sábado, 17 de setembro de 2016

"Quinto Império", de Dominique de Roux, excertos - Portugal e o Futuro

As teses de Spínola nada têm de revolucionário: apenas uma Comunidade lusitana, de Lisboa a Timor, e a autodeterminação dos povos. Conceitos requentados, um apanhado de ideias gaullianas que o tempo tornou insossas, cozinhadas pelos tecnocratas da SEDES e outros europeus de carreira do clã do Expresso. Com vinte anos de atraso, os senhoritos da Rua Duque de Palmela, conservadores dum outro género, pálidas estrelas do céu marcelista, tinham enfim encontrado uma razão para se determinarem. Já que explicavam tudo enfiando frases umas nas outras, ei-los agora certos de que o liberalismo encontrou o seu campeão. Spínola, quando só era português, vá lá, mas quando se julga de Gaulle, é o vazio incomensurável, a diarreia multinacional ao sol do Porto. 

Esquecem-se que ele aprendeu a ler aos sessenta anos. As pessoas como ele não lêem nada (excepto o Reader's Digest). Estranho por profissão ao livro, fica tão surpreendido de ver um sob a sua assinatura que em vez de assimilar modestamente as reflexões dos outros, julga-se logo um pensador. Estilo nenhum. Fica cavaleiro gótico, Dona Maria. 

Para mais, ei-lo dependente dos seus conselheiros, que o espicaçam ao fornecer-lhe cópias em proporções sumérias. Apertado no seu crânio de simples militar, teria sido preciso acrescentar-lhe quatro andares para ser de Gaulle. Quando José Blanco lhe administra Hegel, a história do mundo é a justiça do mundo, sente vertigens. Recusa Da guerra, convencido que Clausewitz o plagia. Nietzsche atordoa-o. Engels confunde-o. Quando aborda Marx, corre a fechar-se em casa do irmão em Sintra onde cada habitante viu pelo menos uma vez na vida um disco voador. 

O Expresso, que leva Spínola às nuvens, será o primeiro a demoli-lo quando tiver encontrado melhor, o MFA. António Teimo, que ao menos, na sua província, em Borba, lia os ocultistas e Abellio, chega à conclusão que Spínola não devia ter assinado. Em torno de Portugal e o Futuro, dois clãs: o do general Francisco da Costa Gomes e dos seus capitães, e o do eterno dr. Joaquim Silva Cunha, ministro da Defesa, apoiado pelo Presidente da República, que, surpreendido com a repercussão da obra, reclama um comentário oficial: Esclarecer.

É sabido que o Movimento dos Capitães começou com uma história de promoções. E depois, o ressentimento dá que pensar. Sempre o encadeamento infinito das circunstâncias. Dos Puros (oficiais de carreira) aos Espúrios (milicianos), palavra que significa também «bastardos». 

De um lado, reivindicações legítimas, um grupo envolvendo Andrade Moura, Armando Ramos, Virgílio Varela, Monge, Neves, Casanova Ferreira; do outro, políticos com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço. Estes têm uma cabeça maior que o corpo, e um programa preciso. 

À facção de Monge patriota, que quer derrubar o regime «com as armas na mão» e organizar eleições livres, opõe-se a facção esquerdista de Melo Antunes, armada apenas com o seu programa político e que não quer zaragatas. Conta com a opinião internacional quando, apresentando-se de farda de gala diante do ministério da Defesa, aí começará uma greve de fome. «E nós havemos de devolver as nossas cruzes de guerra ao ministro. Um escândalo universal!» Miserabilismo romântico de Melo Antunes. 

Os Monge são idealistas exaltados, prontos a lançarem-se na aventura «por amor da pátria»; os macrocéfalos pensam derrubar a «ditadura» deitando-se no chão do Terreiro do Paço. Um homem para eles, Costa Gomes! «Travou uma luta magnífica em Moçambique contra a subversão.» Tal é a ideia de Antunes, fanático da moderação, que inventou um socialismo de tecedeira de 'anjinhos à base de leituras dispares: Herculano, Antero de Quental, o iluminado dos Açores, espécie de Leopardi; Sérgio, muito filósofo francês do século XVIII com luzes de Proudhon e Auguste Comte — a parvoíce à francesa. Os seus autores estrangeiros: Marx, Rosa Luxemburgo e as publicações Maspero, que ele encontra na livraria cooperativa da Universidade. Transfigurado por este brique-à-braque, envenenado de impaciência, sonha com um mundo angélico cujo príncipe seria ele, arcanjo gelatinoso que soçobrará no equívoco logo que tiver adoptado um vocabulário.

Para evitar o choque entre os dois movimentos, Spínola consegue criar uma comissão coordenadora onde aparecem os majores Otelo Saraiva de Carvalho e Hugo dos Santos. A primeira reunião do MFA terá lugar em Cascais. A aviação, que não está representada, garante que, no dia D, não atirará sobre os amotinados. A marinha, minada de oficiais vermelhos, uma tradição republicana, envia quatro representantes manobrados por Rosa Coutinho, submarino do PCP. 

Cento e noventa e seis oficiais tagarelam sobre a democracia pluralista, navegam entre Spínola e Costa Gomes, entre o calor da Baía e o fiorde. Quem quer para chefe único do movimento o general Spínola levante a mão! Ninguém levanta. Quem quer Spínola e Costa Gomes juntos levante a mão! Unanimidade! 

Assim são as conjurações! Desdobramentos de baratas. Trata-se por vezes de débeis mentais absolutos. Antigamente, as pessoas tinham vergonha de se confessarem imbecis. Hoje, o cretinismo é também o privilégio da esquerda. Ontem, no metro de Paris, um letreiro enorme: «Alto à democracia» e no Centro Católico de Assas, um pano vermelho: «A democracia não passará.»

Saraiva de Carvalho, que ninguém leva a sério, é ao mesmo tempo a mascote dos insurrectos e o agente de ligação de Antunes que o soube impor à comissão do plano militar. O seu papel limita-se a transmitir, mas fielmente... Seria antes pela plebe. Ora, eis que o histrião encantador e gabarola dos números de galucho nos palcos da Guiné entra na pele dum outro personagem, Otelo revolucionário e estratego, que se lança de corpo e alma na conjura, como já em tempos se tinha embeiçado pela Legião Portuguesa, instrutor a 400 escudos por mês, ou como se tinha sabido insinuar no grupo CUF, agente imobiliário; cantor de fado para Edward Kennedy! 

No governo, sabe-se mais ou menos que se está a tramar um golpe. Caetano tem contactos sem os ter, nomeadamente com Spínola, mas guardando umas distâncias tais que lhe deu o seu aval sem que a decisão lhe seja imputável. 

Quanto à PIDE-DGS, funciona mal com Caetano, que a destrói ao mesmo tempo que a conserva. Desde que se chama DGS, já só é um mito, delegada para a vigilância dos grupúsculos de esquerda e dos meios estudantis. Ia longe o tempo em que ela pululava, mais numerosa à noite que coelhos bravos. Pode-se abolir a tortura, nunca acomodar a polícia. De resto, Silva Pais e os seus Barbieri (os dois chefes da polícia política) trabalharam tantas vezes em Africa, de mãos dadas com os Capitães, que dão provas, em relação ao Movimento, de uma estranha irresolução. 

Ninguém, neste meio pequeno, se pode desembaraçar dum passado comum inscrito no corpo. O pai do próprio Melo Antunes é um agente notável e todos os movimentos de libertação têm contactos com a PIDE-DGS. Nito Alves, entre outros, encarregado em Angola de infiltrar a primeira região militar do MPLA... 

Em 1966, o general Deslandes, colocado em Luanda, sugere ao ministro do Ultramar, Adriano Moreira, a solução rodesiana. É rejeitada mas, desde esse instante, Champlicano nunca mais deixará de ter contactos secretos com o MPLA, o PAIGC e a Frelimo. Tudo está atacado de inutilidade mortal. Tudo soçobra.  

A 14 de Março, os ultras (Presidente da República e Silva Cunha) conseguem a destituição dos generais Costa Gomes e Spínola. 

(...)
17 de Março de 1974: os autores do golpe das Caldas estão na cadeia. O Movimento dos Capitães viveu. O Movimento das Forças Armadas começa. Os jornais minimizam. Caetano repreende os «inocentes», levianos talvez, na televisão. Tudo volta à ordem. Esquece-se Spínola, que perdeu a ocasião e mantém um silêncio absoluto sobre o fiasco. Mas Antunes, que inventou Otelo para estrangular o putsch sem ele saber, pede-lhe que retome por conta deles o plano de Casanova.

Os acontecimentos formam-se por si mesmos, mas depois do 16 de Março, a estrada está livre. Os capitães ideólogos souberam tirar uma lição da fuga do governo para Monsanto! Vão poder pôr em execução sem falhas um plano já experimentado. Estratego modelo este Casanova, se não tivesse sido vendido. Os livros que Antunes leu, interpretados à sua maneira, conseguirão o 25 de Abril e porão Otelo em foco. Esse, tinha sido sorteado à palhinha, um bom companheiro, grato aos seus amigos, que o vestem com a pele do urso. 

António Chapalimaud afirmou, no entanto, o seu apoio a Spínola aquando da assembleia geral do Banco Pinto e Sotto Mayor. Única nota discordante: Dar-Es-Sallam, onde Marcelino dos Santos, vice-presidente da Frelimo, acusa este mesmo general de perpetuar de outro modo «o sistema português da opressão e exploração». 

Estão drogados com éter, os responsáveis deste regime à deriva. E a fina-flor progressista, em Megève, encontra-se com Nelson Rockefeller, Luns (da NATO), um Helmut Schmidt, todos os patrões das «multi». Interrogam os embaixadores estrangeiros sobre os acontecimentos das Caldas, pedindo-lhes respostas de guarda-livros. «Reina a calma em todo o país»...

(...)
Eu reencontrei Otelo (na foto à esquerda aquanda da sua primeira comissão, em Angola) em plena história de amor. Tinha posto o pé em ramo verde. Cada vez que lhe dizia: «Amo-te», ela respondia: «Cala-te, tu falas depois.» Parecia aparvalhado de sono, enfiado numa poltrona de pelúcia, almofadas bordadas, mobiliário Olaio. Numa estante, Júlio Dinis, Octave Feuillet local, e alguns livros desse Jorge Amado, mesmo bom para as pessoas que lêem isso. Na parede, a reprodução d'A Ceia de Leonardo, que coroa todos os lares do soldado: «Em verdade vos digo, um de vós me há-de trair.» 

Otelo: «Com esta vida, já não durmo. Ainda menos tempo para ler. Em breve, vai haver barulho.» 

Que mudança desde Bissau! Cezarzinho tinha engordado, o queixo ao cubo e o maxilar... Gozo e trivialidade tinham guarnecido o jovem capitão que teria podido sonhar com o teatro. Diante de mim, um adulto ultrapassado pelas suas ambições. Como um pára da Argélia, um reprovado alemão dos anos 25, eu sentia-o fora do real, fascinado pelo poder popular, que reivindicava para os seus camaradas e ele mesmo em nome duma vingança e dum ideal confuso, nacional e socialista. 

Solene, tinha-se posto a explicar-me, plácido como um touro manso, a sua Revolução. Como eles a viam, ele e os seus camaradas, esta festa socialista, toda a gente feliz, construindo à saloio uma sociedade sem classes, falanstério, kibboutz e campo de juventude. Um sentimentalismo de obscura administração de mato. Ele só acreditava no vivido. 

Teria diante de mim uma encarnação portuguesa da Internacional do fascismo vermelho que, do castrismo ao esquerdismo, recruta todos os dias uns meia-tijela? Recusava-me a acreditar. 

— Você ouviu-o, François, o nosso general Spínola na Guiné, Pátria, Pátria, mas nem uma vez a palavra popular. Fervia a demolir Spínola, mimando o seu ar de prelado quando se dirigia ao povo: Bom povo português. 

E eu, que tinha vindo a casa de Otelo para lhe falar do gaullismo, duma revolução gaullista em Portugal! 

Continuava ele: — O cavalo foi dado a Spínola. Nós teríamos preferido que ele caísse à esquerda no galope. 

Com a mania portuguesa de remontar sempre ao dilúvio ou de se calar, eu tinha direito à biografia completa, ao concurso hípico, à lista dos prémios...

— A sua Revolução, Otelo, eu aconselho-o... Reforma agrária total. Unidades de produções agrárias controladas pelo MFA. Quarentena dos partidos. Ofensiva, Otelo, contra o PS e seus aliados de esquerda. Nacionalização, expropriação a todo o custo. Deixe só de pé os patrões nacionais de tendência MFA... 

Ele só escutara para me dizer: os franceses são assim, eu sei, eu sei, eu sei... «Parênteses, nós os capitães, nós somos contra a propriedade e pela camaradagem, apenas.» Tinha retomado o fio da conversa sobre o outro à rédea solta. As dragonadas, revistas de lanceiros, cargas contra os grevistas... 

A partir da África, eu sentia que Otelo não podia deixar de invejar, primeiro, o coronel em Angola, e depois o procônsul junto a quem eu o tinha visto servir com que despeito amoroso. Inesgotável. 

Eu consegui dizer uma palavra: Os esquemas marxistas, Otelo, são inaplicáveis em Portugal. Não há indústria, Otelo, muito poucos proletários. Realize ao menos aquilo que de Gaulle não teve tempo para impor à Europa: liquidação do capitalismo pretensamente nacional, na realidade estrutura de dissimulação imperialista. 

Ele escutava. «Otelo, desabitue este país! A classe dominante vive habitualmente. Num país despolitizado a este ponto e psico-socialmente levado a aceitar uma tutela ditatorial, evite a politização que prepararia um novo totalitarismo. Impeça todo o paternalismo e mesmo todo o dirigismo. Reserve a arbitragem para si.»

Otelo engolfava-se na verbosidade à moda, as palavras para exprimir o quê, repetidas sem fim, bagatelas tiradas dos livros de sociologia que não duram dez anos... Ele falava de organizar «um Kominform português», uma semântica de combate, «urna linha socialista-nacional-revolucionária de autenticidade portuguesa no seu combate político-revolucionário de vanguarda». A sua referência: Melo Antunes. Tinha, por ele, a razão da história, o código dos costumes. O único que tinha uma máquina de escrever. 

Vasco Lourenço
(...)tocavam à campainha. Aquilo movia-se devagar. Primeiro, sapatorro número cinquenta, graxa preta, sola dupla e calças de cagar em pé, os bolsos atafulhados de tabaco. Seguia-se a corrente de relógio presa aos suspensórios e chegava-se ao tronco dum pesadão, de coração nas mãos, com certeza, e cheio de malícia, como estava cheio também do que tinha comido na véspera. Melena na testa, deitar-lhe-íamos fogo para fazer rebentar o petardo. Este Vasco Lourenço que tinha o punho do tamanho da cabeça, era capitão, igualmente, mas não satisfeito de ser só isso. Queria, por sua vez, fazer a sua experiência, desempenhar um papel, ambicioso obstinado pelo lugar de Salazar. O nome dele lembrava o quê? Era ele o espantalho de Bissau, expressão que usavam para qualificar um oficial que passava as estribeiras? 

Eu estava a mais. Tinham que reflectir entre eles e reflectir em quê! Phraséologie oblige. Otelo acompanhou-me até baixo, querido tanso. Eu deixava-o entregue aos seus planos, puxar um pouco daqui, um pouco dali, ideias a uns, carícias aos outros, fidalgote na sua terra, tal como também se escreve um romance. No fim de cada frase, mil possibilidades de guardar, de cortar, de condensar, tudo do domínio do arbitrário. 

O exército em fuga atirava-se à aposta lançada por Spínola, mediador versátil a quem de Gaulle não teria dado dez galinhas a guardar. 

A porta fechou-se sobre os dois compadres! Eu escutava-os a resfolegar: 

— Ó rapaz! Ó papos d'anjo! Tu bochechas! Remoques de caserna, em que voltava batatas. Eu soube depois do 25 de Abril que aquilo queria dizer «povo»... 
A minha indiscrição foi breve. Oficiais lançavam-se pelas escadas, convexos, desbragados, uma quinzena de dinossauros anões, mal instruídos em ideologia. Última reunião dos golpistas. A melhor profissão do mundo, é, apesar de tudo, a de revolucionário. Eu cruzava a História... A História é horrível e vazia.

(...)
24 de Abril de 1974! Um destes últimos belos dias! 
O dinheiro isola ainda no Ritz, refúgio dos corrilhos e dos homens de negócios detentores de segredos de Estado. Vêm às informações junto aos criados do bar que não escondem aos iniciados o pertencerem à PIDE. 

- Senhor Jardim, em Tomar deitaram a mão a um estudante. Levava uma mala da Frelimo. 

Jardim virou-se para mim. Está a ouvir, a desintegração por toda a parte. E estamos em Abril! Tinha-me chamado com toda a urgência ao Ritz, onde eu o encontrara, mal barbeado, atrás de óculos escuros, em plena conversa. 

«Enganaram-me, François, a mim, Jardim... O próprio Caetano! Aqui está: «Depois do caso Wyriamu, eu resolvo conceder sozinho a independência a Moçambique. Tinha podido organizar, graças às minhas relações pessoais com a Zâmbia e o Malávi, as primeiras conversações do cessar-fogo. Kaúnda representava a Frelimo e Banda, Portugal, por meu intermédio. 

Estávamos neste pé, quando — não sei que mosca me picou — eu decido informar Caetano. Parvoíce, não é, ter uma consciência? Arrependemo-nos sem razão. Nesse dia, valia mais ter lutado com o diabo. A 12 de Abril — passo os pormenores —, cometo a dupla imprudência de contar-lhe tudo e de lhe deixar uma cópia das negociações. Acolhe isto com espanto e frieza. 

Eu acrescento: «Senhor Primeiro-ministro, compreenda que nem Kaúnda nem Banda podem aceitar um Moçambique comunista.» Manda-me embora sem uma palavra; três dias depois, sei através do nosso amigo do Ritz, o barman, que Caetano entregou o meu texto a Costa Gomes que o confiou ao general Silvino Marques que o dá a Spínola. Depois, nada, silêncio de morte. E eu sou seguido pela PIDE. In articulo mortis! Ah! Um segundo! As últimas notícias de Moçambique! Chamo Castor no meu walkie... Escute!» 

«Castor, aqui Castor, dizia a voz misteriosa... Desmente-se que Mons. Vieira Pinto, bispo de Nampula em Moçambique, tenha sido preso aquando da sua chegada a Lisboa. Acrescenta a mesma fonte que o prelado tem os movimentos livres. Foi conduzido ao Cartaxo, a uns cinquenta quilómetros...» Furioso, Jardim tinha desligado: «Peço notícias da situação em Moçambique e Castor dá-me o angelus

Um dia acabo por descobrir que ele trabalha para Champlicano. Trabalham todos. Nito Alves, em Angola, uma criação Champlicano, e encarregado de desmantelar a 1ª Região Militar do MPLA à qual pertence. E Marcelino da Mata, muito ligado ao PAIGC, mata Cabral. É preciso ser português para perceber! Estranho, irreal! Champlicano, desde há trinta anos, você vai acreditar, todos os anos pelas idas de Março, passa esta notícia no Times: «O Sr. Júlio César, o homem mais nobre que viveu no fluxo e refluxo do tempo, assassinado pelos que mais lhe deviam. 44 antes de Cristo!...» 


Bom, cá está o Kaúlza! Nem uma palavra sobre a nossa conversa! Encontremo-nos aqui por acaso. Ele é menos beato que os outros...» 

Via-se Kaúlza patrulhar no vestíbulo, através da porta envidraçada, candeeiros Lalique, tapeçarias de Gaudissart, baixo-relevos dourados, a decoração dum paquete. Parecia esperar... O barman tinha ido ter com ele e, juntos, calcorreavam a sala, pensativos. «E sobretudo não lhe vá chamar fascista, vibrava Jardim no crepitar dos gadgets. O exército do ar é-lhe devoto, o general Troni e os seus páras. Tem diante de si o ponto central onde tudo converge. Arriscamo-nos a uma bela pinochada! Senão, é a profecia de Lenine: "A Europa cairá como uma pêra madura, quando formos capazes, dizia ele, de a cercar não só a Leste, mas ao Sul, assegurando-nos em África das posições-chave". Desde que...» 

Lá ao fundo, o barman inclinava-se para reaparecer atrás de nós: — Senhor Jardim, devo dizer-lhe, Costa Gomes... No vestíbulo, as costas de Kaúlza tinham-se arredondado. Só, inacessível, a «Pantera cor-de-rosa» dirigiu-se para a porta giratória que, no seu movimento, o levou. 

(...)
Eu vi-me a empurrar a porta do Botequim, e beijar — boa noite — Natália Correia, poetisa, o matriarcado em estado puro, muito antiga e muito moderna. Mme. de Staël e Mme. Récaniier, as duas juntas, mal teriam feito Natália. Quando Mme. de Staël refilava, o Directório preocupava-se. 

Mais seriamente, Natália profetizava! Sobre Spínola: Apoiemo-lo não pelo que é, mas pelo que representa. Vasco Lourenço? O campónio do grupo. Um saloio, um manhoso. Melo Antunes? Pior que socialista ou comunista, a paixão de enganar. O último acto de Tartufo. O Tartufo Lusitano, as ambições de Tartufo. Otelo? Nada. Um idiota! Ela via os acontecimentos precipitarem-se e a Revolução conduzida por ineptos. Uma dinastia de artistas, perguntava ela, que não coincide com nenhuma ideologia terá o poder de transformar a fatalidade da morte em ressurreição? 

Nesse caso, François Mazin devia esquecer o seu gaullismo, ligado ao General em vida, e mergulhar na clandestinidade, provocar focos de incêndio com fósforos. 

— Nada mais discreto, François, que a candura e, no bolso do fato, uma caixinha de fósforos. As bombas são para quando se perdeu tudo. 

Fomos jantar a uma tasca: O Clube dos Três Vinténs. A patroa asturiana cantava com pronúncia de Castela. Tinha o volume dum monge lúbrico, deitava vinho em gaitas de grés vermelho. Meia noite em ponto! Ela cantava um fado: 
«Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.»

O quão delirante começava o 25 de Abril! Era lua cheia e em breve a Páscoa. Isto tornava-nos ferozes! Senhor tende piedade de nós! O candidato à Presidência seria um morto. 
(...)

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