quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O QUINTO IMPÉRIO, de Dominique de Roux. No 25 de Abril. excertos

O indicativo militar é Oscar. O cravo e as varandas florescem. A burguesia, persianas corridas, já não ousando tocar no telefone, agora que os outros escutam, faz as malas. A populaça, essa, começa a reclamar Caco Baldé*, Patrão Monóculo, o general António Spínola. Julga-o um Júpiter, e ele julga-se Dom Henrique. Com ele, nunca mais precisamos de trabalhar. 

Ora, ele não sabe nada. Chegou mesmo a esta idade sem pensar em nada, só servindo para escorregar nas cascas de banana, antagonizando as pessoas que estão por ele, sem ganhar vozes do lado oposto. Tal como Kaúlza de Arriaga, só podia mudar a República no Antigo Regime. Mal apanha o combóio do 25 de Abril em andamento, Spínola afasta Arriaga, que considera um fascista. Como dantes, tomará o poder sozinho com uma revolução de palácio. «As coisas não correm nos campos tal como são ordenadas nos gabinetes.» Quais são as suas margens de manobra? Que pode ele caucionar que logo não escape à sua acção? Clausewitz, por exemplo, tinha um princípio geral: conquistar a opinião pública. Entretanto, a rua descobriu uma canção: O povo unido jamais será vencido. O eterno mal-entendido! 

Os portugueses nunca descobriram nada, senão a Índia no século XVI. Sem endereços e todos com o mesmo nome, obedecendo a dois ou três pequenos princípios, entre os quais o de inventarem títulos, sentimentais, jogadores de futebol, correndo à janela quando passa uma ambulância, inscritos em clubes de orfeão, de harmónica e contando histórias por não as viverem eles mesmos. Só compreendem pois as coisas portuguesas, pouco manipuláveis do exterior, mas invejosos, e sempre à procura de lucros. A última palavra de Os Lusiadas é inveja. 

A arrogância do PC, estes ideólogos estrangeiros que desembarcam e pronunciam outras palavras com outras ideias, o auditor desconfia deles. O pobre major Vítor Alves alarma-se, atraído como os seus camaradas pelo vazio ideológico: «O 25 de Abril foi obra de alguns militares, somente a aceleração da história atordoa-nos um pouco, é natural.» 

Ninguém se preocupa com o Presidente da República, Américo Thomaz, garante da Constituição. Abandonaram-no na sua vivenda do Restelo, entre a mulher e a filha. Desde então, não parou de dormir no exílio — Presidente da República do Hotel Miramar, no Rio, à custa da comunidade portuguesa do Brasil. «O que está comprimido deve ser descomprimido», a fórmula há pouco célebre do marcelismo é retomada por Spínola que, tendo feito causa comum com os facciosos, vem em pessoa explicar-se ao seu ex-Presidente do Conselho: não foi ele! Não foi ele quem desencadeou o processo da acção em curso, apenas aceitou chefiar o movimento. Assim o poder não cairá na rua. O fim terá respeitado as velhas regras de etiqueta.

O General, no corredor no corredor, espera que o seu antigo Primeiro-Ministro e cúmplice lhe dê ordem para entrar e lhe entregue a sua demissão. 
Pouco depois... 

Na madrugada do 26 de Abril, na televisão, Spínola apresenta a Junta de Salvação Nacional e lê um discurso que não é dele, contrário aos seus princípios. Tem uma cabeça esquisita: a nuca enche o écran. Cyrano? Cada qual tem o nariz que merece! A opinião da ONU é a sua obsessão. Tudo é preferível a estar em desacordo com a opinião internacional, como se essa opinião existisse em si, enquanto, flutuante e fabricada, ela representa o despeito e a manigância. Spínola aceita os cravos, as honras e os louvores, sem perceber que os mais maliciosos o insultam por antí-frase. Nele desapareceu toda a vigilância. Diz sim a tudo e sobretudo ao inaceitável, sinal de que isto o ultra-passa, e mesmo àquilo a que devia dizer não. Julga que os seus desejos, que já não têm a força de ordens, terão efeito no dia seguinte. 

Ora, Álvaro Cunhal, que ele se apressou a chamar do exílio, e que julga abertamente que aquilo não é um regime mas uma situação, mina o que lhe resta de prestígio. Na noite de 26-27, Patrão Monóculo já não controla a informação, nem os postos-chave. Costa Gomes está por trás dele, tranquilizando-o, mascarado pela sua hipocrisia. Esconde-lhe que trabalha na radicalização do MFA, em seu proveito. A hidra Costa Gomes, e que hidra!, à falta de contar as cabeças, pesa a papada. 

Para ele o 25 de Abril chegava treze anos tarde demais. Com efeito, a 13 de Abril de 1961, ao meio-dia, Salazar, avisado a tempo pelo general Câmara Pina de que o iam prender em plena sessão do Conselho, destituia o seu ministro da Defesa, o general Botelho Moniz. O inquérito mostrou que o regime estava roído por dentro, deixava entrar água. Entre os suspeitos, citava-se Craveiro Lopes, antigo Presidente da República, Marcelo Caetano e o tenente-coronel Costa Gomes, instigador da conspiração inteira, dizia-se. Kaúlza pedira sanções mas Salazar, gasto, já só estava em medida de querer uma coisa: durar. No entanto, Costa Gomes soube desenvolver a sua astúcia para apagar o rasto e agir de outro modo.

A reaparição de Costa Gomes ao lado dum Caetano já não conjurado mas Primeiro-Ministro, ia ter consequências imprevisíveis. Insidiosamente, aquele a quem os íntimos chamam Chico, empenha-se em semear a dúvida, orquestrar a lisonja à volta de Marcelo, tendo o cuidado de mudar muitas vezes de opinião e não aceitando conselhos de ninguém, incitando ao derrotismo. À menor resistência, esquiva-se; mas em caso de sucesso, aquiesce, visto que um homem não conspira sozinho. Trava de propósito a evolução do Ultramar, ajudando ao mesmo tempo Melo Antunes a enganar o exército e a fazer-se amar, senão temer. 

Portugal tem que sair dos seus gonzos e que importa que volte às suas origens ibéricas, desde que a Africa seja libertada? Ninguém jamais saberá que interesses representa o Chico! Estados Unidos, URSS? A sua ambição? O Santo Sepulcro? Entretanto, vai chupando o sangue de Caetano, travando o avanço de Spínola, acelerando a destruição e, parodiando, «vê o fim de Portugal traçado no mapa» ; um mapa onde, como chefe de Estado-Maior General, se compraz a indicar a lápis vermelho as vitórias portuguesas em Africa. Estimado no poder, Chico tem um único inimigo em potência, o seu camarada Spínola, o popular governador da Guiné. Em vez de o contrariar, favorece-o, até que Spínola, no Verão de 1971, revele a Marcelo Caetano, aquando duma estadia no Buçaco, a sua estratégia no terreno onde o PAIGC está militarmente derrotado por um corpo expedicionário bem dirigido mas exangue. 

O general pleita com uma tal competência que Caetano lhe pede um relatório que irá examinar antes de dar uma resposta. 1 o Projecto Cabral-Spínola que, após ter sido rejeitado oficialmente, empolado de ideias elementares, se tornará Portugal e o Futuro. No entanto, Cabral tinha aberto mão, aderido aos pontos fundamentais do projecto: 1.° — Manutenção de Spínola no cargo de governador da Guiné até à emancipação do país; 2.° — Fusão dos combatentes do PAIGC e dos comandos africanos; 3.° — Nomeação de dois secretários-gerais, sendo um Amílcar Cabral e o outro um representante do governo português; 4.° — Referendo para decidir o estatuto político, independência total ou laços federativos com a metrópole. Há muito tempo que Cabral tinha contactos com um correspondente de Spínola em Londres: ZCZC EFLO23 PLB 976 56 FI 42-2 G 4B C° SGD — 029 ZIGUINCHOR. 29.14.1130 ROYAL Hospital Nursing Home Room 228 Gray Inn Road. WC I Londres. «Prazo indicado muito curto encontro possível se indicar nova data permitindo organizaçao viagem Stop. Saudações. CABRAL.» Um pouco mais tarde, a 15 de Novembro de 1972, o irmão envia um novo telegrama: «Estamos atrasados. Pedimos transferir encontro sem falta 20 Novembro corrente. Saudações. LUIZ CABRAL.» 

Era fácil a Costa Gomes recomendar prudência a um Primeiro-Ministro, a surpresa torna-o tanto mais irresoluto. Não podia o projecto Spínola-Cabral, observa perfidamente o seu conselheiro, ter repercussões catastróficas no resto da África portuguesa? Convencido, Caetano recusará o encontro com Senghor na cimeira. Donde as consequências conhecidas: assassinato de Amilcar, nascimento de um movimento de contestação militar na Guiné. Falta neutralizar Spínola. 

Chico desembarca em Bissau com uma nova táctica imposta, diz ele, por Caetano: cessão das posições avançadas ao inimigo e recuo dos portugueses para as cidades. Era dar a iniciativa ao PAIGC, que trará armamento pesado, cercará os aquartelamentos, proclamará, de pleno direito, que controla metade do país. Spínola demite-se, substituído pelo general Bettencourt Rodrigues que vai ter que acomodar-se com uma situação podre. Caetano tenta reconfortar Spínola com honras e aliá-lo oferecendo-lhe o ministério do Ultramar. Costa Gomes percebe o perigo. Quem controla o Ultramar controla o exército. Chico faz então com que Marcelo compreenda que há incompatibilidade entre um con-servador como o ministro Silva Cunha e o libertador Spínola. Propõe, para salvar as aparências, a criação dum posto de vice-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. Spínola cai na ratoeira, persuadido por seu lado que vai poder manobrar Caetano por dentro. 

O desgraçado não adivinha, na sua candura, que aquele que tem como o seu companheiro de armas o obriga assim a conspirar às claras. O ano de 1974 começa num clima de crise. Gomes-Chico aconselha Caetano, Gomes-Judas beija Spínola. Um pouco mais tarde, manda apresentar a Caetano e a Spínola o Programa do MFA n.° 1. E no próprio dia 25 de Abril, encarrega Otelo de remeter a Spínola, que se tornara, graças às circunstâncias e ao seu prestígio, a autoridade suprema, o Programa n.° 2 que, surpresa!, prevê a nomeação de Costa Gomes para a presidência da República e a de Spínola para chefe de Estado-Maior dos exércitos. 

Chico tinha-se convencido de que o seu camarada, apanhado na tormenta, ratificaria as suas decisões. Bem entendido, ele recusa-se. E, intrujado pelos capitães, indigna-se e procura juntar-se a Costa Gomes, mais próximo que ele dos oficiais subalternos, a fim de que ele os castigasse em consequência. Mas Chico desapareceu. Circunspecto, sem saber para onde iam virar as coisas, ele e a família inteira tinham ido refugiar-se há dez dias no Hospital militar. 

Otelo, Vasco, Melo Antunes, a sua equipa, saberão calar-se até estarem nos comandos na noite de 27 de Abril. Por uma vez, Spínola tem a última palavra, mas, rancoroso, quererá vingar-se destes gaiatos que o enganaram. Ignora que os meios de que se vai servir causarão a sua queda e aproveitarão àquele que ele não soube desmascarar.

Na Cova da Moura, sede do Estado-Maior e da Junta, Otelo, já alcunhado o brincadeiro antes de ser o «brigadeiro», deleita-se e relata-se, tendo a astúcia de se dizer socialista. Não confessa nenhuma ambição pessoal, apenas uma ambição de equipa. Consumido pela ideologia, mas sem saber qual. Lê os jornais e só acredita nos jornais. Nenhuma capacidade de resistência, permeável a tudo, pretende obter a pele dos ministros, mas sem saber como. 

O perigo é, segundo ele, o 1.° de Maio que se avizinha, a Festa dos trabalhadores. Tudo se fez de improviso e assim deve continuar. Cunhal e Soares? Só polí-ticos! Repete aos jornalistas: «... Eu fui simplesmente o cérebro desta Revolução. A origem do Movimento remonta a Julho de 1973. Por decreto, a duração da escola superior de guerra era reduzida de quatro a um ano, fazendo de nós oficiais atamancados, condenados aos cursos da noite... 

«Na véspera do pronunciamento, eu monto o meu quartel-general no quartel do génio da Pontinha. Tinha aí amigos certos e nós precisávamos de blindados. Os comandantes de unidade foram prevenidos duas horas antes, e o simples soldado ignorava tudo,pois às 0h45 eu já só tive que manobrar, de Lamego a Faro, um pequeno exército de cinco mil homens, dos quais três mil conver-giram em Lisboa, ocupada duas horas depois. «O general Spínola, esse, não tinha sido posto ao corrente. Até ao 25 de Abril, ele estava até afastado do nosso movimento, logo da Revolução. Mas como nós tínhamos que pensar, em caso de êxito, num programa político, lembrámo-nos naturalmente dele. Não queríamos que o poder caísse na rua. 

Hoje, Spínola está identificado com o MFA. Nada nos fará desviar do nosso programa em Portugal e em África, a paz e a autodeterminação em África, mesmo que tivessemos que lutar para o impor à Frelimo e ao PAIGC...» Ao lado dele, friorento, embrulhado num cobertor, o capitão Varela Gomes, escapado do Golpe de Beja, quatro anos de prisão, seis balas na barriga, a série negra, discute com Oscar, enfim presente aos olhares e sob o seu verdadeiro nome, o coronel Vasco Gonçalves, última expressão moderna do ateísmo místico. Tentem falar em razão a um inspirado que pretende fazer tábua rasa para que nasça o homem, novo! Todos os cortejos organizados por Hitler ou Estaline estavam cheios de homens deste género. Nunca se saberá quando é que o coronel Vasco Gonçalves, hebefrénio notório, entrou na antecâmara da esquizofrenia, Marat epiléptico menos os furúnculos. 

A Marinha, que ainda não arriscou nada, alia-se discretamente aos seus fusos, os «fuzileiros» com as fitas de Kronstadt. A pouco e pouco, todos os fragateiros se promovem a almirantes: Pinheiro de Azevedo, quando alguma palavra lhe chega a sair da boca, é um Jean Bart. À multidão que lhe reclama um discurso, ele urra: Vão bardamerda!, relatado cada vez com variantes devido ao seu cunho popular. Rosa Coutinho, muito Nuremberg, a careca do forçado das galés, esse a quem a FNLA tinha inflingido as piores ofensas condimentadas de piripiri, tem contas a ajustar com a Angola. Nada, excepto um apoio resoluto ao partido rival, o MPLA, poderá apagar o traumatismo que se junta à humilhação de ter sido resgatado como escravo pela bolsa de Salazar. MFA, sociedade anónima, está a postos. Não se conhecem todos os membros, Crespo, Martins, etc., émulos das repúblicas das bananas, descobrindo uma paixão pelos Mercedes e pelo povo, as Batatas. — Otelo, qual é o seu herói? — Hitler! (Um momento de reflexão.) E Nerú... ! Teria ao menos querido dizer Nero? É adulado. Representa com a bilheteira fechada todas as noites. 

A agonia de Spínola prolonga-se no meio das alegrias do esquadrão. O feld-maréchal toma consciência de que o seu livro, que sempre teve um estatuto de inexistência, contribuiu para mergulhar o seu país na barafunda. Adeus federalismo e lusitanidade! 

De memória de Terceiro Mundo, nunca se vira um ministro dos Negócios Estrangeiros atamancar como Soares uma política de descolonização, liquidando tudo para embelezar a sua reputação de socialista. Nem sequer negoceia com os antigos adversários, anuncia-lhes previamente que têm razão. Julgado severamente por Samora Machel da Frelimo, dá por finda a sessão e corre a abraçá-lo. Para a Guiné, as coisas aceleram-se. Manda-os para Londres para casa do amigo Wilson que, precisamente, faz fogo na Irlanda contra os seus próprios terroristas. Spínola, magoado, humilhado, não deixa de avalisar os estragos do chefe socialista que, descobrindo tarde demais que o seu laxismo desonra o porta-voz duma nação, irá disparatar com o tom da evidência, ao mesmo tempo do lado dum socialismo árabe e do lado dos israelitas. Abjecção da diplomacia do MFA, o major Melo Antunes, tomado a Eminência Parda do Conselho da Revolução, qualifica a descolonização como 'o maior feito dos portugueses desde as Descobertas'.

Spínola está de asa caída. Não chega aos calcanhares do Primeiro-Ministro de Singapura, déspota esclarecido, que, entre a construção de dois prédios económicos, pergunta a si mesmo: tomarão os comunistas o poder para o ano que vem? Na cabeça de Spínola, uma ideia fixa, como desembaraçar-se do MFA? O seu maquiavelismo abre brechas. Nomeia Palma Carlos Primeiro-Ministro pela dupla recomendação do socialismo e da maçonaria, sendo este tributário dum coração de pilhas e podendo sucumbir a uma emoção. Este santo homem de grande calibre não tinha grande alcance. Cada hora que passa tira crédito ao seu governo, diminui a confiança do Presidente em si mesmo, confi-nado no serralho de Belém, a tal ponto que entre ele e o seu predecessor, Américo Thomaz, se anula a diferença.

O capital preferiu pôr-se a andar. Acampam na Europa, no Brasil, os Champalimaud, Pinto Magalhães, Borges e Cia., família Mello, ITT, CUF, General Time and Rubber, Walter Moreira Sales. Eles não mudaram: Vendem milhões de marcos alemães, dólares, rupias. Com uma simples chamada telefónica, a especulação ganha. O capital foge, paga a matadores e volta quando a estrada está livre, o país governado por um regime acomodatício. O capital é a coisa mais sensível do mundo, dizem eles. A sua conduta é emocional, mas tem a pata do tigre, para lá da mentira, da traição, da desonra. Trata-se de ganhar com tudo e com o défice da nação. Todos os ricaços espreitam o dia do desabar do MFA, sonhando com Guatemala City, United Fruit em Lisboa, um comissário americano por empresa. As pessoas de dinheiro são ignóbeis, piores quando se sentem ameaçadas. Estonteiam-se com projectos vingadores, pagam a alguns pistoleros, sicários com desconto, querendo gastar o menos possível, habituados a corromper tudo a vil preço. 

A espanhola Vigo é promovida a capital mundial da porcelana da Companhia das índias. Os preços vão abaixo. O escudo angolano vende-se ao quintal, cotação do medo. Três pessoas são mortas, o dinheiro baixa. Rembrandt, Velazquez, Zurbaran descolam em avião particular de pistas secretas no Sul. Alguns Espírito Santos e um Brito são presos, mas a banca, a farmácia, o cimento e o aço, tudo embalado, móveis e títulos, arrebanharam para o exílio, até quilómetros de vedação. 

Canoniza-se o embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci: «Santo Carlucci, que mal fizemos nós a Deus? A Banca portuguesa era um Montepio, a Bolsa uma falsa Bolsa, as nossas acções, boas acções, as transferências ilegais, um costume entre cosmopolitas, os nossos dividendos, a caridade bem ordenada começa pelo próprio. Pensa nas nossas filhas, ó Santo, em Leonor, em Mafalda, em Fátima, elas são virgens. Se tu pudesses, ó Santíssimo, mandar os teus rifles contra estes vermelhos nojentos, estes porcos.» Oh, acorrei, floresta de Dunsinane! Para ouvir responder: You're very lucky, Gentlemen! 

E a Madeira reclama a independência. Há o RUMA no Funchal, o MAIA, a LAIMA, o MIJAM e mais recentemente o PDM e o ELAM, todos activos, organizações ditas fantoches pelos mesmos que acham normal entregar as ilhas de Cabo Verde ao PAIGC. Dizem que a CIA está no Corvo, mas que o KGB nunca esteve na ilha do Sal. Portugal já não passa duma província que, entre o pandemónio e as transacções clandestinas, grita o que perdeu. Tornar-se-á também ele um país como os outros? Em primeiro lugar, o que é uma revolução que acaba com os títulos e os galões do salazarismo para ainda mais se engalonar? 

Outrora, a peste, que penetrava pelo porto de Lisboa, era propagada pelos vendedores de tecidos: «Foi assim que morreu Brás por causa do casaco e que foi enterrado com ele.» O MFA faz viver os alfaiates em pé de guerra, mobi-lizados noite e dia. Pedem-lhes bordados, coisas brilhantes, tecidos e galões. É a quem conseguir duas, quatro estrelas. Mofa-se: o Hotelo tem quatro estrelas. Spínola que não deve, pensa ele, contas a ninguém, prepara-se para a dignidade do marechalato. Encomendou uma farda de gala, preta, mangas com torcidos, frente e bolsos regalonados, colarinho direito ornado de debrum vermelho, cinto preto de crocodilo com REPÚBLICA em letras douradas, calça de seda com banda amarela, meias botas de couro macio. Fechado neste estojo chapeado de ordens, pavoneia-se, excitado por receber os embaixadores comunistas de casaca, enquanto se vai remirando ao espelho. 

Quanto a Costa Gomes, não se conhece exactamente a origem do seu cinzento azulado que se aproxima do «cinzento solha», gravata branca e casaco traçado de duas filas de botões de oficial general em tecido da mesma cor, mangas em fio de prata, colarinhos bordados com um CG escarlate. Elegante, consciente disso, julgando-se irresistível, não se atreve. com medo da mulher. Por não poder mudar Portugal com um toque de varinha de condão, os capitães vivem à larga. O major Fabião — uma doença de nervos — deambula feito general castrista, mas o casaco verde-azeitona cai sobre uma calça de nanquim. Os ajudantes estão à coronel, de dólmans pretos, os novos brigadeiros trazem casacos azul ferrete, capa bordada com o recamo do posto. 

Entrou-se na era das intentonas * e das inventonas *, a descoberta das «presumíveis conspirações» que permitem as contra-conspirações. No Botequim, Natália Correia, só ela um partido, manda cantar a história que se anuncia: Cunhal juntando as suas mentiras à mentira que ele representa; Melo Antunes recusando o PC mas apoiando-se numa esquerda que vive à grande em Moscovo, e Otelo entre as mãos dos esquerdistas, que a direita manipula, convencido em dez minutos de qualquer coisa por qualquer pessoa, e mudando tantas vezes de opinião que os seus companheiros se perdem até ao momento em que o conflito ainda latente entre Vasco Gonçalves, o «ditador», e Melo Antunes, o «pensador», avança com o carro de enterros. Nos documentos internos do PCP, um leitmotiv: Otelo uma vez cai para um lado, outra vez para outro. 
CDE é uma mulher lá que a gente se diverte Diversos partidos, diversos Um só é uma mulher. 
E o famoso: 
M. R. Pum Pum Sejam chineses Já que os moscovitas São uns parasitas São uns trastes burgueses. 
Também lá se canta o romantismo socialista, Soares-o-doce, apaixonado pela sua estrela, um édredon. Mas quando Melo Antunes, na sua manobra anti-gon-çalvista, quer fazer de Fabião Primeiro-Ministro, certo de governar efectivamente por trás deste pateta, impossível encontrar o seu candidato nem no Estado-Maior, nem em casa. Após três dias, os infatigáveis obreiros da Resistência desencantam-no em casa dos sogros, afectado por uma «crise de vontade». De crer que Portugal foi inventado para a servidão, passando da ditadura à estupidez, da estupidez à ditadura, todos os regimes iguais, a quererem curar a doença pela morte. 

Enquanto Costa Gomes, «a rolha», taramela, inaudível, e Melo Antunes se julga um pensador para o futuro, o MFA, duzentos e quarenta membros, reúne con-clave durante trinta horas de enfiada, não sabendo o que fazer com a sua vitória, entascado num discurso mais que nunca socialo-pluralo-marxizante-delirante. O advérbio verdadeiramente está na moda: implantação ver-dadeiramente da democracia. E a aliança MFA-povo é Molière político. Georges Dandin ministro entrega-se aos seus descomedimentos. Cada vez que o ilustre Vasco Lourenço, que exercia ascendente sobre lOtelo, conseguia convencê-lo a não dizer mais asneiras, graças ao seu admirável e tão bom sorriso, era todavia preciso despachar Marques Júnior no encalço do chefe do COPCON para que o primeiro magala não o virasse de pantanas. 

Vasco Gonçalves nomeado Primeiro-Ministro, a última calinada de Spínola, tem a arte de enganar milhares de pessoas com o coração. Por uma cultura democrática popular patriótica científica e de massa. Com o companheiro, a revolução arma-se duma nova PIDE, a V Divisão, instrumento indispensável à ditadura gonçalvista. Ele baixa a cabeça sobre as folhas do seu texto para a malta. Levanta-a, vocaliza enquanto a malta se deleita ao vê-lo gingar no estrado e brandir os óculos. O povo, e mais o povo. O Povo. O Povo, e quando digo Povo... Não é só o Povo que vai trabalhar amanhã... Por Povo não entendemos... pretendendo exercer o Poder em nome do Povo... Quem havia de pensar que havia tantos povos. A palavra volta, na modulação oratória. O gladiador deste fascismo de fancaria enreda-se nas malhas da sua rede, os cravos levados no maelstrom de merda a ferver da dinamização cultural que anuncia. A primeira etapa, dizem os soviéticos a quem acabam de confiar todo o frete português. 

A Comissão de dinamização cultural, n.° 50, rua Castilho, é dirigida pelo comandante Pessoa Guerreiro: Maio de 1968, incorporado no MFA. Cada região militar tem que enviar os seus comandos aos sectores sociais mais atrasados. Mas, como esta tropa funciona com anfetaminas e soporíferos, os analfabetos que eles querem catequizar mandam-nos embora à pedrada. 

E, por toda a parte, Soares: de pijama, de gabardine, cada vez mais gordo, cada vez mais magro, inclinando-se diante de Kissinger, aos pés do dalai-lama, beijando o anel ao Papa, levando a mulher à Tunísia, onde se estão nas tintas para as mulheres. Soares em quarenta e cinco dias, da Zâmbia ao triângulo das Bermudas, por toda a parte onde pode dar com os costados e voltar enaltecido com um fracasso. A América é generosa nos seus cálculos. Pensa-se em Robespierre, em Lenine. Cometeram crimes, mas nenhum deles cedeu. Afinal, para quê condenar Soares a vinte anos de biblioteca romântica, obrigá-lo a recopiar dez vezes Donoso Cortés inteiro? Ele levanta voo. É um balão. Quando era pequeno, diziam-lhe, dando-lhe pancadinhas na nuca: «Mário, faz lá de balão!» 

 Otelo inaugura. Tem vários rostos, o esquerdista e o palidote. Escreve peças, sem nenhum erro de português, mas muitos arranjos muito concretos: «Ele coçou a cabeça com todos os dedos.» Agarrou no ar algumas noções políticas: 1. Os socialistas no poder, é contra os americanos; 2. A censura, quando é exercida pelo PC, é vigilância no interesse dos trabalhadores. Um jornalista alemão estafa-se a dar-lhe todas as noites aulas de economia, mas ele não deixa de preconizar o anarquismo com, como em Fourier, um mar de limonada. Lê, lê, para ter uma opinião, ao acaso dos manuais, despistando-se no guévarismo, o maoísmo, o populismo, liga-dos a temas socialistas confusos, fascismo à portuguesa com a revolução permanente e a longa estrada rectilínea, daquilo a que Tomás Mann, falando do nazismo, chamava «a embriaguez das férias perpétuas do Eu.» 

Fabião, feito general, alimentado como os demais no barril caetanista, arrasta o seu socialismo de incapaz e o seu arcaboiço de Ilha da Páscoa, no meio dos sovietes que sonham rachar o bronze de Henrique o Navegador. Não passa, dizem eles, dum pequeno corsário, bacalhoeiro da CIA, o infamante Dom Henrique. 

O exército inteiro já não é mais que um agregado de FUR, SUV, amotinados da marinha que fazem comícios entre as brigadas do MLM e dos intelectuais que, para encurtar razões, reclamam alto à democracia. Já não se sabe quem é quem, o grande xamã, daroeses gira-dores, soldados de fancaria vestidos na feira da Ladra, e os místicos tipo Benares caídos na marabutagem. A palingenesia deste curioso sincretismo: a «haitização» mundial. Acha-se o Camboja muito chique, os khmers vermelhos um ideal. Ao mesmo tempo, cabelos de Medeia, alaúdes e guitarras, canta-se: Eu deixei tudo por Marylin. Quem colocará o encefalograma? 

Vasco Gonçalves, apresentado pelos jornalistas como «uma boa cabeça, lento a decidir-se, mas seguro nos seus juízos e resoluto», desenfreia-se. Verdadeiro chefe, no estilo «mobilização total», engana agora Álvaro Cunhal que o tinha encarregado da «reestruturação político-revolucionária do MFA com vista à transformação da sociedade». Arenga um povo imaginário, protótipo, de que cada um dos portugueses constituiriam uma parcela, integrados no MFA, sol do mundo. Realizariam juntos a comunidade deste novo éden. Ultrapassa as filípicas do absurdo. Desnorteados, os seus ministros demitem-se, os seus camaradas abandonam-no e Otelo, sem saber como desembaraçar-se dele, imitando Salazar, aconselha-o com um cartão de visita a pôr-se ao fresco. Cunhal tomou distâncias, mas Costa Gomes hesita ainda em substituí-lo, embora seja obrigado a reconhecer que o povo já não segue. 

Só Rosa Coutinho agarra a ocasião da explosão do MFA para lançar a ideia dum MFA civil, uma outra maneira de prolongar com o PC o clube dos senhores. Melo Antunes, o render do pensador, o homem da grande prosa, que vai conseguir o despedimento de Vasco. O episódio conhecido junta-se às facécias dramático-históricas do 25 de Abril. Como Antunes precisa de um braço secular, escolhe Otelo, chefe do COPCON, a quem promete a presidência da República em troca da prisão de Costa Gomes, se este recusar desembaraçar-se do «Maluco». Costa Gomes percebeu que era tempo. O grupo dos Nove aflito vota então uma moção garantindo ao demitido «a confiança atenta e inquieta do Conselho da Revolução». Otelo: «Ainda não nasceu quem conheça o pensamento de Melo Antunes. Eu cá conheço-o.» 

* * *

Portugal é ao mesmo tempo a Europa e a não-Europa, o Extremo-Ocidente que termina a Europa voltando as costas aos seus problemas. Num texto curioso, Froissart lembra-nos que, estando em Bruges, ouve falar dum cavaleiro português de partida para um outro porto da Flandres. Corre a vê-lo, interroga-o. E é-lhe respondido que João I e o Condestável Nuno Álvares acabavam, de facto, de restabelecer uma nação que, logo de repente, se lançava no Mar Tenebroso, a descobrir o globo. Nessa altura, na Europa, os países-infantes guerreavam-se entre eles. Esta iniciativa vinha de longe. Três séculos antes, Cristo anunciara em sonhos a Dom Afonso Henriques que faria do seu reino o reino do mar. Reservava para Portugal a vocação de ser mais que ele mesmo, de se espandir não em conquistas, mas para transmitir ao mundo a sua mensagem universal, o Quinto Império. 

Eu escutava o rumor de Lisboa e já só ouvia a historiazinha. Via-a ocupada com os seus falsos símbolos depois de ter sido Spínola, depois MFA, depois MFA nenhum. 

Catarina não se tinha afastado do muro, onde, sentada, ela acabava de bordar, num bastidor com flores, um açor dourado planando por cima de nove estrelas em arco sobre fundo de azul e branco. «Sobretudo não me fale do 25 de Abril, das pinochadas do seu Otelo, da Revolução. Não houve revolução, palhaçada, restauração. Um novo almirante no poder dirá uma coisa qualquer e os outros responder-lhe-ão uma coisa qualquer! Daqui vai deduzir que eu sou fascista, mas eu sou bem anterior às ideologias, eu sou das origens... E amanhã os Açores! Não aconteceu nada. Quem sabe se, de ilha em ilha, Portugal não voltará para nós? Olhe a bandeira que eu estou a bordar, tem as cores do Espírito... Os militares, se é isso, pessoas que fazem a chuva e o bom tempo!»

Eu queria falar-lhe de Angola. Ia para lá. Savimbi, precisamente... 

Ela interveio: — Uma mulher apaixonada, o que é, François? Uma mulher que tem segredos. Conta-os ou não os conta. O meu segredo, vou revelar-lho hoje, é o de Portugal. Nós outros, nós todos esperamos alguma coisa, desde sempre. Já não se pode falar de esquerda ou de direita, mas de Leste e de Oeste. «Quanto maior for o desastre, irremediável, mais perto estará o Quinto Império. É a nossa promessa, a nossa ferida. Então, você sabe, François, a tarantela imbecil dos seus capitães, para nós, na verdade, vento! Todo este escândalo para voltar a nada. Entretanto, talvez o meu pequeno segredo traga uma conclusão provisória ao seu testemunho... provisório. Olhe para a minha bandeira amarela e azul, as nove estrelas de ouro que eu estou a bordar... Mas mais tarde, bem mais tarde... «... Por favor, François, acenda-me o cigarro.» Tinha-se posto a observar os anéis de fumo circunscrevendo outros anéis que formavam ilhas e esferas. Deste modo ou daquele, eles flutuavam sobre as águas misteriosas da Chegada e do Novo e desfaziam-se por cima da embocadura do Tejo que largamente mistura as suas idades mortas à solidão do mar. 
... sobre a solidão do mar.