleito para a Presidência da República em 1971, sobre uma concessão de Caetano, que confiava num diagnóstico erróneo da Marinha: os seus dias estavam contados. Em troca, tinha a sua lei do Ultramar, a qual no entanto, modificada no último momento pelo clã dos integristas — exército, colónias, interior —, se tinha tornado nula. Pois o almirante, de excelente saúde, aproveitava-se disso para reforçar o seu poder. Daí o nosso plano: convencer o general Spínola a aceitar a Presidência da República, ficando Caetano como Primeiro-Ministro. O general descoloniza, o ministro abre o país à Europa. Juntos impõem uma evolução e, com a liberalização, um regime gaulitano com uma União Portuguesa. Fique o tempo que for preciso na Guiné. Spínola é um espertalhão. Faça o check-up, como se diz. Saberá ele ao menos o que quer? De resto, ligado pela mulher à siderurgia nacional e à CUF, julgo-o respeitador do capital, quando vai ter que o domar antes de mais. Desta vez eu estava inteiramente de acordo, mas desejoso também de me ficar por ali. Pragmático por temperamento, iria a realidade por si só decidir a minha maneira de agir? Não queria sucumbir por minha vez à mentalidade mágica e à conjuração deles contra a verdade, que não para de discorrer sobre operações possíveis. Liebig esquecia que em Fátima são mais os que morrem que os que são curados. Eu nunca pretendi saber o que é a verdade. Puxou-me para me beijar nas duas faces. Tinha dito tudo. E, em voz baixa: «Nós temos vinte por cento de probabilidade do nosso lado... É muito para um homem de direita que teve mau olhado ao nascer.»
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NA GUINÉ-BISSAU
— Bem vê, Bissau é a província.
— E a NATO, meu capitão?...
Ele reagiu. Já não era o oficial da acção psicológica de justificações pobres.
— O continente americano é uma imensidade de medíocres e, por osmose, esses tipos contaminaram a Europa. Têm um coração grande como um melão, mas, fora a CIA e as suas armas sofisticadas, que podem eles oferecer?... Pronto, da actualidade, falamos amanhã.
A hora não tinha cor e eu já não tinha nenhuma palavra. O que não impediu que Otelo me fizesse sair do meu quarto em direcção a pistas bem reais, onde nos esperava um Dornier. A estrada — eu reconhecia-a — desenrolava-se em sentido inverso, com as palhotas, os primeiros peões, a poeira, as ervas, uma daquelas manhãs de Verão, o azul à hora da bruma, e os morcegos pendurados nas árvores como presuntos. O cockpit fechou-se sobre nós. Quantas desvios em direcção às nuvens, a massa da floresta. Mas mais longe...
Rebentado, a morrer, o soldado pedia sombra e estava à sombra. Tendo deixado Bula para armar a emboscada, tínhamos sido surpreendidos pela guerrilha. E ninguém, nem mesmo Otelo abrigado como eu atrás duma árvore, podia dizer quanto tempo ia durar o tiroteio. Dois dos nossos rapazes estavam arrumados. E Otelo, no seu walkie-talkie, cuspinhava para os helicópteros. Podíamos estar no Paraíso, em plena natureza, na natureza. Trocavam-se granadas. E agora, do lado da sombra e por toda a parte, que admirável silenciamento: «Penso que vou voltar.» Rimbaud, de Carnac, 24 de Abril de 1879. Tínhamos encolhido, absorvidos pelo medo, acocorados em nós mesmos, a sombra da realidade do grito continuando a arrastar-se pelos rebentos, cada instante da trégua mais temível, mais transparente, cada dia anterior uma delícia, o coração numa roda viva. E Otelo, igual a si mesmo, a sussurrar para dentro da sua máquina, concentrado, seguro de si, predestinado, o domador que não precisa de morrer para jurar que a morte existe. As ondas tinham acabado por apanhar o quartel--general, porque daqueles lados um cristal pedia a nossa posição. Que desperdício de tempo! pensava eu. Que desvio! O desvio pelo céu donde caíam a pique dois helicópteros. Num deles aterrava Spínola e a sua gente. Dispersos, desirmanados, nós saíamos dos nossos covis, e ele avançava pelo carreiro, monoculado, stickado, camuflado de seda, boina à rabo de lagosta, botas macias, o Antigo Regime, marechal de Saxe, o porte. Eu acrescentaria, o monóculo bem pode ser alemão, a impressão é toda ela italiana, roupa fina. Quatro tenentes, seus ajudantes, enquadravam-no, oficiais de cavalaria, Santarém, alto lugar das cavalgadas, bonitões um pouco crispados, incomodados com as esporas. Nós parecíamos uns coitados, cabelos colados, estupefactos, velhos telespectadores. Ele vem em nossa direcção, passo a passo, acariciando o mato com a ponta do pingalim, luvas de pele de borrego separando o brilho do chicote do brilho do monóculo. Depois, a sua voz chega até mim, suave, papal.

Aperta as mãos. Eu ouço: «... Levem os feridos para os helicópteros e recuem com ordem. Cabral vai pagar caro...» Está a dois metros. Não me dirige um único olhar. O seu olho de galinha constata apenas que eu estou ao pé de Otelo. Mas bastara a sua presença para restabelecer o moral; desencolhemo-nos, sacudimos o pó. Já o morto fora evacuado, enrolado num pano, e os dois feridos em macas. Quando, de repente, Zum! Pam! Pum! O PAIGC voltou à bazuca. E éramos todos a mergulhar. Pum! Pum! Ele, Spínola, nada! Nem um milímetro. Outra rajada. Aço puro. Os ramos em pedaços voam. Spínola só faz psst-psst, contempla com ironia os montes que nós formamos nas ervas. Está sozinho, apresenta-se de perfil, nariz adunco, e um movimento de rotação da esquerda para a direita em direção a Otelo. O modelo toma posições, procura um sinal do pintor. Caberá bem no quadro? «Bem, bem, está bem?» parece ele dizer! Então Otelo lança-se e, galante, pega-lhe na mão, obriga-o a dobrar um joelho. «Assim, sim, muito bem, meu general!» A floresta inicia-se no espiritismo! Tudo aquilo era bizarro e o agravamento das contradições entre o artista e o modelo, um e outro solidários apenas na coragem, o cavaleiro e os plebeus no seu número socialista, nacional-socialista, eu sei do que falo.

(continua...)

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